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Filho de faxineira, criado sem o pai, jovem enfrenta 14 tentativas para entrar em Medicina e faz o Enem sete vezes: André Ramon insiste até os 26 anos, recebe a aprovação no dia do aniversário e diz que vai construir uma casa nova para a mãe, que vivia em um imóvel de madeira.
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/08/2026 às 00:33
Atualizado em 24/08/2026 às 00:34
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André Ramon Arruda Maciel enfrentou 14 tentativas e sete edições do Enem até conseguir Medicina na Universidade Federal do Acre aos 26 anos. Filho de faxineira, criado sem o pai e com graves lacunas na educação básica, estudou cerca de oito horas por dia e recebeu a aprovação justamente no aniversário.
Em 10 de agosto de 2021, exatamente no dia em que completava 26 anos, André Ramon Arruda Maciel recebeu o resultado que perseguia havia sete anos: estava aprovado em Medicina na Universidade Federal do Acre (UFAC). Até chegar à vaga, foram 14 tentativas de ingresso e sete edições do Enem, segundo relato publicado pelo UOL.
A aprovação encerrava uma trajetória iniciada muito distante das condições normalmente associadas à preparação para um dos cursos mais concorridos do país. Filho de Vilenilde Arruda Maciel, então faxineira e auxiliar de serviços gerais, André cresceu sem a presença do pai, foi morar com a avó na zona rural aos 2 anos, sofreu reprovações ainda no início da escola e terminou o ensino médio afirmando que tinha dificuldades até com operações matemáticas básicas e interpretação de pequenos textos.
Pai saiu de sua vida e André foi morar com a avó aos 2 anos
André nasceu em Rio Branco, no Acre, mas sua infância passou por uma mudança importante muito cedo. Segundo contou ao UOL, o pai não quis assumir a paternidade e desapareceu depois da separação.
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Sem condições financeiras para cuidar do filho sozinha naquele momento, Vilenilde enviou o menino, aos 2 anos, para morar com a avó na zona rural de Acrelândia.
A escolarização também começou tarde. André ficou sem frequentar a escola até os 6 anos e, ao entrar no ensino fundamental sem ter passado pela pré-escola, encontrou dificuldades logo nos primeiros anos. Ele foi reprovado na primeira série e voltou a reprovar no ano seguinte.
Quando chegou à quinta série, já acumulava defasagem idade-série. A solução encontrada foi sua participação no Projeto Poronga, programa de aceleração da aprendizagem utilizado no Acre para estudantes com atraso escolar. A Câmara Municipal de Rio Branco também registrou posteriormente essa etapa de sua formação.
Ensino médio terminou com lacunas que tornavam Medicina um objetivo distante
Concluir a escola não significou sair dela academicamente preparado para competir por Medicina. André descreveu uma formação marcada por falta de professores, turmas numerosas e deficiências acumuladas ao longo dos anos na rede pública.
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Ao UOL, ele relatou que terminou o terceiro ano sem conseguir realizar adequadamente uma multiplicação envolvendo números decimais e com dificuldade para ler um texto curto sem esquecer o início da passagem. Naquela época, afirmou que sequer compreendia direito como funcionava o Enem.
O objetivo de cursar Medicina apareceu em um cenário no qual seria necessário reconstruir parte da educação básica ao mesmo tempo em que avançava para conteúdos exigidos nos processos seletivos. Em vez de uma preparação de poucos meses, o projeto acabaria ocupando aproximadamente sete anos.
Mãe faxineira sustentava uma casa com sete filhos
Vilenilde havia estudado somente até o ensino fundamental e trabalhava como diarista, faxineira e auxiliar de serviços gerais. Em 2021, a Câmara Municipal de Rio Branco registrou que ela trabalhava como faxineira em uma academia da capital acreana.
Durante parte da preparação de André, a situação familiar ficou ainda mais difícil. Depois da separação do padrasto do estudante, Vilenilde passou a sustentar uma casa com sete filhos, quatro deles menores de idade, segundo o relato publicado pelo UOL.
Na pandemia, André informou que a renda per capita familiar não ultrapassava aproximadamente R$ 250 naquele período. Ele contou que a família não chegou a ficar sem comer, mas enfrentava momentos em que havia pouca variedade de alimentos disponíveis em casa.
Ajuda de amigos permitiu que preparação para Medicina continuasse
Uma pessoa teve participação importante na mudança de perspectiva acadêmica de André. O economista e professor Pablo Marques, que se tornou amigo e incentivador do estudante, orientou o jovem a buscar o ensino superior e ajudou financeiramente em parte de seus estudos.
A Câmara de Rio Branco também registrou oficialmente esse apoio ao homenagear André após a aprovação.
Segundo o órgão legislativo, a ajuda de amigos, especialmente de Pablo, foi importante para que ele conseguisse terminar os estudos e chegar ao cursinho.
Mesmo assim, não houve resultado imediato. Entre 2014 e 2019, André continuou tentando sem conseguir a vaga em Medicina. Foi apenas em 2019 que passou a frequentar um cursinho conhecido de Rio Branco, pouco antes de a pandemia alterar novamente sua rotina.
Foram 14 tentativas e sete provas do Enem antes da aprovação
O número acumulado até 2021 mostra quanto a preparação se prolongou: André contabilizou 14 tentativas para entrar em Medicina e sete participações no Enem. A Câmara de Rio Branco resume o período como sete anos tentando alcançar a graduação.
A sucessão de resultados negativos também produziu pressão para que ele desistisse. André relatou que era cobrado para conseguir um emprego formal e que, em determinados momentos, até a própria mãe perguntava se não seria melhor escolher outro curso diante da dificuldade extrema de entrar em Medicina.
Vilenilde confirmou ao UOL que chegou a fazer esse questionamento porque via o filho passar anos sem obter a aprovação. Ainda assim, disse que ele continuou tentando até finalmente conseguir a vaga.
Oito horas de estudo por dia eram intercaladas com pintura, limpeza e outros bicos
Na reta final, André relatou uma preparação que chegava a aproximadamente oito horas de estudos por dia. A pandemia fechou estruturas presenciais em 2020, mas a ajuda de outro amigo do bairro permitiu que continuasse estudando.
Ao mesmo tempo, ele realizava trabalhos temporários sempre que surgiam oportunidades. Entre os serviços citados estavam limpeza de quintais e piscinas e trabalhos de pintura, usados para obter alguma renda durante intervalos da preparação.
A conciliação refletia uma dificuldade que o próprio André descrevia: para jovens de famílias pobres, permanecer anos apenas estudando pode ser interpretado socialmente como falta de trabalho, enquanto candidatos com maior suporte financeiro conseguem dedicar períodos extensos exclusivamente à preparação.
Aprovação em Medicina chegou exatamente no aniversário de 26 anos
Depois de anos acumulando provas e resultados negativos, o desfecho ocorreu em 10 de agosto de 2021. André completava 26 anos quando recebeu a confirmação de que havia conquistado uma vaga no bacharelado em Medicina da Universidade Federal do Acre.
A aprovação ocorreu pelo sistema de reserva de vagas. Documentação oficial da UFAC identifica André Ramon Arruda Maciel na primeira chamada de Medicina para candidatos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas, com renda familiar bruta per capita de até 1,5 salário mínimo e ensino médio integralmente cursado em escola pública.
Registros posteriores da própria universidade confirmam sua matrícula no bacharelado em Medicina. Em documentos acadêmicos de 2025, André ainda aparece como estudante do curso, então já avançado na graduação.
André foi ao trabalho da mãe para revelar pessoalmente que havia passado
Depois de receber a notícia, André decidiu contar à mãe pessoalmente. Amigos registraram o momento em que ele foi até o local onde Vilenilde trabalhava como faxineira e anunciou que finalmente havia conseguido entrar em Medicina na UFAC.
A reação ganhou repercussão nacional porque a aprovação representava também anos de investimento familiar.
Vilenilde havia sustentado os filhos com uma renda limitada e, apesar de em alguns momentos temer que Medicina estivesse distante demais, continuou apoiando a preparação.
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Dias depois, André e a mãe foram recebidos pela Câmara Municipal de Rio Branco. O estudante recebeu uma Moção de Aplauso, enquanto Vilenilde falou sobre outro problema que surgia depois da conquista: os custos necessários para manter um aluno de Medicina durante uma graduação integral.
Depois de Medicina, outro objetivo era substituir a casa de madeira da mãe
A aprovação não encerrou os planos de André. Em entrevista ao UOL logo após o resultado, ele explicou que enxergava a formação médica como possibilidade concreta de mudar as condições econômicas da família.
Entre os objetivos que mencionou estava construir uma nova casa para Vilenilde. Naquele momento, segundo o próprio estudante, a residência de sua mãe ainda era feita de madeira. Ele descreveu esse projeto como seu segundo grande sonho, depois da entrada em Medicina.
A cronologia ajuda a dimensionar a distância percorrida: André começou a escola aos 6 anos, repetiu os primeiros anos, precisou de programa de aceleração, concluiu o ensino médio com importantes lacunas, fez sete edições do Enem e acumulou 14 tentativas até receber, aos 26 anos e no próprio aniversário, a confirmação de que entraria na Medicina da UFAC.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

