7 min de leitura
Criado na Rocinha, jovem foi patinador profissional por 12 anos, descobriu a pintura durante a faculdade, transformou cenas comuns da favela em obras gigantes e levou sua arte para museus de Lyon, Marrakech e exposições internacionais
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 24/08/2026 às 14:45
Uncategorized
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Maxwell Alexandre nasceu e cresceu na Rocinha, serviu ao Exército, viveu mais de uma década como patinador de street e formou-se em Design antes de transformar personagens, símbolos e experiências da comunidade em pinturas monumentais apresentadas no Brasil, na França, no Marrocos e em outros circuitos internacionais.
Grandes folhas de papel pardo ocupam paredes inteiras. Sobre elas aparecem crianças, jovens, famílias, policiais, piscinas de plástico, uniformes escolares, cabelos descoloridos, referências religiosas e símbolos da cultura popular. As figuras formam cenas que parecem nascer diretamente das ruas e das casas da Rocinha.
As pinturas são de Maxwell Alexandre, artista carioca nascido em 1990 e criado na comunidade da Zona Sul do Rio de Janeiro. Antes de chegar a importantes museus, ele serviu ao Exército, passou 12 anos como patinador profissional de street e concluiu a graduação em Design.
Sua trajetória começou dentro da própria favela. Algumas das primeiras exposições foram realizadas no Complexo Esportivo da Rocinha, antes que a série Pardo é Papel chegasse ao Museu de Arte Contemporânea de Lyon, ao Museu de Arte do Rio e a outras instituições internacionais.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
A trajetória que começou entre a Rocinha e o skate
Maxwell nasceu e cresceu na Rocinha, uma comunidade que permaneceu ligada não apenas à sua vida pessoal, mas também à construção de sua linguagem artística.
Criado em uma família evangélica, ele serviu ao Exército e desenvolveu uma longa relação com o esporte. Durante 12 anos, atuou como patinador profissional de street, modalidade praticada em escadas, corrimãos, calçadas e outros elementos do espaço urbano.
O skate ajudou a formar uma maneira particular de observar a cidade. O deslocamento pelas ruas, o contato com diferentes superfícies e a atenção aos movimentos dos corpos mais tarde apareceriam, de outras formas, em sua produção visual.
Essa fase não foi tratada como um capítulo separado da carreira artística. A experiência urbana acumulada durante os anos de patinação passou a integrar o repertório que Maxwell levaria para suas pinturas.
Faculdade de Design abriu espaço para a pintura
Maxwell ingressou na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, a PUC-Rio, onde cursou Design e concluiu a graduação em 2016.
Durante a formação, aproximou-se da pintura e passou a experimentar materiais, dimensões e maneiras diferentes de construir imagens. Em vez de abandonar as referências de sua vida anterior, levou para o trabalho artístico elementos que já faziam parte de sua rotina.
A Rocinha não apareceu apenas como paisagem. A comunidade tornou-se origem de personagens, roupas, gestos, conflitos, celebrações, produtos comerciais, referências musicais e situações observadas no cotidiano.
Em 2015, ainda no ambiente universitário, participou da Exposição Cínica, na PUC-Rio. No ano seguinte, apresentou Universo Clandestino na Rocinha Surfe Escola, localizada no Complexo Esportivo da comunidade.
A passagem pela universidade ofereceu recursos técnicos e conceituais, mas o vocabulário visual continuou ligado ao território onde Maxwell nasceu, cresceu, trabalhava e mantinha seu ateliê.
Primeiras exposições aconteceram dentro da Rocinha
Antes da projeção em galerias e museus internacionais, Maxwell mostrou seus trabalhos em espaços da própria comunidade.
Em 2017, realizou Laje só existe com gente na Rocinha Surfe Escola. No mesmo período, Pardo é Papel também foi apresentada no Complexo Esportivo da Rocinha, segundo os registros da trajetória do artista.
O local das exposições tinha importância simbólica. As obras inspiradas na comunidade eram vistas inicialmente por pessoas que reconheciam muitos dos códigos, ambientes e personagens representados.
Naquele mesmo ano, Maxwell passou a integrar de maneira mais direta o circuito de arte contemporânea ao participar da exposição coletiva Carpintaria para Todos, promovida pela galeria Fortes D’Aloia & Gabriel.
Em 2018, realizou sua primeira exposição individual em uma galeria, O Batismo de Maxwell Alexandre, na A Gentil Carioca, no Rio de Janeiro. Também participou de uma residência na Delfina Foundation, em Londres, ampliando o contato com o circuito internacional.
Papel pardo virou suporte para obras monumentais
A série Pardo é Papel tornou-se um dos trabalhos mais conhecidos de Maxwell Alexandre. As pinturas são produzidas em grandes extensões de papel pardo, material comum em embalagens, proteção de pisos, transporte de objetos e atividades comerciais.
Maxwell transformou esse suporte cotidiano em superfície para figuras de grande escala. Em suas composições, pessoas negras aparecem em situações de convivência, lazer, aprendizado, confronto, prosperidade, religiosidade e afirmação.
As pinturas reúnem referências da Rocinha, do rap, do funk, da moda urbana, da publicidade, da televisão e da cultura popular. Personagens podem aparecer usando uniformes escolares, carregando objetos conhecidos ou ocupando espaços que, historicamente, foram pouco acessíveis à população negra.
O título da série também estabelece uma relação direta entre a palavra “pardo”, utilizada na classificação racial brasileira, e a cor do próprio papel. O material deixa de ser apenas suporte e passa a participar do sentido das imagens.
Em vez de apresentar a favela somente pela falta, pela violência ou pela precariedade, as obras mostram desejo, autoestima, poder, consumo, espiritualidade, amizade e experiências comuns de seus moradores.
Da Rocinha para Lyon e o Museu de Arte do Rio
Em 2019, Pardo é Papel iniciou uma trajetória por instituições de grande visibilidade. A série foi apresentada no Musée d’Art Contemporain de Lyon, o MAC Lyon, na França.
O museu destacou que Maxwell buscava inspiração na vida da Rocinha para construir uma narrativa relacionada às tensões sociais do Brasil. A exposição permaneceu em cartaz entre março e julho daquele ano.
Depois da passagem pela França, a mostra chegou ao Museu de Arte do Rio, o MAR, onde reuniu obras baseadas nas experiências do artista pela cidade e pela comunidade. A apresentação recebeu mais de 60 mil visitantes, conforme registro da Fundação Iberê Camargo.
A itinerância continuou nos anos seguintes. A exposição passou pela Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, e pela Bienal da Tailândia.
Assim, uma série mostrada inicialmente no Complexo Esportivo da Rocinha passou a ocupar museus, fundações e eventos de arte em diferentes países, sem abandonar as situações e personagens que deram origem ao trabalho.
Residências e exposições ampliaram a carreira internacional
Em 2020, Maxwell participou de uma residência artística no Al Maaden Museum of Contemporary African Art, o MACAAL, em Marrakech, no Marrocos.
A experiência resultou em uma instalação que ocupou três partes do museu durante a exposição coletiva Have You Seen a Horizon Lately?. No mesmo ano, ele realizou sua primeira individual no Reino Unido, apresentada pela galeria David Zwirner, em Londres.
A presença internacional continuou com Novo Poder, exibida em 2021 no Palais de Tokyo, em Paris. Nesse conjunto, pessoas negras aparecem dentro de galerias, museus e centros culturais, ocupando ambientes historicamente associados a grupos socialmente privilegiados.
Em 2022, Maxwell realizou sua primeira exposição individual nos Estados Unidos. Pardo é Papel: A Vitória Gloriosa e Novo Poder foi apresentada no The Shed, em Nova York.
As obras do artista também passaram a integrar acervos de instituições como o Museu de Arte de São Paulo, a Pinacoteca de São Paulo, o Museu de Arte Moderna do Rio, o Museu de Arte do Rio, o MAC Lyon, o Pérez Art Museum Miami e o Guggenheim Abu Dhabi.
Prêmio PIPA confirmou o reconhecimento da produção
Em 2020, Maxwell esteve entre os vencedores do Prêmio PIPA, uma das principais premiações brasileiras dedicadas à arte contemporânea. Naquele ano, o prêmio principal foi dividido entre os quatro finalistas.
O reconhecimento ocorreu depois de uma rápida expansão da carreira. Em poucos anos, o artista passou de exposições realizadas na Rocinha para apresentações em Londres, Lyon, Marrakech, Paris e outras cidades.
Essa projeção, porém, não afastou sua produção do território de origem. A Rocinha continuou aparecendo como fonte de personagens, relações, símbolos e experiências.
Maxwell também associa sua criação à espiritualidade. Em sua biografia oficial, afirma considerar as obras como orações e o ateliê como um templo.
Mais do que retratar a aparência da favela, suas pinturas constroem narrativas sobre quem vive nela, como essas pessoas se relacionam e quais espaços podem ocupar. Ao levar essas imagens para grandes museus, o artista também modifica aquilo que costuma ser visto dentro dessas instituições.
A trajetória começou entre o skate, a universidade e os espaços culturais da Rocinha. Depois atravessou galerias, residências e museus internacionais, preservando no centro das obras o lugar onde Maxwell Alexandre nasceu e desenvolveu sua maneira de observar o mundo.
Você acredita que a presença de personagens e experiências da Rocinha em grandes museus pode mudar a forma como a favela e seus moradores são representados pela arte? Compartilhe sua opinião nos comentários.
Recomendado para você
Meio Ambiente
Leonardo DiCaprio compra ilha de 42 hectares em Belize após área sofrer erosão e desmatamento e lança projeto para recuperar vegetação, proteger a costa e ampliar a biodiversidade ao redor da propriedade
Ator adquiriu Blackadore Caye por cerca de US$ 1,75 milhão e colocou recuperação ambiental no centro de um empreendimento que prevê vegetação nativa, conservação de habitats e energia renovável
Fora das…
Caio Aviz
10
Tags
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

