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Aos 29 anos, imigrante do Panamá chegou aos EUA e descobriu que seus créditos da faculdade não seriam transferidos, virou faxineiro de hospital para sustentar a família, estudou Enfermagem trabalhando à noite e fazendo estágios de 12 horas e, em 2025, voltou aos corredores onde o filho era tratado como enfermeiro pediátrico
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/08/2026 às 19:36
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Mudança de país, necessidade financeira e uma rotina familiar marcada por cuidados médicos colocaram um trabalhador diante de decisões que redesenharam sua trajetória profissional, entre empregos operacionais, estudos exigentes e uma oportunidade inesperada dentro do mesmo universo hospitalar que passou a fazer parte de sua vida.
Noriel Sanchez já possuía experiência profissional e construía uma carreira quando deixou o Panamá com a família rumo aos Estados Unidos, onde pretendia permanecer por um período limitado, continuar os estudos e depois retomar o caminho que havia iniciado na área de projetos e construção.
O plano mudou quando ele descobriu que os créditos acumulados na faculdade não seriam transferidos, o que tornava necessário recomeçar a graduação em um momento no qual a família não dispunha do tempo nem dos recursos financeiros exigidos para esse processo.
Sem condições de seguir imediatamente pela mesma área, Sanchez priorizou a renda familiar, passou por um supermercado e depois conseguiu uma vaga no setor de limpeza da Kaiser Permanente, onde começou a trabalhar como faxineiro em uma unidade médico-cirúrgica.
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Além de oferecer remuneração melhor, o novo emprego garantia benefícios de saúde importantes para uma família que começava a enfrentar uma situação médica complexa e que, pouco depois, passaria a depender ainda mais do acesso contínuo a hospitais e especialistas.
Imigrante do Panamá precisou recomeçar a carreira nos Estados Unidos
Segundo a George Fox University, instituição onde Sanchez posteriormente cursou Enfermagem, ele nasceu em uma família de trabalhadores no Panamá, começou a trabalhar em uma empresa de arquitetura aos 17 anos e conciliou desde cedo a rotina profissional com os estudos.
Quando se mudou para os Estados Unidos aos 29 anos, Sanchez já atuava com desenhos técnicos, projetos, administração, planejamento e orçamento em uma empresa de engenharia civil, experiência que fazia parte da carreira que ele imaginava continuar depois da mudança de país.
A ida aos Estados Unidos ocorreu por uma necessidade familiar, já que Rebecca, mulher de Sanchez, tinha um pai que precisava de cuidados após passar por um transplante de coração, enquanto o casal inicialmente imaginava permanecer no país durante apenas um ou dois anos.
Nesse período, Sanchez interrompeu a elaboração de sua tese, dedicou-se ao aprendizado do inglês e acreditava que conseguiria retomar a formação acadêmica em território americano, até descobrir que os créditos obtidos anteriormente não seriam aproveitados pela nova instituição.
Diante da impossibilidade financeira de começar o curso novamente naquele momento, ele deixou os planos acadêmicos em segundo plano e concentrou-se no trabalho, enquanto a família enfrentava uma mudança ainda mais profunda com o nascimento de Oliver, seu segundo filho.
Saúde do filho mudou a rotina da família
Oliver nasceu com problemas de saúde que exigiram acompanhamento médico frequente, passou por uma intervenção relacionada a uma alteração cardíaca e, conforme novas avaliações eram realizadas, recebeu outros diagnósticos que ampliaram a necessidade de acompanhamento especializado.
De acordo com a George Fox University, o menino foi identificado com uma rara microdeleção no cromossomo 6 e passou a ser acompanhado por uma equipe formada por mais de 20 especialistas de diferentes áreas, devido à complexidade de suas necessidades médicas.
A necessidade de manter acesso contínuo ao tratamento tornou inviável o retorno da família ao Panamá e deu ainda mais peso à busca de Sanchez por um emprego que oferecesse estabilidade financeira e benefícios de saúde adequados.
Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade na Kaiser Permanente, onde Sanchez passou a trabalhar na limpeza da ala médico-cirúrgica e entrou diariamente em contato com um ambiente que, naquele momento, representava principalmente uma fonte de renda para sustentar a família.
Com o passar dos anos, porém, aquele trabalho operacional deixou de ser apenas uma solução financeira, porque o contato constante com pacientes, profissionais da saúde e rotinas hospitalares começou a aproximá-lo de uma área que até então não fazia parte de seus planos profissionais.
Trabalho na limpeza aproximou Sanchez da Enfermagem
Enquanto cumpria turnos no hospital, Sanchez também acompanhava as frequentes internações do filho no Randall Children’s Hospital, onde enfermeiros ensinavam à família cuidados necessários para atender Oliver em casa, incluindo rotinas relacionadas à alimentação e à administração de medicamentos.
A convivência diária com a área médica não provocou uma mudança imediata de profissão, já que Sanchez permaneceu durante vários anos no setor de limpeza, assumiu a liderança da equipe do turno noturno e, gradualmente, ampliou sua formação dentro do ambiente hospitalar.
Mais tarde, ele buscou qualificação como auxiliar de enfermagem certificado, mas o objetivo inicial dessa formação não era conseguir uma promoção ou abandonar o setor de limpeza, e sim desenvolver conhecimentos que pudessem ajudá-lo nos cuidados cotidianos do próprio filho.
Embora colegas e pessoas próximas já sugerissem que ele deveria estudar Enfermagem, Sanchez ainda não enxergava a profissão como seu próximo passo, até que uma nova emergência médica enfrentada pela família tornou a necessidade de ampliar seus conhecimentos ainda mais concreta.
A decisão ganhou força depois que Oliver sofreu um acidente vascular cerebral, situação que levou Sanchez a perceber quanto compreender melhor os tratamentos poderia ajudá-lo a participar de forma mais preparada das decisões relacionadas à saúde do menino.
A partir desse momento, a Enfermagem passou a representar não apenas uma possibilidade de desenvolvimento profissional, mas também uma forma de aprofundar conhecimentos diretamente ligados às experiências que a família acumulava durante consultas, internações e períodos prolongados dentro de hospitais.
Faculdade foi conciliada com emprego integral e estágios de 12 horas
Para ingressar no curso, Sanchez primeiro completou disciplinas exigidas no Portland Community College e, depois dessa etapa, transferiu-se para a George Fox University, onde realizou os dois anos finais da formação necessária para atuar profissionalmente como enfermeiro.
Durante todo esse processo, ele não abandonou o emprego e precisou conciliar as exigências acadêmicas com uma jornada de trabalho em período integral, além das responsabilidades familiares associadas ao tratamento contínuo de Oliver.
A George Fox University registra que Sanchez chegou a cumprir estágios clínicos de 12 horas e, em parte da graduação, frequentava aulas durante o dia antes de assumir o trabalho noturno, distribuindo o restante do tempo entre estudos e convivência familiar.
Enquanto avançava na faculdade, ele ainda precisou lidar com uma das fases mais delicadas do tratamento do filho, pois, cerca de três meses depois do início do programa de Enfermagem, Oliver, então com 9 anos, sofreu uma grave complicação de saúde.
O menino precisou permanecer hospitalizado durante aquele período, mas conseguiu se recuperar e voltar para casa, enquanto Sanchez continuou frequentando o curso e acompanhando a rotina médica do filho sem interromper a trajetória acadêmica que havia iniciado.
Nesse contexto, as experiências pessoais vividas durante anos dentro dos hospitais começaram a se conectar diretamente às habilidades técnicas desenvolvidas na graduação, aproximando cada vez mais Sanchez da profissão que antes sequer fazia parte do planejamento construído no Panamá.
Hospital onde o filho era tratado abriu uma nova etapa profissional
O Randall Children’s Hospital ocupava um espaço central na rotina da família, porque era ali que Oliver recebia acompanhamento e havia passado por tratamentos importantes desde o nascimento, tornando aqueles corredores familiares a Sanchez muito antes de qualquer vínculo profissional.
Durante anos, ele conheceu a instituição principalmente como pai de um paciente que precisava de consultas, internações e acompanhamento especializado, experiência que lhe permitiu observar de perto o trabalho realizado por enfermeiros responsáveis pelo atendimento do menino.
Antes mesmo de concluir a graduação em Enfermagem, Sanchez recebeu justamente naquela instituição uma oportunidade de trabalho que mudaria novamente sua trajetória, desta vez colocando-o profissionalmente no mesmo ambiente que havia frequentado acompanhando o tratamento do filho.
O Randall Children’s Hospital contratou Sanchez para atuar como enfermeiro pediátrico, permitindo que o antigo funcionário da limpeza passasse a trabalhar diretamente no cuidado de crianças e no atendimento de famílias que enfrentavam experiências hospitalares semelhantes às que ele conhecia.
A formatura ocorreu em maio de 2025, depois de uma trajetória que reuniu mudança de país, interrupção dos planos acadêmicos anteriores, anos de trabalho na limpeza hospitalar, formação como auxiliar de enfermagem e uma nova graduação realizada sem abandonar o emprego.
A contratação também estabeleceu uma ligação direta entre momentos distintos de sua vida, já que Sanchez passou dos turnos de limpeza em outro hospital para uma função clínica justamente na instituição onde Oliver havia recebido atendimento durante grande parte da infância.
Da limpeza hospitalar ao trabalho como enfermeiro pediátrico
Entre os profissionais que Sanchez passou a encontrar como colegas estavam pessoas que já haviam participado dos cuidados prestados ao menino, incluindo enfermeiros cuja atuação durante períodos difíceis também havia contribuído para despertar nele o interesse pela profissão.
Ao longo desse percurso, a experiência na limpeza hospitalar aproximou Sanchez da rotina de pacientes e equipes de saúde, enquanto a qualificação como auxiliar certificado ampliou gradualmente seu contato com cuidados básicos antes da etapa universitária necessária para assumir responsabilidades de enfermeiro.
Seu retorno ao ensino superior também representou um recomeço diferente daquele imaginado quando deixou o Panamá, pois a formação originalmente interrompida não foi retomada e acabou cedendo espaço a uma carreira construída a partir das circunstâncias encontradas nos Estados Unidos.
Depois de descobrir que os créditos anteriores não seriam transferidos, Sanchez cumpriu novos pré-requisitos acadêmicos, ingressou em outra graduação e concluiu uma formação diretamente relacionada ao ambiente hospitalar que havia conhecido primeiro como funcionário da limpeza e familiar de um paciente.
Hoje, o trabalho como enfermeiro pediátrico coloca Sanchez do outro lado de uma experiência que conheceu inicialmente como pai, fazendo dos corredores associados às consultas e internações do filho também parte de sua própria rotina profissional.
Ali, o antigo funcionário da limpeza passou a atender crianças e conviver com famílias que enfrentam períodos prolongados dentro de hospitais, depois de uma trajetória marcada pela necessidade de trabalhar, estudar e reorganizar os próprios planos profissionais em torno das circunstâncias familiares.
Quantas trajetórias profissionais podem começar justamente em um trabalho assumido apenas por necessidade e mudar completamente quando a experiência pessoal revela uma profissão que antes sequer estava nos planos?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

