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De origem humilde e mãe de três filhos, Rita Ferreira conquistou o diploma de ensino superior somente aos 40 anos: ela pensou em desistir, mas concluiu o curso de Agroecologia na Ufal e se tornou exemplo para comunidades tradicionais e para o próprio filho, que cursou Medicina Veterinária no Sul do país
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 06/08/2026 às 19:03
Atualizado em 06/08/2026 às 19:04
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Rita Ferreira, extrativista da Foz do São Francisco, formou-se em Agroecologia aos 40 anos e inspirou o filho a entrar na universidade.
A extrativista Rita Ferreira, de 40 anos, teve sua colação de grau em 10 de abril de 2025, após enfrentar seis anos de dificuldades para permanecer no curso de Agroecologia da Universidade Federal de Alagoas. Moradora de Piaçabuçu, na Foz do Rio São Francisco, ela integrou uma turma histórica formada exclusivamente por pessoas do campo e transformou a própria conquista em incentivo para que o filho de 19 anos também ingressasse em uma universidade pública.
A graduação aproximou o conhecimento científico de uma atividade que já sustentava sua família. Ribeirinha, mãe de três filhos e avó de uma menina de 6 anos, Rita trabalha com a coleta sustentável de frutos como aroeira, cambuí e ingá, retirados das áreas próximas à foz do São Francisco.
O curso permitiu que ela estudasse técnicas relacionadas à produção sustentável sem abandonar os conhecimentos construídos dentro da comunidade. O diploma, portanto, não representa uma mudança para longe do campo, mas uma nova forma de fortalecer o trabalho que já realizava no território.
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Rita Ferreira encontrou na Agroecologia uma formação ligada à própria vida
Antes de entrar na Ufal, Rita já atuava em espaços de organização comunitária. Ela foi presidente de associação e participa do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, onde representa comunidades tradicionais.
Sua relação com o rio não se limita ao ativismo. É do ambiente da foz que ela retira parte dos alimentos e produtos responsáveis pelo sustento da família. A preocupação com a conservação dos recursos naturais também orienta a maneira como realiza a coleta dos frutos.
Quando encontrou o edital da graduação em Agroecologia, Rita Ferreira percebeu que poderia unir a experiência acumulada no extrativismo a uma formação universitária. O curso tratava de temas relacionados diretamente à agricultura, à preservação ambiental, ao território e à produção de alimentos.
A decisão de se inscrever abriu uma jornada longa. Foram seis anos entre aulas, compromissos familiares, trabalho e participação nas atividades de defesa do São Francisco. Em diferentes momentos, as dificuldades levaram Rita a considerar a possibilidade de desistir.
Diploma de Rita Ferreira abriu caminho para o filho
A permanência no curso provocou uma mudança que ultrapassou sua própria trajetória. Ao acompanhar o esforço da mãe para entrar e continuar na universidade, o filho de 19 anos também passou a considerar a graduação como uma possibilidade concreta.
Ele ingressou na Universidade Federal de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde cursa Medicina Veterinária pelo Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária. A distância entre Alagoas e o Sul do país não impediu que a experiência da mãe se tornasse referência para a escolha.
Para Rita Ferreira, ver o filho na universidade é uma consequência direta da decisão de não abandonar o curso. Ela considera que sua disposição para prestar a seleção e enfrentar os obstáculos mostrou ao jovem que uma família ligada ao extrativismo e às comunidades rurais também poderia ocupar o ensino superior.
O diploma da mãe e a entrada do filho na graduação modificaram as expectativas educacionais da família. Rita passou a celebrar não somente a própria formação, mas a perspectiva de ter um filho formado como médico-veterinário.
Primeira turma reuniu 24 estudantes ligados ao campo
Rita foi uma das 24 pessoas que receberam o diploma na primeira turma do bacharelado em Agroecologia da Ufal. O grupo era formado por quilombolas, assentados da reforma agrária, agricultores e extrativistas de diferentes idades.
A graduação foi criada em 2018 por meio de uma parceria entre a universidade e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. O ingresso ocorreu pelo Pronera, programa voltado à ampliação do acesso educacional para populações ligadas à reforma agrária e ao meio rural.
A iniciativa tornou-se a primeira graduação da Ufal destinada exclusivamente à população do campo. Também foi a primeira turma de bacharelado em Agroecologia vinculada ao Pronera em todo o Brasil.
O curso funcionou no Campus de Engenharias e Ciências Agrárias e aproximou a estrutura universitária de grupos que historicamente encontram dificuldades para entrar e permanecer no ensino superior.
Formação reconheceu conhecimentos produzidos fora da universidade
A turma não chegou à Ufal sem experiência. Os estudantes já carregavam conhecimentos sobre cultivo, extrativismo, organização comunitária, recursos naturais e produção de alimentos.
A graduação permitiu relacionar esses saberes a métodos científicos e práticas acadêmicas. Em vez de tratar o campo somente como objeto de pesquisa, o curso reconheceu seus moradores como produtores de conhecimento.
No caso de Rita Ferreira, essa aproximação aparece na defesa da coleta sustentável. Sua experiência indica onde estão os frutos, em que períodos podem ser retirados e quais cuidados ajudam a preservar as espécies e o ambiente da foz.
A formação em Agroecologia acrescentou novas ferramentas a esse repertório. O que antes era transmitido pela prática cotidiana passou também a ser analisado dentro de uma universidade federal.
Cerimônia marcou conquista coletiva da educação rural
A colação de grau foi presidida pelo reitor Josealdo Tonholo e reuniu representantes da universidade, do Incra, do Pronera e de organizações ligadas ao campo. A presença dessas instituições refletiu o número de parcerias necessárias para viabilizar o curso.
Victor Teixeira do Monte, escolhido como orador da turma, definiu a cerimônia como um momento histórico para a reforma agrária e a educação rural. Em seu discurso, ressaltou que os estudantes atravessaram seis anos de resistência, sonhos e realização.
Os aplausos não foram dirigidos apenas à conclusão das disciplinas. Cada formando representava uma família, uma associação, um assentamento ou uma comunidade que também acompanhou as dificuldades do percurso.
Para Rita, a noite encerrou uma fase iniciada com a inscrição no processo seletivo. Ao lado de colegas que compartilhavam vínculos com a terra, ela recebeu um diploma que durante muitos anos pareceu distante de sua realidade.
Rita Ferreira leva formação de volta ao território
A conclusão da graduação não afastou Rita de Piaçabuçu nem de sua atuação no Comitê da Bacia do São Francisco. Ao contrário, o novo conhecimento poderá fortalecer sua participação na defesa das comunidades e na discussão sobre o uso sustentável dos recursos naturais.
Sua trajetória também mostra que o acesso à universidade produz efeitos que não ficam restritos ao estudante matriculado. O filho que seguiu para a Medicina Veterinária é uma das consequências visíveis, mas a presença de uma extrativista formada também cria uma referência para outras mulheres e famílias da região.
Depois de seis anos, Rita Ferreira deixou a cerimônia com um diploma e uma história que conecta três gerações: a avó que concluiu a universidade, o filho que iniciou sua própria graduação e a neta que crescerá vendo o ensino superior como parte possível da vida familiar.
Ao transformar frutos da foz em sustento e conhecimentos do campo em formação científica, Rita não precisou abandonar sua origem para ocupar a universidade. Sua conquista fez o caminho inverso: levou a experiência ribeirinha para dentro da Ufal e devolveu ao território uma profissional preparada para continuar defendendo o rio do qual depende.
Fonte: UFAL
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Ufal
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

