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Dono da gigante dos foguetes SpaceX não lançou foguete nenhum com esse dinheiro, vendeu 20 mil lança-chamas em quatro dias, faturou US$ 10 milhões e usou a grana para bancar a empresa que cava túneis
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 04/08/2026 às 11:02
Atualizado em 04/08/2026 às 11:18
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As vendas começaram no sábado, 27 de janeiro de 2018, pelo site da The Boring Company. Cada unidade custava 500 dólares e o estoque acabou antes do fim daquela semana. O dinheiro foi para o caixa da empresa de escavação de túneis, e não para foguete algum.
Vinte mil pessoas pagaram 500 dólares cada por um lança-chamas de marca. O dono da gigante dos foguetes SpaceX, Elon Musk, colocou o produto à venda no site da The Boring Company, empresa de escavação de túneis que ele havia criado pouco antes, e o estoque acabou em quatro dias, conforme reportagem de Darrell Etherington publicada pelo TechCrunch em 31 de janeiro de 2018.
A conta é simples: 20 mil unidades vezes 500 dólares dão 10 milhões de dólares em pedidos. O destino do dinheiro não foi nenhum programa espacial, e sim o caixa da empresa que perfura túneis sob cidades americanas.
Como a venda aconteceu
O produto foi ao ar no sábado, 27 de janeiro de 2018. O ritmo surpreendeu até quem acompanhava a operação: já na segunda-feira seguinte, Musk informava que as vendas somavam 3,5 milhões de dólares.
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Na quarta-feira, 15 mil unidades já haviam sido reservadas. As 5 mil restantes sumiram em seguida, e ele anunciou o esgotamento em publicação nas redes sociais. Vale registrar uma divergência: a maioria das reportagens fala em quatro dias para vender tudo, enquanto matéria do USA Today informa cinco dias.
O que veio antes do lança-chamas
Aquele não foi o primeiro teste de venda de produto de marca pela empresa de túneis. Antes dele, a companhia havia vendido 50 mil bonés personalizados, também a preço fixo, em uma operação que serviu de termômetro.
Deu certo, e o lança-chamas foi o passo seguinte na mesma lógica: usar a atenção pública em torno do empresário para gerar receita rápida para um negócio que ainda estava começando. Cada aparelho vendido vinha acompanhado de um extintor de incêndio da própria marca, item que a empresa vendia separadamente por 30 dólares.
Os 10 milhões não foram lucro
Aqui é preciso ser preciso, porque o número circula distorcido. Os 10 milhões de dólares correspondem ao total comprometido em pré-encomendas, e não ao que sobrou para a empresa depois de fabricar e entregar 20 mil aparelhos.
A própria reportagem original registra essa ressalva, apontando que a margem provavelmente era grande, mas que o valor bruto não equivale a receita líquida. Há ainda uma divergência entre publicações: uma delas informa que a operação levantou 7,5 milhões de dólares para a empresa, número diferente dos 10 milhões citados na maior parte da cobertura.
O produto não era bem um lança-chamas
Assista o vídeo
Existe um detalhe técnico que o próprio empresário admitiu depois. Em entrevista ao podcast de Joe Rogan, ainda em 2018, ele descreveu o aparelho como uma tocha de telhadista com uma capa de rifle de ar comprimido, e afirmou que não era um lança-chamas de verdade.
A diferença é real. Lança-chamas militares projetam combustível líquido em chamas, como diesel ou gasolina. O aparelho vendido funcionava com botijão de propano e produzia uma língua de fogo de cerca de 60 centímetros. Como a chama não passava de três metros, o produto era legalmente vendável sem licença nos Estados Unidos.
A palavra que travou tudo na alfândega
O nome virou problema logo depois. Em fevereiro de 2018, Musk publicou que agências alfandegárias avisaram que não liberariam a remessa de nada chamado lança-chamas.
A solução foi rebatizar o produto como “não é um lança-chamas”. A troca de nome não alterou o aparelho, apenas a etiqueta, e resolveu a barreira de despacho. Depois disso apareceu outro obstáculo: as regras de transporte de itens carregados com propano. A resposta da empresa foi entregar pessoalmente, com vans próprias, e organizar eventos de retirada.
A entrega e o termo de responsabilidade
As primeiras mil unidades foram entregues em 9 de junho de 2018, quase cinco meses depois da compra, em evento na sede da empresa em Hawthorne, na Califórnia. Filas se formaram no local e compradores posaram para fotos com o aparelho aceso.
Antes de receber, cada comprador teve de preencher um formulário com termos de uso. O documento pedia que ninguém usasse o produto para impressionar interesses românticos, sugeria o preparo de crème brûlée como aplicação adequada e trazia uma rima recomendando uso seguro. Havia também isenção de responsabilidade da empresa por qualquer coisa feita pelos clientes, por mais genial ou estúpida que fosse.
A tentativa de barrar a venda na Califórnia
O produto gerou reação política. O deputado estadual Miguel Santiago, democrata de Los Angeles, apresentou o projeto AB1949 para fechar a brecha legal e restringir a venda do aparelho em um estado com histórico de incêndios florestais.
A proposta não prosperou. Ela foi enviada ao comitê de dotações da Assembleia, destino habitual de projetos com poucas chances de aprovação, e acabou engavetada. A Firearms Policy Coalition, grupo de defesa do direito a armas, se posicionou contra o texto, alegando que ele criminalizaria comportamento não violento.
O que o próprio criador disse depois
A avaliação mais dura sobre o produto veio de quem o vendeu. No mesmo podcast, Musk classificou a iniciativa como uma péssima ideia, disse que o aparelho era perigoso e errado, pediu que ninguém comprasse e brincou que, mesmo assim, as pessoas compraram e ele não conseguiu impedir.
Ele também afirmou que a empresa nunca mais fabricaria aquilo. Sobre a natureza da operação, foi franco ao responder a críticas: reconheceu que havia esperteza comercial envolvida, disse que qualquer pessoa poderia pesquisar na internet o que estava comprando e que quem quisesse reembolso teria, prevendo que praticamente ninguém pediria.
O que aconteceu com os aparelhos
O destino dos 20 mil equipamentos rendeu um capítulo posterior. Reportagem do TechCrunch publicada anos depois registrou que unidades do produto começaram a aparecer em apreensões policiais de armas e drogas em diferentes países, com compradores fora dos Estados Unidos enfrentando problemas com autoridades locais.
No mercado paralelo, o preço explodiu. Ainda em fevereiro de 2018, exemplares eram anunciados no eBay por até 6 mil dólares, doze vezes o valor original. O item virou objeto de colecionador antes mesmo de sair da fábrica.
E você, pagaria 500 dólares por um lança-chamas de marca? Conta aqui nos comentários o que achou dessa forma de financiar uma empresa, e diga se você já comprou algum produto só porque a marca ou a pessoa por trás dele chamou sua atenção.
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Elon Musk
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

