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Aos 16 anos, ele achou por acaso um livro proibido escondido numa estante e, contrariando o aviso, levou a obra à escola para a menina que amava, sem imaginar que aquele gesto daria início a um romance secreto que atravessaria anos e fronteiras
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 11/08/2026 às 21:00
Atualizado em 11/08/2026 às 21:01
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O dono da casa baixou a voz ao entregar os sete volumes e fez três pedidos: não mostre a ninguém, não leve para a escola, devolva quando terminar. O adolescente descumpriu os dois primeiros na semana seguinte, colocando o romance dentro da mochila de uma colega de classe.
Aos 16 anos, o uigur Yalkun Uluyol encontrou por acaso um livro proibido pelo governo chinês na estante de um parente distante e decidiu compartilhá-lo com Rabia, colega de escola por quem era apaixonado, gesto que deu início a um relacionamento que dura desde então, conforme relato publicado por ele no jornal britânico The Guardian. O episódio aconteceu em uma noite quente de verão de 2009, na cidade de Kumul, na região chinesa de Xinjiang.
A obra tinha sete volumes e estava posicionada em um canto da estante, aparentemente escondida de propósito. Ao pedir emprestado, ele ouviu do dono da casa um aviso em voz baixa, com três instruções: não mostrar a ninguém, não levar para a escola e devolver depois da leitura.
A noite em que o livro apareceu
O achado foi resultado de tédio. Yalkun acompanhava o pai em uma visita à casa de um parente distante, e enquanto os adultos conversavam por horas o adolescente procurava alguma forma de passar o tempo.
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Foi então que pediu permissão para explorar o escritório da casa, um cômodo com prateleiras que reuniam centenas de livros. Entre os volumes organizados, um conjunto de sete chamou a atenção dele justamente pela posição, encaixado em um canto de forma que não fosse encontrado com facilidade.
O nome da obra é Leyighan Bulaq, que em português significa algo próximo de A Nascente Turva, e o autor é Jalalidin Băhram, romancista uigur reconhecido. A explicação sussurrada pelo anfitrião foi direta: trata-se de um livro bem escrito sobre as brutalidades da Revolução Cultural, e por isso está proibido pelo governo.
O efeito contrário do aviso
A recomendação de discrição produziu o resultado oposto do pretendido. A família chegou em casa perto da meia-noite, e a curiosidade não deixou o adolescente esperar até o dia seguinte.
Ele abriu o primeiro volume ainda naquela madrugada e não conseguiu parar de ler. O que o prendeu foram os personagens: professores de uma área rural da própria terra natal dele, submetidos a trabalho forçado, assimilação e doutrinação política.
A identificação foi imediata e é o que explica todo o resto da história. Um adolescente uigur em Xinjiang lendo, em segredo, um romance sobre uigures perseguidos em Xinjiang encontrou ali não apenas ficção, mas um espelho do próprio contexto.
O bilhete dentro da mochila
Apesar da promessa feita ao parente, Yalkun decidiu levar a obra para a escola. O destino era específico: Rabia, colega de classe por quem ele tinha sentimentos que não conseguia expressar em público.
A restrição social explica o método. Na cidade conservadora onde viviam, amizade entre meninos e meninas não era bem vista, e os dois mantinham distância quando havia gente por perto. A comunicação acontecia por escrito, em cadernos que passavam de um para o outro, com comentários sobre livros e reflexões trocadas página a página.
Em um dia de aula, ele colocou o romance na mochila dela junto com um bilhete curto, dizendo que a amizade retratada no livro era muito pura e que valorizava a amizade entre os dois da mesma forma. Foi um pedido de aproximação escondido dentro de um comentário literário, e que só funcionaria porque ela leria a obra e entenderia a referência.
Quando os personagens saíram de cena
O sistema de cadernos continuou, mas o assunto foi mudando. No começo, as anotações tratavam dos personagens e das situações do livro. Aos poucos, os sentimentos dos dois passaram a aparecer entre uma página e outra.
A declaração veio pela mesma via e usando o mesmo recurso. Inspirado pelos protagonistas da obra, Yalkun escreveu que também tinha sentimentos por ela. A ficção proibida serviu de vocabulário para dizer o que a convivência real não permitia.
Foi assim que o namoro começou, sem encontro combinado, sem declaração falada e sem nenhuma cena pública. Tudo aconteceu por escrito, dentro de cadernos escolares que ninguém mais leria.
Quatro anos de separação
Cerca de um ano depois do início do relacionamento, Yalkun deixou Xinjiang para estudar no exterior. A distância poderia ter encerrado a história ali, mas os dois seguiram em contato por telefonemas e mensagens.
Do lado de Rabia, os obstáculos foram administrativos e concretos. Ela enfrentou dificuldade para conseguir passaporte, e o relato dele aponta que as autoridades de Xinjiang mantinham controle rígido sobre a emissão desse documento para a população uigur. Ela também foi impedida de prestar o exame de ingresso na universidade por usar lenço na cabeça.
A saída veio por um caminho lateral. Rabia se mudou para Pequim para fazer um curso de idiomas, e foi essa mudança que acabou viabilizando a viagem. Quatro anos depois da partida dele, ela conseguiu chegar a Istambul, onde ele estudava. Os dois se casaram em 2020 e passaram a lua de mel em Mardin, na Turquia.
O que ficou para trás em Xinjiang
O reencontro não encerrou as dificuldades. Enquanto o casal construía uma vida nova, muitos parentes permaneceram na região de origem, e a repressão que o livro descrevia em outro período histórico continuava presente em outra forma.
Segundo Yalkun, o pai dele foi detido durante a campanha de repressão conduzida pelas autoridades chinesas contra a população uigur. E o contato com quem ficou passou a ser evitado deliberadamente: o casal reduziu a frequência das conversas com familiares por receio de que qualquer comunicação trouxesse consequências para quem permanecia lá.
Em novembro de 2023, veio a perda mais dura. A filha do casal, de dois anos, morreu vítima de uma doença incurável. A menina foi enterrada em Istambul, longe dos avós e do restante da família.
Os cadernos encontrados na mudança
No fim de 2024, Yalkun e Rabia se mudaram para Londres. Foi durante a organização das caixas que eles encontraram mais de uma dezena dos cadernos usados na adolescência para as mensagens secretas.
Sentaram-se para reler as cartas escritas mais de uma década antes, e o que perceberam ali é o que fecha a história. A própria trajetória dos dois havia seguido o mesmo desenho do romance que os aproximou: tragédia, mas também amizade, amor e resistência. O livro que descrevia perseguição, separação e afeto clandestino acabou funcionando como roteiro antecipado da vida deles.
Hoje, os sete volumes continuam ocupando um lugar específico na biblioteca do casal. Não é peça de coleção nem lembrança decorativa: é o objeto que começou tudo.
Quem é o autor do relato
O homem que escreveu essa história não é personagem anônimo. Yalkun Uluyol é pesquisador sobre a China no Human Rights Watch, organização internacional de direitos humanos, e o trabalho dele trata de política internacional, direitos civis e políticos, liberdade religiosa, trabalho forçado e repressão transnacional.
A trajetória acadêmica passou pelos mesmos lugares da história pessoal. Ele é graduado em economia pela Universidade de Istambul e doutor em Relações Internacionais pela Universidade Koç, também na Turquia. Antes de entrar na organização, pesquisou trabalho forçado uigur e cadeias globais de suprimento na Universidade Sheffield Hallam, no Reino Unido, e cofundou um projeto de monitoramento de direitos na região de origem dele.
Ele fala publicamente sobre a detenção do próprio pai e afirma que nenhum dos uigures presos injustamente, incluindo o pai, era o que se chamaria de caso evidente: segundo ele, foram alvo de repressão estatal simplesmente por serem uigures. O adolescente que escondia um livro na mochila virou o adulto que documenta, profissionalmente, o sistema que proibia aquele livro.
Um livro que continua proibido
A obra que aproximou os dois pertence a uma categoria conhecida na região. Livros de autores uigures que tratam de história, identidade ou perseguição figuram entre os alvos recorrentes de censura, e outros casos seguiram o mesmo caminho.
O exemplo mais citado é o de Turghun Almas, historiador uigur que publicou em 1989 uma obra sobre a história do próprio povo. O livro foi proibido logo depois do lançamento e o autor passou os anos seguintes em prisão domiciliar até morrer, em 2001. Há também registros de editores e escritores presos em razão de títulos publicados na região.
É esse contexto que dá dimensão ao gesto de 2009. Emprestar um exemplar, esconder na mochila e passar adiante não era travessura de adolescente. Era circulação clandestina de material censurado, feita por um garoto de 16 anos que queria impressionar uma colega de classe.
E você, já leu algum livro que mudou o rumo de alguma coisa na sua vida, ou conhece uma história que começou por causa de um empréstimo desses? Conta nos comentários qual foi o livro e o que aconteceu depois.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

