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Filho de catadores cresceu na periferia de Belém, deixou a faculdade para ajudar a família, trabalhava recolhendo recicláveis, estudava com livros doados até 23h e, aos 22 anos, passou em 2º lugar em Medicina na UFPA
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/08/2026 às 19:36
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Rotina de trabalho pesado, livros reaproveitados e poucas horas disponíveis para estudar marcou a trajetória de um jovem da periferia de Belém que conciliou dificuldades financeiras e preparação acadêmica até conquistar uma vaga concorrida em Medicina em uma universidade pública brasileira.
Segundo reportagem do UOL, Joel Silva tinha 22 anos quando conquistou uma vaga em Medicina na Universidade Federal do Pará, a UFPA, depois de conciliar trabalho com materiais recicláveis, dificuldades financeiras e uma preparação noturna marcada por poucas horas disponíveis para estudar.
Morador do bairro da Terra Firme, em Belém, ele alcançou a segunda colocação entre candidatos de escola pública, com nota ponderada de 826 pontos no Exame Nacional do Ensino Médio, resultado que abriu caminho para uma nova tentativa dentro da universidade pública.
Antes dessa aprovação, Joel já havia ingressado em Direito na própria UFPA, mas interrompeu a graduação em meio à necessidade de trabalhar e ajudar a família, além de perceber que não se identificava com o curso escolhido naquele primeiro momento.
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Filho de catadores cresceu entre materiais recicláveis e livros
Em casa, a realidade financeira estava diretamente ligada à reciclagem, atividade exercida pelos pais havia mais de 15 anos em uma cooperativa de Belém, ambiente que também aproximou o jovem dos livros e ampliou seu contato com diferentes áreas do conhecimento.
Entre papel, papelão, garrafas PET e outros materiais recolhidos, apareciam livros que ainda podiam ser aproveitados, e Joel passou a separá-los para leitura, criando um hábito que ultrapassava as exigências das provas e acompanhava sua preparação acadêmica de forma constante.
Além dos conteúdos voltados ao Enem, ele procurava obras de literatura e temas ligados a história, sociologia, filosofia e biologia, formando uma rotina de leitura ampla enquanto dividia o tempo entre a coleta seletiva, os estudos e as responsabilidades familiares.
Trabalho na coleta seletiva dividia espaço com o Enem
Na Terra Firme, Joel trabalhava ao lado dos pais na coleta seletiva e, em determinados períodos, reduziu a jornada para meio expediente a fim de frequentar um cursinho e ampliar o tempo dedicado à preparação para uma vaga em Medicina.
Quando as dificuldades financeiras se intensificaram, porém, ele precisou retornar ao trabalho em período integral, reorganizando os estudos para as horas restantes do dia e mantendo a preparação mesmo com uma rotina que começava cedo e terminava apenas à noite.
Por volta das 6h, o jovem iniciava o dia, tomava café e seguia para o trabalho, percorrendo ruas de Belém e passando de casa em casa para recolher materiais recicláveis, atividade que também criou vínculos com moradores ao longo do trajeto.
Livros doados reforçaram a preparação para Medicina
Foi nesse contato cotidiano que algumas pessoas passaram a conhecer seu objetivo e começaram a doar materiais de estudo, enquanto outros livros chegavam por meio da própria cooperativa ou do circuito da reciclagem no qual Joel trabalhava diariamente com a família.
Assim, parte dos recursos usados na preparação para o Enem surgiu do mesmo ambiente que consumia boa parte de sua jornada, transformando livros doados ou reaproveitados em apoio concreto para um estudante que precisava conciliar renda, estudo e responsabilidades familiares.
Depois do expediente, normalmente por volta das 19h, Joel começava a estudar e seguia até as 22h, estendendo a preparação até as 23h em alguns dias, antes de retomar na manhã seguinte a mesma rotina de trabalho e estudo.
Durante o período de aulas remotas, o acesso limitado à internet de qualidade e a equipamentos também dificultou a preparação, levando o jovem a estudar sozinho em casa durante parte desse período com os livros e materiais que conseguia manter disponíveis.
Objetivo de cursar Medicina nasceu da realidade ao redor
A escolha por Medicina estava ligada à realidade que Joel observava ao redor, já que ele via a profissão como uma possibilidade de transformação social e pretendia atuar no atendimento à população, especialmente diante das dificuldades enfrentadas por moradores de sua região.
Entre os motivos mencionados pelo estudante estava a dificuldade de acesso a determinadas especialidades médicas, questão que reforçou o interesse pelo curso e ajudou a consolidar um objetivo que exigiria uma preparação longa, disciplinada e adaptada às condições disponíveis.
Quando a lista de aprovados foi divulgada, Joel se preparava para mais um dia de trabalho, e seu nome apareceu na segunda posição entre os concorrentes de escola pública, confirmando um resultado construído ao longo de uma rotina intensa e pouco convencional.
A nota ponderada de 826 pontos no Enem marcou o retorno à UFPA, agora em Medicina, depois de uma primeira passagem pela universidade em outro curso e de um período em que o trabalho com recicláveis ocupou espaço central na vida familiar.
Permanência na universidade trouxe outro desafio
Mesmo após conquistar a vaga, as dificuldades materiais não desapareceram, e Joel apontava a permanência na universidade como uma segunda barreira para estudantes de baixa renda, já que continuar a formação também dependia de condições financeiras para se manter durante o curso.
Ao reunir trabalho diário, livros reaproveitados ou recebidos por doação e estudo concentrado no período noturno, a preparação de Joel foi construída dentro dos limites de sua realidade, sem interromper a contribuição à renda familiar nem abandonar o objetivo de ingressar em Medicina.
Depois de deixar uma primeira graduação, ele retornou à universidade por outro caminho e iniciou Medicina após conciliar o Enem com a coleta de materiais recicláveis, em uma trajetória marcada por esforço contínuo, adaptação da rotina e apoio recebido ao longo do processo.
Quantos estudantes com potencial semelhante ainda dependem de livros reaproveitados, poucas horas livres e apoio informal para tentar conquistar uma vaga no ensino superior brasileiro, mesmo quando precisam dividir a preparação com trabalho, renda familiar e limitações de acesso?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

