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China cria uma “rodovia de dados” a laser entre a Terra e a Lua por mais de 400 mil quilômetros, alcança 100 Mbps e mostra que uma imagem 8K, que levaria até 5 minutos por micro-ondas, pode chegar em cerca de 12 segundos com a nova tecnologia espacial
Escrito por Carla Teles
Publicado em 31/08/2026 às 16:12
Atualizado em 31/08/2026 às 16:32
Ciência e Tecnologia
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A rodovia de dados é uma metáfora para o enlace laser bidirecional testado pela Academia Chinesa de Ciências com o satélite DRO-A. Após mais de um ano em órbita, o sistema alcançou 1,25 Mbps no uplink e 100 Mbps no downlink através de uma distância superior a 400 mil quilômetros.
A China concluiu uma demonstração experimental que pode antecipar como grandes volumes de informação serão transportados entre a Terra e futuras operações lunares. A chamada rodovia de dados, expressão usada aqui como metáfora para a conexão, consiste tecnicamente em um enlace de comunicação a laser bidirecional superior a 400 mil quilômetros, estabelecido entre equipamentos terrestres e o satélite DRO-A.
O resultado foi divulgado em 27 de agosto de 2026 pela Academia Chinesa de Ciências, a CAS, reproduzindo reportagem do China Science Daily. Após mais de um ano de testes em órbita, pesquisadores verificaram pela primeira vez na China a capacidade de comunicação a laser de alta velocidade no espaço Terra-Lua, alcançando 1,25 Mbps no envio da Terra para o satélite e 100 Mbps no caminho de retorno.
Experimento levou comunicação a laser chinesa da órbita baixa ao espaço Terra-Lua
O projeto faz parte do programa estratégico da Academia Chinesa de Ciências dedicado à exploração da órbita retrógrada distante no sistema Terra-Lua. A carga experimental de comunicação a laser embarcada no DRO-A foi desenvolvida sob liderança do Centro de Engenharia e Tecnologia de Aplicações Espaciais da CAS, em colaboração com o Zhejiang Lab.
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Na Terra, a infraestrutura necessária para estabelecer a conexão envolveu ainda o Observatório Astronômico de Yunnan e o Instituto de Microssistemas e Tecnologia da Informação de Xangai, ambos ligados à Academia Chinesa de Ciências. O objetivo não era apenas enviar um sinal, mas manter comunicação bidirecional de alta velocidade através de uma distância superior a 400 mil quilômetros.
Segundo a CAS, o resultado representa uma mudança de escala para o programa chinês: a tecnologia de comunicação óptica espacial saiu de aplicações próximas da órbita terrestre baixa e foi demonstrada dentro do ambiente Terra-Lua.
Rodovia de dados usa laser em vez das tradicionais micro-ondas
A rodovia de dados funciona de maneira diferente dos sistemas convencionais baseados em micro-ondas. Em vez de transportar informações predominantemente por radiofrequência, a tecnologia emprega feixes de laser para enviar os dados entre os terminais espacial e terrestre.
De acordo com a Academia Chinesa de Ciências, a comunicação óptica oferece vantagens potenciais em velocidade, largura de banda, precisão direcional, segurança e redução do tamanho e da massa dos equipamentos. O sistema também permite transmissão e recepção em alta velocidade nas duas direções.
Isso é particularmente relevante para missões que devem produzir volumes crescentes de dados científicos. Imagens de alta resolução, medições realizadas por instrumentos, telemetria e outras informações precisam percorrer centenas de milhares de quilômetros antes de chegar às equipes em solo.
Distância acima de 400 mil quilômetros transforma apontar o laser em desafio
Um dos problemas centrais estava na precisão necessária para manter dois terminais alinhados a distâncias extremas. Diferentemente de uma conexão terrestre fixa, satélite, planeta, atmosfera e equipamentos estão submetidos a movimentos e variações que precisam ser considerados continuamente.
Yang Lei, pesquisador do Centro de Aplicações Espaciais e responsável pela equipe experimental, apontou três grandes obstáculos enfrentados pelo setor: precisão de apontamento, forte atenuação do sinal e dificuldade para elevar a velocidade de transmissão. Segundo ele, foram necessários cinco anos de desenvolvimento técnico para enfrentar essas limitações.
Para solucionar o primeiro problema, a equipe criou um método de aquisição e rastreamento bidirecional adequado a distâncias ultralongas e sinais extremamente fracos. O sistema leva em conta elementos como órbita do satélite, erros de montagem, deformações do telescópio, refração atmosférica e até o tempo necessário para o laser percorrer o trajeto.
Sistema precisa atingir uma região prevista antes mesmo da chegada do alvo
Em distâncias lunares, pequenos desvios de apontamento podem impedir que o feixe alcance corretamente o receptor. Por isso, os cálculos precisam determinar com antecedência onde o alvo estará quando o sinal efetivamente chegar.
A solução chinesa permite que os terminais espacial e terrestre mantenham alinhamento de alta precisão enquanto estão em movimento, segundo a descrição apresentada pela CAS. Dessa forma, o feixe pode iluminar a região previamente calculada no instante apropriado.
Esse nível de precisão é parte essencial da rodovia de dados, porque elevar a velocidade de transmissão pouco adiantaria caso a ligação óptica não pudesse permanecer estável por tempo suficiente para transferir grandes arquivos.
Fótons individuais ajudam a encontrar informação em meio ao ruído
A segunda dificuldade estava na intensidade do sinal. Depois de atravessar centenas de milhares de quilômetros, a energia recebida pode ser extremamente pequena, enquanto interferências e ruídos continuam presentes no sistema.
Para aumentar a capacidade de detecção, os pesquisadores desenvolveram soluções baseadas em detecção supercondutora de fótons individuais em alta velocidade, além de algoritmos de processamento de sinais com elevada sensibilidade.
Na prática, o sistema precisa separar aquilo que realmente pertence ao feixe de comunicação de uma grande quantidade de ruído de fundo. Detectar sinais extremamente fracos é tão importante quanto produzir o laser, porque a informação precisa permanecer reconhecível depois da longa viagem pelo espaço.
China alcançou 100 Mbps no caminho do satélite para a Terra
A terceira barreira era aumentar a taxa de transferência. A equipe trabalhou com processamento de comunicação de alta largura de banda e reconhecimento temporal na escala de picossegundos, segundo a Academia Chinesa de Ciências.
Foram empregados modulação de posição de pulso de alta ordem, processamento de sinal para condições de relação sinal-ruído muito baixa e mecanismos de correção de erros. A finalidade é conseguir transportar grandes volumes de dados sem transformar o aumento de velocidade em crescimento inaceitável da quantidade de erros.
Nos testes, a rodovia de dados experimental atingiu 1,25 Mbps no uplink, isto é, na comunicação direcionada da Terra ao equipamento espacial, e 100 Mbps no downlink, quando as informações retornam do satélite.
A CAS considera o resultado uma base inicial. O próprio comunicado afirma que as taxas alcançadas estabelecem condições para futuras melhorias de velocidade.
Imagem 8K mostra diferença entre micro-ondas e comunicação óptica
A Academia Chinesa de Ciências apresentou uma comparação para dimensionar o impacto que taxas maiores podem ter em futuras missões. Segundo a instituição, os sistemas tradicionais de micro-ondas sofrem com limitações de largura de banda e velocidade diante do crescimento esperado na quantidade de informação produzida em ambiente lunar.
Uma única imagem 8K de alta resolução da superfície da Lua pode exigir entre quatro e cinco minutos para ser enviada por comunicação tradicional de micro-ondas, de acordo com a fonte.
Na comparação apresentada pela CAS, uma conexão a laser operando na faixa de centenas de Mbps poderia reduzir esse processo para aproximadamente 12 segundos.
O exemplo não significa que toda imagem 8K será necessariamente transmitida em exatamente 12 segundos pelo sistema atualmente testado. O tempo depende, entre outros fatores, do tamanho efetivo do arquivo e da taxa disponível. Os 12 segundos são a comparação fornecida pela fonte oficial para ilustrar o potencial de enlaces ópticos mais rápidos.
“Explosão de dados” lunar aumenta necessidade de conexões mais rápidas
O interesse por essa capacidade está diretamente relacionado aos planos de ampliar a presença tecnológica no entorno da Lua. Missões científicas mais complexas produzem muito mais informação do que simples sistemas de telemetria.
A CAS prevê uma futura “explosão de dados” no espaço Terra-Lua à medida que avançarem programas de exploração, pousos tripulados e projetos relacionados a estações de pesquisa lunar.
Câmeras de resolução elevada, instrumentos científicos, sistemas de navegação e equipamentos instalados em diferentes pontos podem aumentar significativamente a demanda pela transferência de informações.
Nesse cenário, uma rodovia de dados baseada em comunicação a laser poderia complementar tecnologias tradicionais ao disponibilizar mais largura de banda para transportar grandes arquivos entre a Lua e centros de controle terrestres.
Tecnologia também busca reduzir peso e consumo de equipamentos espaciais
Velocidade não é o único aspecto considerado pelos pesquisadores. Em uma missão espacial, cada equipamento enviado precisa lidar com restrições severas de massa, volume e consumo energético.
Segundo Yang Lei, tecnologias relacionadas à comunicação óptica podem oferecer sistemas leves, compactos, de baixo consumo energético e capazes de transmitir informação em alta velocidade.
Essas características interessam especialmente a projetos lunares porque reduzir massa e consumo pode liberar recursos para outros instrumentos ou aumentar a flexibilidade das missões.
Quanto maior a quantidade de bases, veículos, sondas e equipamentos operando longe da Terra, maior também tende a ser a necessidade de uma infraestrutura de comunicação capaz de acompanhar essa expansão.
Comunicação bidirecional permite mandar comandos e receber grandes arquivos
Outro aspecto importante do experimento é que o enlace não opera em apenas um sentido. A equipe verificou comunicação tanto da Terra para o satélite quanto no trajeto inverso.
Os números, entretanto, são assimétricos: 1,25 Mbps de uplink e 100 Mbps de downlink. Essa diferença é compatível com uma arquitetura experimental em que a necessidade de transportar grandes conjuntos de dados científicos de volta à Terra pode ser muito superior ao volume de comandos enviados ao equipamento.
A comunicação bidirecional também permite que o sistema seja avaliado como uma infraestrutura completa, e não somente como uma demonstração pontual de recepção de sinal óptico.
É essa combinação entre longa distância, rastreamento, detecção de sinais fracos e transmissão em duas direções que sustenta a ideia de uma futura rodovia de dados entre Terra e Lua.
Rede pode apoiar missões tripuladas, estações lunares e exploração profunda
A Academia Chinesa de Ciências associa diretamente a tecnologia a futuras operações chinesas de maior escala. Entre as aplicações citadas estão pousos lunares tripulados, construção de estações de pesquisa na Lua e exploração do espaço profundo.
Nesse contexto, o enlace testado com o DRO-A não representa ainda uma rede comercial ou uma infraestrutura lunar permanente. Trata-se de uma verificação tecnológica experimental que demonstra capacidades necessárias para sistemas futuros.
Essa distinção é importante. A China não inaugurou literalmente uma “rodovia” física de dados entre os dois corpos celestes. O que pesquisadores conseguiram foi estabelecer e testar um enlace laser bidirecional de alta velocidade através de mais de 400 mil quilômetros.
Experimento transforma 400 mil quilômetros em laboratório para internet espacial
O avanço divulgado em 27 de agosto de 2026 reúne diferentes desafios em um único teste: atingir um alvo a distâncias Terra-Lua, identificar sinais extremamente fracos, corrigir erros e devolver informações a até 100 Mbps.
A rodovia de dados é, por enquanto, experimental, mas mostra a direção de uma infraestrutura necessária para um futuro em que a Lua poderá produzir muito mais informação do que os sistemas atuais precisam transportar.
Se a exploração lunar caminhar para bases permanentes, missões tripuladas e instrumentos científicos cada vez mais sofisticados, a comunicação poderá deixar de ser apenas um elo auxiliar e passar a funcionar como parte crítica da própria infraestrutura espacial.
Na sua opinião, o que é mais impressionante nessa tecnologia: manter um laser alinhado por mais de 400 mil quilômetros, alcançar 100 Mbps no retorno dos dados ou reduzir uma transmissão 8K de vários minutos para segundos? Conte nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

