6 min de leitura
Após atrasar a viagem em duas horas, biólogo encontra dois bichos-preguiça na BR-101, evita atropelamentos em Alagoas e devolve os animais à mata em pontos diferentes da rodovia
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 24/08/2026 às 20:03
Atualizado em 24/08/2026 às 20:04
Meio Ambiente
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Um atraso de duas horas colocou o biólogo George Xavier diante de dois bichos-preguiça na BR-101, em Alagoas. Os resgates reacenderam o alerta sobre atropelamentos de animais e passagens seguras de fauna.
O atraso de duas horas que parecia ter estragado uma viagem acabou colocando o biólogo George Xavier exatamente onde dois bichos-preguiça precisavam de ajuda. Em pontos diferentes da BR-101, perto de São Miguel dos Campos, em Alagoas, ele retirou os animais da pista antes que fossem atropelados e os devolveu a áreas de mata às margens da rodovia.
Uma mudança de horário e dois encontros inesperados
George estava em Maragogi com um amigo e pretendia iniciar o retorno para casa às 10h. A saída, porém, aconteceu somente por volta do meio-dia. Segundo o biólogo, os dois passaram boa parte do caminho reclamando da mudança de horário e da possibilidade de chegar mais tarde do que o planejado.
A percepção mudou quando ele avistou o primeiro bicho-preguiça sobre o asfalto. O animal estava exposto ao tráfego e corria risco imediato de atropelamento. Um caminhão chegou a passar por cima da área onde ele estava, mas as rodas não o atingiram, segundo a reportagem do Só Notícia Boa.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
O biólogo interrompeu a viagem, desceu do veículo e retirou o animal com cuidado. Depois, levou a preguiça até a vegetação ao lado da estrada. A intervenção rápida evitou que ela permanecesse em um ponto de circulação intensa, onde outro veículo poderia não conseguir desviar.
Poucos quilômetros adiante, a situação se repetiu. Um segundo bicho-preguiça apareceu em outro trecho da mesma rodovia, novamente vulnerável à passagem dos veículos. George parou outra vez, retirou o animal da pista e o conduziu para uma área de mata próxima.
O registro foi publicado nas redes sociais no domingo, 23 de agosto. O vídeo ultrapassou 300 mil visualizações, segundo o Só Notícia Boa, e ampliou o alcance de um problema que costuma permanecer invisível para motoristas que atravessam regiões de vegetação cortadas por estradas.
Por que os animais foram levados de volta para a mata
Depois da publicação, alguns seguidores perguntaram por que o biólogo não colocou os bichos-preguiça no lado oposto da rodovia. A resposta envolvia a configuração do local: naquela direção, havia casas e circulação humana, enquanto a margem escolhida ainda mantinha vegetação.
George explicou que a devolução ao lado com mata buscava reduzir a exposição dos animais a pessoas, cães e outros riscos. A decisão não eliminou o problema estrutural da fragmentação do ambiente, mas ofereceu uma saída imediata mais segura do que mantê-los perto das residências.
Bichos-preguiça se deslocam lentamente e dependem de áreas arborizadas. Quando trechos de floresta são interrompidos por rodovias, a tentativa de alcançar alimento, abrigo ou outro fragmento de vegetação pode levá-los ao asfalto, onde a diferença entre sua velocidade e a dos veículos amplia o perigo.
O biólogo, que reúne mais de 500 mil seguidores no Instagram, produz conteúdo sobre animais silvestres e preservação. Ao comentar os dois resgates, perguntou quantas outras vidas são perdidas em situações semelhantes sem que alguém consiga chegar a tempo.
O que são passagens de fauna e por que elas importam
A partir da repercussão do vídeo, George defendeu a adoção de passagens de fauna em rodovias que atravessam áreas de floresta. Essas estruturas permitem a travessia por baixo ou por cima da pista e procuram reduzir o contato direto entre animais silvestres e veículos.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes registra a existência de programas de monitoramento de atropelamentos em rodovias federais. Em dados históricos publicados pelo órgão, foram acompanhados 5.514,63 quilômetros de estradas durante 2014, informação que evidencia a dimensão do desafio em diferentes regiões brasileiras.
O próprio DNIT também descreve medidas de proteção aplicadas na BR-285, entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. O projeto inclui estruturas destinadas à passagem dos animais e telas de aproximadamente 1,80 metro para impedir o acesso direto à pista e direcionar a fauna para pontos de travessia.
Essas soluções precisam considerar as espécies presentes, o tipo de vegetação e os deslocamentos observados em cada trecho. Passagens subterrâneas, estruturas elevadas, sinalização e cercamentos podem cumprir funções diferentes, e sua efetividade depende de planejamento, acompanhamento e manutenção.
O monitoramento ajuda a identificar pontos de maior ocorrência de atropelamentos. De acordo com a documentação do DNIT, equipes registram localização, espécie e outras informações relevantes, produzindo dados que podem orientar medidas de prevenção em vez de depender exclusivamente de resgates ocasionais.
Resgate individual e atenção redobrada nas estradas
O caso de Alagoas mostra como dois animais podem ser encontrados em perigo em uma distância relativamente curta. A repetição do episódio na mesma viagem sugere um ambiente em que a presença de fauna próxima à rodovia merece atenção, embora não permita concluir quantos atropelamentos ocorrem naquele trecho.
Para motoristas, a presença de vegetação nas margens exige velocidade compatível com a via, atenção à sinalização e cuidado com frenagens bruscas. Em situações de risco, a recomendação é priorizar a segurança das pessoas e acionar órgãos ambientais, concessionárias, bombeiros ou a Polícia Rodoviária Federal quando necessário.
A retirada direta de um animal silvestre pode envolver riscos tanto para quem tenta ajudar quanto para o próprio animal. A atuação de George ocorreu no contexto de sua formação como biólogo; reproduzir a abordagem sem conhecimento ou sem condições seguras de parada pode agravar a ocorrência.
A Polícia Rodoviária Federal também documenta resgates de bichos-preguiça em estradas brasileiras. Em ocorrência publicada em Pernambuco, agentes retiraram um animal da BR-232 e o devolveram a uma área de mata, demonstrando que a presença dessa fauna sobre o asfalto não se restringe ao episódio observado em Alagoas.
A comparação não autoriza concluir que os dois trechos tenham a mesma incidência de atropelamentos. Ela indica somente que diferentes órgãos públicos e profissionais encontram situações semelhantes, o que reforça a necessidade de planejamento ambiental adaptado às condições de cada estrada e à vegetação presente nas proximidades.
Em rodovias de grande movimento, uma tentativa de socorro feita sem sinalização pode provocar colisões ou colocar outras pessoas em risco. Sempre que possível, a ocorrência deve ser comunicada às autoridades responsáveis, para que o resgate considere o tráfego, a condição do animal e o local mais adequado para sua devolução.
O atraso que incomodou os viajantes ganhou outro significado depois dos resgates. Para George, a mudança no horário permitiu que ele estivesse no local no momento necessário. Para quem assistiu ao vídeo, a cena também deixou uma pergunta maior: como evitar que a sobrevivência da fauna dependa de encontros fortuitos com uma estrada movimentada?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

