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Depois de trabalhar na lavoura e fazer diárias para ajudar a alimentar os dois irmãos mais novos em Curitiba, Silvana Niemczewski fez curso de mecânica, passou mais de 10 anos reparando carros na Volkswagen, tornou-se a primeira mulher da função a conquistar equiparação salarial, cursou Direito e abriu o próprio escritório
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 21/08/2026 às 14:48
Atualizado em 21/08/2026 às 14:49
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Natural do interior do Paraná, Silvana saiu do trabalho na lavoura e das diárias domésticas para uma oficina da Volkswagen, enfrentou uma disputa trabalhista após um acidente e levou a experiência para uma nova carreira no Direito
Antes de se tornar advogada e ocupar cargos na Ordem dos Advogados do Brasil, Silvana Cristina de Oliveira Niemczewski passou mais de uma década trabalhando diretamente com reparação de veículos na Volkswagen. A entrada na indústria ocorreu depois de uma mudança para Curitiba em 1998, quando ela precisava trabalhar para manter a casa e ajudar a alimentar os dois irmãos mais novos.
O caminho até a montadora havia começado muito antes. Natural de Jardim Alegre, município do interior do Paraná, Silvana cresceu em uma família com poucos recursos e trabalhava na lavoura durante as férias escolares. Seu pai era ensacador e não sabia ler nem escrever, enquanto a mãe trabalhava como professora.
Já em Curitiba, Silvana fez diárias enquanto procurava uma maneira de conseguir uma renda mais estável. A decisão que mudaria sua trajetória profissional veio com a matrícula em um curso de mecânica, formação que a levou a um setor ainda fortemente associado à presença masculina.
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Segundo a OAB Paraná, Silvana acabou contratada pela Volkswagen como reparadora de veículos e permaneceu mais de dez anos na montadora, tornando-se a primeira mulher naquela função a conseguir equiparação salarial. Anos depois, a experiência dentro da fábrica também teria influência direta sobre a escolha de sua segunda profissão.
O curso de mecânica abriu uma porta para uma função ocupada majoritariamente por homens
A passagem de Silvana pela Volkswagen colocou a então trabalhadora dentro de uma atividade industrial em que a diferença entre homens e mulheres ainda pode ser observada décadas depois. Dados do IBGE referentes a 2024 mostram que justamente o grupo formado por trabalhadores qualificados, operários e artesãos da construção, das artes mecânicas e outros ofícios apresentou uma das maiores diferenças de rendimento entre os sexos.
Naquele grupo ocupacional, mulheres receberam em média R$ 1.604 por mês, o equivalente a 63,8% dos R$ 2.516 recebidos pelos homens. O levantamento ajuda a dimensionar o ambiente profissional no qual a paranaense conseguiu avançar anos antes de o Brasil adotar mecanismos mais recentes de transparência salarial.
No caso de Silvana, o reconhecimento financeiro não veio automaticamente com o exercício da atividade. O histórico divulgado pela entidade profissional registra que ela foi a primeira mulher na função de reparadora de veículos a alcançar equiparação salarial, um ponto que ganharia significado adicional na etapa seguinte de sua carreira.
A diferença de remuneração entre homens e mulheres continua presente no mercado de trabalho brasileiro. Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres em 2025, com informações de 53.014 estabelecimentos que possuíam pelo menos 100 empregados, apontaram que as mulheres recebiam, em média, 20,9% menos que os homens nos vínculos analisados.
Um acidente de trabalho mudou o rumo da carreira dentro da Volkswagen
A permanência de mais de uma década na indústria foi interrompida por um acidente de trabalho. Silvana foi demitida e posteriormente reintegrada à empresa em 2007, período que, segundo o relato biográfico divulgado pela OAB-PR, trouxe dificuldades financeiras e profissionais.
A vivência com relações de trabalho, direitos do empregado e as consequências práticas de um conflito trabalhista ajudou a direcioná-la para outra área. Silvana decidiu cursar Direito, contando com apoio financeiro de familiares para conseguir permanecer na graduação.
Durante a faculdade, ela passou pela Defensoria Pública e por escritórios de advocacia como estagiária. Depois de formada, direcionou a atividade profissional justamente para duas áreas relacionadas a conflitos que afetam diretamente trabalhadores, Direito do Trabalho e Direito Previdenciário, além de buscar especialização nesses campos.
A equiparação salarial que aparece na trajetória da ex-reparadora também ganhou novas ferramentas jurídicas no Brasil anos depois. A Lei 14.611, sancionada em 3 de julho de 2023, determinou a igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens que realizem trabalho de igual valor ou exerçam a mesma função, além de estabelecer mecanismos de transparência e fiscalização.
Em 2009, a ex-reparadora de veículos passou a comandar o próprio escritório
A mudança de profissão não terminou na graduação. Depois de trabalhar em um escritório nas áreas trabalhista e previdenciária, Silvana abriu o próprio escritório de advocacia em 2009, consolidando a passagem do chão de fábrica para a atuação jurídica.
Paralelamente, ela mantinha trabalhos voluntários com entidades sociais e participava de iniciativas ligadas ao combate à discriminação. Essa atuação a aproximou da estrutura institucional da advocacia paranaense.
Em 2014, Silvana foi convidada a integrar a primeira formação da Comissão de Igualdade Racial da OAB Paraná. Dois anos depois, em abril de 2016, tornou-se presidente da comissão e a primeira mulher negra a presidir uma comissão da seccional.
Naquele período, a atuação deixou de se limitar a Curitiba. Em junho de 2016, Silvana relatou que percorria subseções da OAB pelo interior para ampliar a estrutura ligada à igualdade racial. A comissão, que anteriormente tinha oito integrantes, preparava uma composição com mais de 30 membros e presença em cidades como Maringá, Apucarana, Ivaiporã e São José dos Pinhais.
A carreira iniciada depois da fábrica chegou ao Conselho Federal da OAB
A participação institucional continuou nos anos seguintes. Em 2017, Silvana foi designada pelo Conselho Federal da OAB para integrar a Comissão Nacional da Verdade da Escravidão Negra no Brasil, grupo criado para desenvolver trabalhos de recuperação e preservação da história relacionada à escravidão no país.
A advogada também passou pela diretoria da Caixa de Assistência dos Advogados do Paraná. Em uma homenagem publicada pela OAB-PR em 2024, a entidade registrou que Silvana foi a primeira mulher negra a assumir um cargo de diretoria no sistema OAB no Paraná, além de ter presidido a Comissão de Igualdade Racial.
Outro avanço ocorreu quando chegou ao Conselho Federal. A própria OAB Paraná registra Silvana como a primeira pessoa negra a representar a advocacia paranaense no Conselho Federal da entidade, ampliando uma trajetória institucional iniciada anos antes como integrante de uma comissão estadual.
A atuação permanece registrada nos documentos recentes da Ordem. Em março de 2026, o Diário Eletrônico da OAB identificava Silvana Cristina de Oliveira Niemczewski como conselheira federal pelo Paraná e relatora de processo na Segunda Câmara do Conselho Federal, quase três décadas depois da mudança para Curitiba em busca de trabalho.
Entre a lavoura de Jardim Alegre, as diárias para sustentar a casa, o curso de mecânica, os mais de dez anos reparando automóveis e a abertura de um escritório de advocacia, a trajetória profissional de Silvana passou por setores bastante diferentes. O ponto de ligação entre essas etapas aparece justamente nas áreas às quais ela se dedicou posteriormente no Direito, como relações de trabalho, previdência e igualdade de direitos.
E você, já conhecia a trajetória de Silvana Niemczewski e sua passagem de reparadora de veículos na Volkswagen para a advocacia? Deixe seu comentário e conte o que mais chamou sua atenção nessa mudança de carreira e na disputa por espaço e igualdade salarial dentro do mercado de trabalho.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

