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Aos 71 anos, Dalva Ringuier transformou parte de sua propriedade de 19 hectares no Caparaó em uma reserva permanente, onde recuperou Mata Atlântica, recebe pesquisas e ajudou a devolver cerca de 175 aves e 3 jabutis à natureza
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 22/08/2026 às 17:24
Atualizado em 22/08/2026 às 17:25
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Propriedade rural no Caparaó deixou de ser apenas área de pastagem e passou a reunir floresta recuperada, proteção permanente, pesquisa científica, educação ambiental e apoio à soltura de animais silvestres, em uma transformação conduzida ao longo de décadas pela ambientalista Dalva Ringuier no Espírito Santo.
Uma propriedade rural de 19 hectares que já foi marcada por pastagens passou a abrigar floresta de Mata Atlântica, atividades de pesquisa, educação ambiental e uma área privada de proteção permanente na região do Caparaó, no Espírito Santo, depois de décadas de recuperação ambiental. O projeto de recuperação ambiental começou em 1997.
À frente desse processo está a ambientalista Dalva Ringuier, de 71 anos, que adquiriu o terreno com o objetivo de recuperar a vegetação e destinou parte da propriedade à criação de uma Reserva Particular do Patrimônio Natural, ampliando a proteção do espaço.
Recuperação da Mata Atlântica mudou a paisagem da propriedade
Ao longo dos anos, onde antes predominava uma pastagem de baixa qualidade, o terreno passou por recuperação ambiental com introdução de espécies nativas e regeneração natural, favorecida também pela dispersão de sementes realizada por aves, morcegos e outros animais que voltaram a ocupar a área.
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Localizada no entorno do Parque Nacional do Caparaó, a propriedade fica em uma das regiões de Mata Atlântica situadas entre Espírito Santo e Minas Gerais, posição que aproxima o terreno particular de um dos principais blocos protegidos de vegetação nativa daquela área.
Essa proximidade aumenta a relevância ambiental do imóvel, porque áreas privadas cobertas por vegetação podem complementar espaços oficialmente protegidos e oferecer abrigo, alimento e condições de deslocamento para espécies que utilizam diferentes trechos de floresta ao longo de seus ciclos naturais.
RPPN mantém parte do terreno protegida permanentemente
Parte do imóvel recebeu o reconhecimento como Reserva Particular do Patrimônio Natural, categoria que mantém a terra sob propriedade privada, mas estabelece proteção ambiental permanente, vinculando a conservação daquele trecho ao próprio imóvel mesmo quando ocorrem futuras mudanças de titularidade.
Na prática, o proprietário continua sendo dono da área, enquanto o espaço reconhecido como RPPN permanece destinado à preservação de seus atributos naturais, característica que diferencia essa modalidade de uma decisão temporária de manter vegetação conservada dentro de uma propriedade rural particular.
Embora estabeleça proteção permanente, a categoria não impede atividades compatíveis com a conservação, permitindo que pesquisas científicas, educação ambiental e visitação ocorram sob regras específicas, desde que essas ações respeitem os objetivos definidos para a área protegida e seus recursos naturais.
Esse modelo ajudou a transformar a propriedade de Dalva em um espaço onde preservação, estudo e contato com a floresta passaram a coexistir, combinando a recuperação da vegetação com atividades voltadas ao conhecimento da biodiversidade e à aproximação de visitantes com o ambiente natural.
Pesquisadores e estudantes utilizam a área recuperada
Pesquisadores e estudantes interessados na biodiversidade da Mata Atlântica passaram a utilizar o terreno em atividades que incluem levantamento de espécies vegetais, produção de materiais educativos e trabalhos realizados diretamente na floresta, aproveitando a área recuperada como ambiente de observação e estudo.
Além de ampliar o conhecimento sobre a vegetação, essa utilização permite acompanhar processos de regeneração que acontecem dentro da propriedade, aproximando a pesquisa acadêmica de um espaço que anteriormente apresentava características muito diferentes das encontradas depois da recuperação ambiental realizada ao longo dos anos.
A fauna também ganhou espaço nessa trajetória, especialmente quando uma ação conduzida pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo, o Iema, levou animais silvestres reabilitados de volta à natureza em uma RPPN localizada na região do Caparaó.
Durante a operação, Dalva Ringuier e seus familiares deram apoio logístico às equipes responsáveis, conectando a estrutura mantida na propriedade e no Centro de Educação Ambiental Águas do Caparaó a uma iniciativa destinada à reintrodução de animais considerados aptos para retornar ao ambiente natural.
Cerca de 175 aves e três jabutis retornaram à natureza
Segundo o Iema, cerca de 175 aves e três jabutis retornaram ao ambiente natural durante a operação, realizada depois de processos de atendimento e reabilitação que antecedem a liberação de animais silvestres encaminhados para áreas consideradas adequadas à continuidade de sua vida na natureza.
Entre as aves estavam psitacídeos nativos da Mata Atlântica, grupo que inclui papagaios, jandaias e periquitos, além de passeriformes como trinca-ferro, melro, coleiro, sabiá e canário-da-terra, espécies que passaram pelo processo necessário antes da soltura realizada na região.
A devolução desses animais ao ambiente natural envolve mais etapas do que simplesmente abrir recintos e realizar a liberação, porque indivíduos destinados à reintrodução precisam passar por atendimento, avaliação e reabilitação antes de serem considerados capazes de sobreviver novamente fora de estruturas controladas.
Também pesa na escolha do local a existência de condições ambientais compatíveis com as necessidades da fauna, incluindo vegetação, disponibilidade de alimento e características que ofereçam segurança aos animais, fatores considerados antes de uma área receber exemplares reabilitados para retorno à natureza.
Na ação realizada no Caparaó, a Coordenação de Fauna do Iema ficou responsável pela condução da soltura, enquanto outras áreas do instituto participaram do trabalho e a família de Dalva ofereceu o suporte logístico relacionado à reserva e à estrutura ambiental mantida na propriedade.
Educação ambiental ampliou o papel da área protegida
Instalado no mesmo contexto de conservação, o Centro de Educação Ambiental Águas do Caparaó ampliou as funções desenvolvidas no terreno ao criar oportunidades para estudantes e visitantes conhecerem a Mata Atlântica, observarem espécies e compreenderem de maneira mais próxima os processos de recuperação ambiental.
Em vez de permanecer restrita aos moradores da propriedade, a área recuperada passou a receber atividades destinadas ao aprendizado e à observação, fazendo com que a proteção da vegetação fosse acompanhada por ações educativas e pela presença de pessoas interessadas no funcionamento daquele ambiente natural.
A recuperação teve início quando Dalva decidiu substituir gradualmente a lógica de uma propriedade dominada por pastagem por um espaço voltado à recomposição da floresta, processo em que espécies nativas foram introduzidas enquanto outras surgiram naturalmente à medida que as condições melhoravam.
Nesse tipo de transformação, a vegetação não retorna de forma imediata, pois a recomposição depende do desenvolvimento das plantas, da formação de diferentes estratos e da retomada das relações entre fauna e flora, componentes que ajudam a reconstruir progressivamente a dinâmica de uma floresta.
Ao longo desse processo, áreas anteriormente abertas podem voltar a desempenhar funções relacionadas à proteção do solo, manutenção de cursos d’água e oferta de abrigo e alimento para espécies silvestres, ao mesmo tempo que criam condições favoráveis para a continuidade da regeneração natural.
Trajetória de Dalva Ringuier reúne conservação e educação
Ligada também à educação ambiental no Espírito Santo, Dalva é cientista social e especialista em temas relacionados ao meio ambiente e ao turismo, tendo participado de iniciativas de conservação na região do Caparaó antes e durante a transformação desenvolvida dentro de sua propriedade.
A experiência acumulada ajudou a aproximar preservação e atividades educativas no mesmo espaço, enquanto pesquisadores, estudantes e visitantes passaram a circular por áreas destinadas à observação e ao aprendizado sem retirar da reserva sua função principal de conservar a vegetação e a biodiversidade.
Outro aspecto central é que a proteção permanente de parte do terreno impede que esse trecho seja posteriormente convertido para usos incompatíveis com a conservação, mantendo a destinação ambiental vinculada à área reconhecida oficialmente como Reserva Particular do Patrimônio Natural.
Por essa razão, a condição de RPPN diferencia a iniciativa de um reflorestamento mantido apenas por decisão pessoal, já que a criação da reserva estabelece um compromisso associado à terra e preserva sua finalidade ambiental mesmo diante de futuras mudanças envolvendo a propriedade.
Turismo de natureza convive com a proteção da floresta
Além das atividades ambientais e científicas, a propriedade reúne hospedagem associada ao turismo de natureza, permitindo que visitantes tenham contato com a paisagem recuperada enquanto o uso do espaço permanece compatível com a conservação mantida dentro da área protegida e em seu entorno.
Essa combinação amplia as funções do imóvel sem retirar da reserva seu caráter de proteção, pois pesquisa, educação ambiental e turismo passam a dividir espaço com uma floresta recuperada que anteriormente estava inserida em uma propriedade marcada principalmente pela presença de pastagens.
A participação no apoio à soltura de animais acrescentou outra dimensão ao trabalho desenvolvido durante décadas, conectando a recuperação ambiental realizada no terreno a uma ação conduzida pelo órgão estadual responsável pela devolução de fauna silvestre reabilitada ao ambiente natural.
Assim, o espaço que começou como uma área rural coberta por pastagem passou a reunir floresta, pesquisa, educação ambiental e ações ligadas à fauna, mantendo parte do terreno sob proteção permanente e oferecendo estrutura para atividades compatíveis com a conservação da Mata Atlântica.
O que mais chama sua atenção nessa transformação de décadas: a recuperação de uma antiga área de pastagem até a formação de uma floresta protegida ou o uso da propriedade para apoiar o retorno de animais silvestres reabilitados à natureza?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

