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Depois de ver desaparecerem os peixes do rio onde aprendeu a nadar, vendedor reúne garrafas PET, rede e depois galões de 50 litros para criar uma ecobarreira, gasta cerca de R$ 1 mil e transforma a iniciativa em projeto que já inspirou ao menos 10 cidades do país
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 20/08/2026 às 07:23
Atualizado em 20/08/2026 às 07:24
Ciência e Tecnologia
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Diego Saldanha criou no rio Atuba, em Colombo, uma ecobarreira feita com galões, rede e materiais reaproveitados após acompanhar o avanço da poluição no local onde aprendeu a nadar. Com cerca de R$ 1 mil, retirou quase três toneladas de resíduos e inspirou iniciativas em ao menos 10 cidades brasileiras.
Diego Saldanha cresceu com o rio Atuba passando pelos fundos da casa da família, no bairro Jardim das Flores, em Colombo, na região metropolitana de Curitiba, no Paraná. Foi naquele rio que ele aprendeu a nadar, mais de duas décadas antes de decidir construir uma barreira flutuante para impedir que parte do lixo carregado pela correnteza continuasse seguindo pelas águas.
As informações foram publicadas pela BBC News Brasil em 17 de julho de 2019, em reportagem de Vinícius Lemos. Na época, Diego tinha 33 anos e relatava ter acompanhado a degradação do Atuba ao longo das décadas, com águas cada vez mais sujas e o desaparecimento dos peixes que encontrava no local durante a infância.
Rio onde Diego aprendeu a nadar perdeu os peixes com o avanço da poluição
Diego morava ao lado da casa dos pais, onde havia crescido, e continuava convivendo diariamente com o trecho do Atuba que marcou sua infância. Segundo ele, o rio era limpo quando era criança, mas passou por um processo de poluição que alterou as condições que conhecia décadas antes.
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O Atuba atravessa Curitiba, Colombo e Pinhais, também na região metropolitana da capital paranaense. Suas águas se encontram com as do rio Iraí e formam o rio Iguaçu, que segue pelo Paraná até chegar às cataratas, no extremo oeste do Estado.
Primeira ecobarreira nasceu em janeiro de 2017 com garrafas PET de dois litros e uma rede
Diego começou a pesquisar maneiras de melhorar a situação do trecho próximo à residência e decidiu transformar a ideia em uma estrutura física. Em janeiro de 2017, reuniu garrafas PET de dois litros dentro de uma rede e esticou o conjunto de uma margem à outra do Atuba.
A primeira versão funcionava como uma barreira flutuante destinada a segurar resíduos trazidos pela correnteza. Diego passou a chamar a estrutura de “ecobarreira”, embora aquela tentativa inicial ainda estivesse distante do formato que ele consideraria adequado para o rio.
Poucos resultados na primeira tentativa levaram à troca por galões de 50 litros
A estrutura feita inicialmente com garrafas PET apresentou resultados limitados, mas indicou a Diego que uma versão mais resistente poderia contribuir para retirar parte dos resíduos visíveis da água. Poucos dias depois, ele decidiu reconstruir o sistema.
Diego comprou galões de 50 litros, substituiu a proteção anterior por uma rede mais forte e refez a ecobarreira. Segundo o vendedor, cerca de R$ 1 mil de recursos próprios foram gastos para montar a estrutura aperfeiçoada.
Barreira foi instalada na diagonal para concentrar o lixo perto de uma das margens
A ecobarreira foi projetada para atravessar o Atuba de maneira diagonal. Na margem esquerda, onde fica a casa de Diego, a estrutura foi presa a uma estaca de ferro, enquanto o outro lado ficou amarrado a uma árvore na margem direita.
A disposição diagonal tinha uma função prática: direcionar os resíduos retidos para o lado esquerdo e facilitar o trabalho de retirada. Em condições normais, segundo a reportagem, aquele trecho do rio tinha aproximadamente um metro de profundidade.
Estaca se solta quando o nível do Atuba sobe e objetos maiores descem pelo rio
Diego também criou um mecanismo para períodos em que a vazão aumenta. Quando o nível da água sobe, a estaca instalada na margem esquerda pode se soltar em direção à margem direita, reduzindo o risco causado pela passagem de troncos e objetos maiores durante as cheias.
Diego relatou que, quando o nível volta a baixar, utiliza uma corda para puxar a estaca novamente até a margem esquerda. Os detalhes da estrutura foram pensados ao longo dos anos em que ele observou o problema da poluição antes de finalmente colocar a primeira versão em prática.
Quase três toneladas de resíduos foram retiradas desde a instalação da ecobarreira
Desde o início do projeto, em 2017, Diego estimava ter retirado quase três toneladas de resíduos do Atuba até a publicação da reportagem, em julho de 2019. Segundo o vendedor, aproximadamente 90% do material recolhido era formado por garrafas ou isopor.
A ecobarreira também reteve objetos muito diferentes desses resíduos mais comuns. Diego relatou ter encontrado bonecas, bolas, televisores antigos, capacetes de motocicleta, um fogão e até um sofá entre os itens carregados pelo rio.
Roupa de borracha e rede de pesca passaram a fazer parte da rotina de limpeza
Diego utilizava uma rede própria para captura de peixes durante a retirada do lixo preso à barreira. O trabalho também exigia uma vestimenta específica, formada por uma espécie de macacão de borracha e uma bota.
A roupa foi recebida em dezembro de 2017 de uma empresa que decidiu parabenizá-lo pela iniciativa. A limpeza precisava ser realizada diretamente no ponto onde os resíduos ficavam concentrados pela ecobarreira.
Materiais recicláveis ajudam escola dos filhos e bonecas são restauradas para doação
Os resíduos retirados do Atuba não recebiam todos o mesmo destino. Os plásticos recicláveis eram enviados à escola municipal frequentada pelos dois filhos de Diego, que tinham 10 e seis anos na época da reportagem.
A escola pesava e vendia os materiais, e o dinheiro permanecia com a própria unidade para melhorias, segundo Diego. Entre os exemplos citados pelo vendedor estavam a pintura do parquinho e a compra de livros.
As bonecas encontradas no rio eram restauradas pela mãe de Diego e depois doadas a crianças. Bolas recuperadas ainda em boas condições eram entregues a garotos da vizinhança.
Fogão, televisores e capacetes viraram peças de um pequeno “museu” perto do rio
Diego reservou uma pequena área próxima à ecobarreira para guardar alguns dos objetos que considerava mais curiosos entre os retirados do Atuba. O espaço passou a funcionar como uma espécie de museu informal do material encontrado na água.
Entre os itens mantidos no local estavam o fogão, televisores e capacetes. A coleção mostrava uma parte da variedade de resíduos que chegava à estrutura instalada no rio.
Vídeo sobre a ecobarreira ultrapassou 5 milhões de visualizações nas redes sociais
Nas primeiras semanas de funcionamento da ecobarreira, no início de 2017, Diego gravou um vídeo mostrando tanto a estrutura quanto os resíduos recolhidos. O conteúdo se espalhou pelas redes sociais e, até a publicação da reportagem da BBC News Brasil, acumulava mais de 5 milhões de visualizações.
A repercussão levou Diego a receber convites para palestras. Nas escolas, ele participava voluntariamente de atividades sobre preservação dos rios, enquanto em eventos promovidos por empresas recebia cachê.
Projeto recebeu dois prêmios e Diego ganhou R$ 8 mil em competição realizada em Goiás
Diego também havia recebido duas premiações pela ecobarreira. Em outubro de 2018, conquistou o Prêmio Lixo Zero, realizado no Rio de Janeiro, e recebeu um troféu pela iniciativa.
Em janeiro de 2019, ficou em primeiro lugar no Prêmio Pega a Visão de Empreendedorismo Popular, em Goiás. A premiação rendeu R$ 8 mil ao vendedor.
Diego dizia se sentir honrado pelos reconhecimentos, mas afirmava que gostaria de ter apoio do poder público local para ampliar a iniciativa e percorrer escolas municipais falando sobre a importância da preservação dos rios.
Prefeitura de Colombo afirmou colaborar com caminhão para retirar o lixo recolhido
A Prefeitura de Colombo informou à BBC News Brasil que colaborava com a ecobarreira disponibilizando um caminhão para recolher os resíduos retirados por Diego. O vendedor afirmou, porém, ter utilizado esse serviço poucas vezes, no máximo quatro.
Segundo Diego, ele próprio telefonava para solicitar as retiradas e o atendimento correspondia a um serviço de recolhimento de entulhos disponibilizado a qualquer cidadão, não a um apoio específico ao projeto.
A prefeitura classificou a iniciativa como positiva nos âmbitos ambiental, social e cultural. O município informou, porém, que não planejava instalar outras ecobarreiras em Colombo e disse estar desenvolvendo um plano de limpeza dos rios da região por meio de desassoreamento.
Ecobarreira de Colombo inspirou projetos em ao menos 10 outras cidades brasileiras
Apesar de Colombo não planejar reproduzir o equipamento em outros pontos, Diego afirmou que estruturas inspiradas em seu projeto já haviam sido desenvolvidas em ao menos 10 outras cidades brasileiras. Entre os municípios citados estavam Blumenau, em Santa Catarina, Araucária, no Paraná, e Coronel Fabriciano, em Minas Gerais.
Itaí, no interior de São Paulo, foi um dos municípios que adotaram uma versão própria. O responsável pelo trabalho foi Guilherme de Oliveira, então secretário municipal de Meio Ambiente.
Itaí instalou duas barreiras com galões de 20 litros e investiu R$ 2 mil
Guilherme de Oliveira instalou duas ecobarreiras em pontos diferentes do Ribeirão dos Carrapatos. O rio nasce em Itapeva, também no Estado de São Paulo, e passa pelo município de Itaí.
A versão paulista utilizou galões de 20 litros revestidos com telas, além de um cabo de aço para reforçar a estrutura e reduzir o risco de rompimento quando o nível da água aumentasse. Segundo o secretário, o município destinou R$ 2 mil ao projeto.
Guilherme afirmou que a iniciativa teve como inspiração o trabalho desenvolvido por Diego no Atuba, embora a estrutura tenha recebido modificações para as condições adotadas em Itaí.
Professor da Unesp afirma que ecobarreira ajuda na conscientização, mas não despolui o rio
Antonio Fernando Monteiro, professor da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, e doutor em Ecologia, avaliou que a situação dos rios brasileiros era preocupante diante da poluição que atingia a imensa maioria deles. Para o especialista, a ecobarreira tinha relevância principalmente como instrumento de conscientização.
Antonio Fernando explicou que um rio visivelmente sujo, com odor e água acinzentada, pode acabar sendo tratado pela população como um lugar para descarte de resíduos. Nesse sentido, a limpeza feita por Diego ajudava a demonstrar a necessidade de preservação.
O especialista ressaltou, entretanto, que a barreira não despoluía o Atuba. A estrutura retirava materiais visíveis e flutuantes, mas não resolvia problemas provocados por esgoto e outros contaminantes presentes na água.
Tratamento de esgoto é apontado como condição necessária para despoluir as águas
Antonio Fernando afirmou que a despoluição dos rios depende de saneamento básico adequado, principalmente do tratamento do esgoto antes de seu lançamento. O especialista destacou a importância de estações de tratamento capazes de evitar que os resíduos sejam despejados diretamente nos cursos d’água.
O crescimento da população também foi apontado por ele como fator que aumenta o volume de esgoto. Sem tratamento adequado, explicou o professor, esse crescimento amplia a poluição dos rios e transforma o problema em uma questão de saúde pública.
Diego estudou até o nono ano e vende frutas no centro de Curitiba
Diego estudou até o nono ano do ensino fundamental e deixou a escola para trabalhar. Mesmo distante das salas de aula, continuou lendo sobre assuntos relacionados à natureza.
A venda de frutas na região central de Curitiba era a principal fonte de renda da família. Diego afirmava que os custos de manutenção da ecobarreira eram pequenos e não comprometiam seu orçamento, embora sua condição de trabalhador autônomo fizesse com que perdesse dias de serviço quando participava voluntariamente de atividades como palestras em escolas.
Diego dizia considerar gratificante poder ajudar o Atuba e relatava sentir-se útil ao retirar resíduos das águas por entender que realizava uma ação positiva para a sociedade.
Falta de tratamento de esgoto levou Diego a adotar uma “ecofossa” em casa
Diego também se preocupava com o destino do esgoto doméstico e dizia que o bairro onde morava não possuía tratamento adequado. Em sua própria residência, aderiu a uma solução chamada por ele de “ecofossa”, inspirada em um professor que havia desenvolvido uma medida semelhante para auxiliar uma comunidade ribeirinha do Amazonas.
O sistema descrito pelo vendedor utiliza um túnel feito com pneus ligados por tubos, responsáveis por conduzir os resíduos do vaso sanitário até uma estrutura quadrada de alvenaria construída no quintal. O local é coberto com pedras, areia, seis bananeiras e duas taiobas.
Segundo a explicação de Diego, bactérias atuariam sobre os dejetos, enquanto o líquido passaria pelos espaços existentes nos pneus e seria absorvido pelas plantas. Ele apresentava a solução como uma maneira de evitar que o material fosse destinado à rede de esgoto e, consequentemente, chegasse ao rio.
Frequência da retirada de lixo caiu de todos os dias para uma vez a cada três dias
Diego afirmava ter percebido uma mudança no comportamento da população desde a implantação da ecobarreira. No começo do projeto, segundo ele, era necessário retirar diariamente os resíduos acumulados na estrutura.
Até julho de 2019, o vendedor dizia realizar a limpeza a cada três dias, porque uma quantidade menor de lixo estava chegando à barreira. Para Diego, a redução indicava maior conscientização dos moradores sobre a necessidade de preservar o Atuba.
O próximo objetivo declarado por ele era convencer vizinhos a também adotarem a ecofossa em suas residências. Diego considerava tanto a ecobarreira quanto esse sistema doméstico medidas pequenas que, embora não fossem suficientes para despoluir o rio, poderiam contribuir para iniciar mudanças na relação da comunidade com as águas.
Diego espera que os filhos preservem o rio que eles já não puderam usar para nadar
Diego apontava como um de seus maiores orgulhos ter se tornado uma referência para os próprios filhos nos cuidados com a natureza. As crianças, diferentemente dele, não tiveram a oportunidade de aprender a nadar no Atuba devido às condições encontradas no rio.
O vendedor esperava que os filhos crescessem mais conscientes sobre a importância da preservação e continuava retirando o material retido pela ecobarreira construída diante da casa onde cresceu.
Para você, iniciativas individuais como a ecobarreira podem ajudar a mudar a relação das cidades com seus rios ou ações desse tipo precisam estar necessariamente acompanhadas de investimentos públicos em saneamento e prevenção do descarte de lixo? Deixe sua opinião nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

