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Brasileira que trocou o país pelo Japão encara turnos que começavam às 3 horas da madrugada, mas diz que a segurança de andar na rua sem medo e a qualidade de vida compensam, numa comunidade que ainda reúne 210 mil pessoas
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 22/08/2026 às 19:46
Atualizado em 22/08/2026 às 19:47
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Rotina de trabalho extremo, mudança de profissão e adaptação cultural marcaram a trajetória de uma brasileira que decidiu reconstruir a vida no Japão, onde segurança, tranquilidade e novas possibilidades profissionais passaram a pesar na escolha de permanecer longe do Brasil.
Ao deixar o Brasil no fim de 2019 para viver no Japão, Carine Sayuri Goto iniciou uma fase marcada por mudanças profundas e passou cerca de um ano e meio trabalhando em uma fábrica de doces na província de Yamanashi.
Em determinados períodos dessa experiência, o expediente começava às 3 horas da madrugada, obrigando a brasileira, que antes atuava na área de saúde mental, a reorganizar completamente a rotina e enfrentar um cotidiano distante de sua formação profissional.
Embora reconheça que a adaptação foi difícil, Carine afirma que a segurança, a tranquilidade e a qualidade de vida encontradas no Japão compensaram as dificuldades do começo e tiveram peso importante em sua decisão de permanecer no país.
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Hoje, aos 45 anos, ela vive em Higashine, na província de Yamagata, e voltou a trabalhar como psicanalista, segundo entrevista à BBC News Brasil publicada pelo Terra em 29 de junho de 2026 e atualizada no dia seguinte.
Da saúde mental no Brasil à fábrica no Japão
Nascida em Guarulhos, na Região Metropolitana de São Paulo, Carine se formou em psicologia pela Universidade Estadual Paulista, a Unesp, em 2006, fez especialização na Unicamp e concluiu um mestrado também pela Unesp antes de emigrar.
Antes da mudança, sua trajetória profissional estava ligada aos Centros de Atenção Psicossocial, os Caps, vinculados ao Sistema Único de Saúde, onde trabalhou com políticas públicas de saúde mental, supervisão de equipes e atividades realizadas no interior paulista.
Ao lado do marido, Thiago Marques Leão, também de 45 anos, ela planejou a mudança e começou a trabalhar com um contrato de três meses em uma fábrica de doces de Yamanashi, vínculo que depois seria renovado sucessivamente.
Distante da profissão exercida no Brasil, a rotina industrial ocupava grande parte dos dias e deixava pouco espaço para atividades pessoais, conforme Carine relatou à BBC ao recordar a intensidade dos meses em que trabalhou como operária.
Nos períodos mais exigentes, o turno começava às 3 horas da madrugada, o que fazia Carine despertar por volta da meia-noite e, em algumas ocasiões, atravessar o dia praticamente sem contato com a luz do sol.
Ainda assim, ela manteve o objetivo de retornar à psicologia e à psicanálise, participando remotamente de grupos de estudos ligados a universidades brasileiras enquanto conciliava a formação continuada com uma rotina pesada dentro da fábrica japonesa.
Atendimento online abriu caminho para mudança profissional
Com a expansão do trabalho remoto durante a pandemia, surgiu em 2021 a oportunidade de estabelecer atendimentos online como psicanalista para brasileiros que estavam no Brasil, além de brasileiros e outros estrangeiros que já viviam no Japão.
Essa mudança profissional trouxe mais flexibilidade ao cotidiano, enquanto Thiago, doutor em saúde pública pela Universidade de São Paulo, conseguiu trabalho em uma escola japonesa e o casal deixou Yamanashi para se estabelecer na província de Yamagata.
Foi em Higashine, cidade com pouco mais de 45 mil habitantes, que Carine passou a descrever uma relação mais positiva com o lugar onde vive, contrapondo essa experiência às situações de preconceito que afirma ter enfrentado anteriormente em Yamanashi.
Na avaliação da brasileira, a segurança cotidiana ganhou importância especial porque ela se locomove de bicicleta, caminha pelas ruas sem se sentir ameaçada e diz não sofrer assédio, além de destacar a infraestrutura organizada e a qualidade do ar.
Terremotos e xenofobia permanecem entre as preocupações
Apesar dessa percepção favorável, permanecem preocupações ligadas aos terremotos e à xenofobia, apontados por Carine como problemas relevantes, ao mesmo tempo em que ela acompanha discursos contrários à imigração que afetam diretamente estrangeiros instalados no país.
Bem diferente dos meses em que precisava acordar à meia-noite para trabalhar, a rotina atual concentra os atendimentos principalmente pela manhã e no início da noite, deixando parte do dia disponível para estudos, exercícios e atividades culturais.
Nesse intervalo, Carine frequenta academia, estuda japonês, participa de aulas de minyo, gênero de canções folclóricas japonesas, e também acompanha apresentações musicais, sobretudo de jazz, incorporadas ao cotidiano depois da retomada da carreira na psicanálise.
Mesmo longe, os vínculos com o Brasil permanecem por meio da família, dos amigos e do trabalho, embora a distância, o custo das passagens e a dificuldade de obter férias longas reduzam as oportunidades de convivência presencial.
Comunidade brasileira no Japão está entre as maiores no exterior
A trajetória ocorre em um país que reúne uma das maiores comunidades brasileiras no exterior, estimada pelo governo brasileiro em cerca de 211 mil pessoas, número que coloca o Japão entre os cinco principais destinos de brasileiros residentes fora do país.
Para Carine, a fábrica acabou representando uma etapa do processo migratório, e não um destino profissional definitivo, porque a continuidade dos estudos e a possibilidade de trabalhar pela internet permitiram retomar uma atividade próxima da formação construída no Brasil.
Depois de enfrentar jornadas que começavam ainda na madrugada, trocar de cidade e reconstruir a vida profissional, ela afirma que pretende permanecer no Japão e considera a rotina atual melhor que a anterior, apesar das dificuldades ligadas à adaptação.
Você enfrentaria uma rotina de trabalho iniciada às 3 horas da madrugada se essa experiência abrisse caminho para construir, em outro país, uma vida considerada mais segura, tranquila e compatível com seus planos pessoais e profissionais?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

