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Aos 12 anos, menina vendia picolé para comprar cadernos e lápis, depois trabalhou em casa de família, como sacoleira e manicure, ouviu que ser gari era “trabalho de homem”, aceitou a vaga para pagar a faculdade de Letras, virou professora e acabou abrindo o próprio negócio em Pernambuco
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 21/08/2026 às 14:57
Atualizado em 21/08/2026 às 14:58
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Cleide Campos começou a trabalhar ainda na adolescência em Arcoverde, conseguiu uma vaga na limpeza urbana quando precisava financiar uma faculdade particular e usou o salário de gari para concluir Letras. Anos depois, passou pela sala de aula e transformou uma atividade que já fazia para complementar a renda em negócio próprio
Aos 12 anos, Cleide Campos vendia picolés e guardava as moedas para comprar cadernos, lápis e outros materiais escolares. A pernambucana, natural de Arcoverde, ainda passaria por diferentes ocupações até encontrar no serviço de limpeza urbana a renda que lhe permitiria pagar uma faculdade particular.
Antes de chegar à graduação, Cleide trabalhou em casa de família, ajudou uma professora em uma escola infantil, atuou como sacoleira e fazia unhas para obter renda. O caminho profissional, portanto, não ocorreu de forma linear e esteve diretamente ligado à necessidade de pagar despesas e buscar independência financeira.
A mudança mais decisiva ocorreu quando ela soube que uma empresa estava contratando e procurou uma oportunidade na prefeitura. A vaga disponível era na limpeza urbana e, segundo Cleide, inicialmente disseram que aquele seria um serviço pesado e mais adequado a homens.
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Ela decidiu aceitar. Na mesma época, havia sido aprovada no vestibular de Letras em uma instituição particular e precisava de uma fonte regular de renda para conseguir permanecer no curso.
Os R$ 90 do vestibular vieram depois de um ano juntando dinheiro
O ingresso na faculdade já havia exigido planejamento antes mesmo das mensalidades. Cleide contou que passou o ano anterior economizando até conseguir R$ 90 para pagar a taxa do vestibular, valor que representava uma barreira concreta diante da situação financeira da família.
Segundo relato publicado pelo UOL Universa em 19 de outubro de 2021, Cleide tinha 32 anos na época e contou que o salário recebido como gari foi usado tanto para pagar a graduação em Letras quanto para ajudar os pais. O serviço envolvia uma rotina fisicamente pesada, mas oferecia a renda necessária para manter o projeto de concluir o ensino superior.
A atividade de varredor de rua é reconhecida oficialmente pela Classificação Brasileira de Ocupações sob o código CBO 5142-15, que também utiliza a denominação gari. A descrição do Ministério do Trabalho e Emprego inclui tarefas como varrer calçadas, sarjetas e calçadões, recolher resíduos e auxiliar na conservação dos espaços públicos, sem qualquer distinção da ocupação por gênero.
Antes da limpeza urbana, o trabalho já fazia parte da rotina desde a infância
Cleide cresceu em Arcoverde, no Sertão de Pernambuco, com os pais adotivos, que trabalhavam como agricultores. Em alguns períodos, acompanhava a família na roça de feijão e milho e estudava em uma escola próxima de casa.
Aos 12 anos, começou a vender picolés. O dinheiro tinha uma finalidade bastante específica, comprar os próprios materiais escolares, em uma época em que a renda familiar era limitada.
Posteriormente, trabalhou em casa de família, mas deixou o emprego após um irmão aconselhá-la a priorizar os estudos. Aos 16 anos, conseguiu uma oportunidade em uma pequena escola, auxiliando uma professora responsável por crianças de três anos.
Foi nessa fase que o interesse pela educação começou a ganhar espaço. Cleide cursou o magistério, embora sua vida profissional tenha tomado outros caminhos antes de ela conseguir efetivamente trabalhar como professora.
Manicure e sacoleira entraram na renda antes de Cleide conseguir a vaga de gari
Durante o primeiro casamento, Cleide deixou o emprego na escola e passou um período dedicada à casa. Diante da falta de dinheiro para despesas pessoais e itens básicos, retomou uma habilidade que já conhecia e passou a fazer unhas para complementar a renda.
Também trabalhou como sacoleira e chegou a substituir professores temporariamente. Depois do fim do casamento, retornou à casa dos pais apenas com seus pertences e voltou a procurar emprego.
Foi nesse período que encontrou a oportunidade na empresa responsável pela limpeza urbana. A resistência inicial que encontrou por ser mulher não mudou a decisão, porque a prioridade naquele momento era conseguir uma remuneração que permitisse iniciar a graduação.
O trabalho como gari acabou ocupando uma função financeira bastante objetiva. Em vez de abandonar a vaga quando entrou na faculdade, Cleide manteve o serviço e direcionou parte do salário às mensalidades.
O diploma mudou a ocupação, mas também expôs a diferença de tratamento entre as profissões
Depois de concluir Letras, Cleide deixou a limpeza urbana e começou a trabalhar como professora. A mudança permitiu que ela finalmente exercesse uma atividade ligada à formação que havia financiado durante os anos anteriores.
A experiência também mostrou uma diferença que ela disse perceber na maneira como era tratada. Enquanto trabalhava como gari, ouviu comentários questionando por que fazia faculdade se continuava varrendo ruas e relatou episódios em que pessoas jogavam lixo no chão para que ela recolhesse.
Na faculdade, a ocupação também provocou constrangimentos. Cleide relatou que perdeu a proximidade com colegas depois de contar que trabalhava como gari, situação que permaneceu em sua memória mesmo após concluir o curso.
Quando passou a exercer a profissão de professora, segundo ela, o tratamento mudou. Essa percepção se tornou uma das partes centrais do relato, por mostrar como o reconhecimento social recebido por uma mesma pessoa pode variar de acordo com o trabalho que ela exerce.
A pandemia interrompeu os contratos na educação e recolocou a manicure no centro da renda
A carreira na sala de aula sofreu uma nova mudança durante a pandemia de Covid-19. Cleide contou que seus contratos como professora foram cancelados, deixando-a novamente sem a renda que utilizava para pagar despesas e parcelas da casa.
O trabalho com unhas, que anteriormente funcionava principalmente como atividade complementar, passou então a ser tratado como fonte principal de renda. Ela decidiu investir profissionalmente na área e buscou financiamento para estruturar o negócio.
Cleide também informou ter feito formação para ministrar cursos ligados ao segmento. A proposta era usar o espaço comercial tanto para atender clientes quanto para ensinar outras mulheres interessadas em obter renda com serviços de manicure e cuidados com unhas.
Em 2021, quando sua trajetória foi divulgada, ela já havia aberto o próprio ateliê de unhas em Pernambuco e relatava ter recebido em Caruaru um reconhecimento como profissional destaque daquele ano. Informações públicas recentes não permitem afirmar que a estrutura ou a atividade comercial permaneçam exatamente iguais atualmente, por isso esses dados se referem ao período do relato.
De picolés aos 12 anos ao negócio próprio, a sequência revela diferentes formas de financiar estudo e trabalho
A história de Cleide reúne ocupações bastante diferentes. Venda de picolé, trabalho doméstico, atividade de sacoleira, manicure, limpeza urbana e docência entraram em momentos distintos conforme as necessidades financeiras e as oportunidades disponíveis.
O ponto que conecta essas fases é a utilização do trabalho como meio para financiar o passo seguinte. O emprego de gari permitiu pagar a faculdade de Letras; o diploma abriu caminho para a docência; e a experiência anterior como manicure voltou a gerar renda quando os contratos na educação foram interrompidos.
O caso também contraria a ideia que Cleide ouviu quando procurou a vaga na limpeza urbana, de que ser gari seria “trabalho de homem”. A própria classificação oficial da profissão trata o trabalho como uma ocupação do setor de coleta de resíduos, limpeza e conservação de áreas públicas, sem estabelecer divisão por sexo.
Aos 32 anos, quando contou sua trajetória em 2021, Cleide já havia passado por pelo menos seis tipos diferentes de trabalho. Mais que uma mudança repentina de vida, sua história mostra uma sucessão de escolhas profissionais condicionadas por renda, estudo, desemprego e necessidade de adaptação.
E você, o que pensa sobre a trajetória de Cleide e sobre o preconceito enfrentado por trabalhadores da limpeza urbana? Deixe seu comentário e conte se conhece alguém que também precisou conciliar trabalhos muito diferentes para financiar os estudos ou mudar de profissão.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

