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Ela foi impedida pelo pai e pelo marido de continuar estudando, passou décadas como dona de casa, voltou à escola aos 54, conseguiu o primeiro emprego, passou em concurso, entrou na UERJ aos 62, perdeu o marido na reta final da monografia e recebeu o diploma de Pedagogia aos 67 no Rio de Janeiro
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 11/08/2026 às 22:28
Atualizado em 11/08/2026 às 22:29
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Marcada por décadas longe da escola, a trajetória reúne retomada dos estudos, primeiro emprego, concurso público, universidade e uma perda familiar na fase decisiva da graduação, em um percurso que transformou um antigo desejo de infância em uma conquista acadêmica alcançada depois dos 60 anos.
Depois de passar grande parte da vida longe das salas de aula, Dulce Araújo retomou a educação formal aos 54 anos e iniciou uma sequência que reuniu conclusão do ensino médio, primeiro emprego, aprovação em concurso público e ingresso no curso de Pedagogia da UERJ.
Já aos 67 anos, ela recebeu o diploma depois de conciliar trabalho e faculdade e de enfrentar a morte do marido justamente quando precisava concluir a monografia, uma etapa decisiva para encerrar a graduação iniciada após décadas de afastamento dos estudos.
Segundo relato feito por Dulce à BBC News Brasil em reportagem publicada pelo UOL, sua formação havia sido interrompida ainda jovem, depois que ela concluiu apenas o ensino fundamental e encontrou resistência dentro da própria família para continuar frequentando a escola.
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Na época, conforme contou, o pai e o homem que mais tarde se tornaria seu marido não queriam que ela prosseguisse para o ensino médio, fazendo com que um caminho educacional imaginado desde a infância permanecesse interrompido durante muitos anos.
Sonho de estudar na UERJ começou ainda na infância
Muito antes de enfrentar um vestibular, Dulce já observava a universidade como um espaço que desejava alcançar, pois costumava passar com o pai diante do prédio da UERJ, próximo ao Maracanã, na zona norte do Rio de Janeiro.
A imagem daquele campus permaneceu ligada ao desejo de estudar, embora sua rotina tenha seguido por outro caminho depois que ela se casou, teve dois filhos e passou décadas dedicada à vida doméstica, longe da educação formal.
Foi somente aos 54 anos que os estudos voltaram a ocupar espaço concreto em sua rotina, quando Dulce começou a frequentar cursos profissionalizantes e recebeu de um professor o incentivo necessário para concluir a formação escolar deixada para trás.
A partir desse estímulo, ela ingressou na Educação de Jovens e Adultos, a EJA, retomando uma trajetória interrompida havia décadas e abrindo uma sequência de mudanças pessoais, profissionais e acadêmicas que mais tarde a levaria até uma universidade pública.
Retomada dos estudos pela EJA aos 54 anos
Em pouco menos de dois anos, Dulce conseguiu concluir o ensino médio por meio da EJA, recuperando uma etapa educacional que permanecera pendente durante grande parte de sua vida adulta e criando condições para avançar posteriormente em direção ao ensino superior.
Paralelamente à volta para a escola, uma mudança familiar também alterou sua rotina, pois o marido ficou desempregado e ela começou a trabalhar em uma loja, experiência que representou o primeiro emprego de sua vida depois de décadas como dona de casa.
Depois de terminar o ensino médio, Dulce passou a trabalhar em tempo integral como auxiliar de uma creche, aproximando sua experiência profissional da área de educação que, mais tarde, também escolheria como campo de formação dentro da universidade.
Esse contato cotidiano com a Educação Infantil antecedeu outra conquista importante, alcançada quando ela decidiu participar de um concurso público municipal e conseguiu transformar a experiência profissional em uma nova etapa de sua trajetória no serviço público.
Concurso público abriu nova etapa na Educação Infantil
Aprovada em concurso para agente de Educação Infantil do município do Rio de Janeiro, Dulce passou a exercer a função em uma creche aos 62 anos, justamente quando também decidiu que a conclusão do ensino médio não encerraria seu percurso acadêmico.
Em vez de interromper novamente os estudos, ela iniciou uma preparação para o vestibular, frequentou um curso pré-vestibular e prestou a prova da UERJ para Pedagogia, retomando de forma concreta aquele vínculo construído com a universidade ainda durante a infância.
A aprovação deu novo significado ao prédio que durante tantos anos havia sido apenas observado de fora, porque Dulce finalmente entrou na UERJ como estudante, depois de atravessar décadas de vida adulta sem acesso à formação universitária que desejava.
Ao começar a graduação, ela passou a integrar uma turma formada majoritariamente por estudantes mais jovens e relatou ter sentido, inicialmente, vergonha por causa da diferença de idade, embora não tenha registrado críticas dos colegas relacionadas à sua presença no curso.
Faculdade de Pedagogia na UERJ aos 62 anos
Além da adaptação ao ambiente universitário, Dulce precisou organizar uma rotina exigente para manter simultaneamente emprego e faculdade, já que trabalhava durante a tarde e seguia diretamente para a UERJ, onde frequentava as aulas no período noturno.
Em algumas ocasiões, o deslocamento entre o trabalho e o campus provocava atrasos, enquanto os estudos continuavam mesmo depois da volta para casa, com leituras e atividades acadêmicas que, segundo seu relato, chegavam a avançar pela madrugada.
A intensidade dessa rotina contrastava com o longo período em que Dulce permanecera afastada da educação formal, pois em poucos anos ela passou da conclusão do ensino médio pela EJA para uma graduação que exigia avaliações, leituras acadêmicas e produção universitária constante.
Sem reprovar em nenhuma disciplina, ela avançou pelo curso de Pedagogia enquanto mantinha suas responsabilidades profissionais, até chegar à fase final da graduação, quando um acontecimento familiar interferiu diretamente no prazo previsto para a entrega de sua monografia.
Morte do marido ocorreu na reta final da monografia
Perto do encerramento do curso, Dulce e o marido haviam retomado o casamento, e ela passou a cuidar dele durante um período de doença, conciliando essa responsabilidade com o trabalho e com as exigências acadêmicas que ainda precisava cumprir na universidade.
Quando o marido morreu, ela estava justamente na etapa em que precisava entregar a monografia, e a perda afetou o andamento do trabalho acadêmico, fazendo com que os professores ampliassem o prazo disponível para a conclusão e apresentação do estudo.
Após receber mais tempo para finalizar o trabalho, Dulce conseguiu apresentar a monografia e obteve nota 9, superando a interrupção provocada pela perda familiar e completando uma das últimas exigências necessárias para alcançar o diploma universitário.
A apresentação abriu caminho para a etapa final de uma trajetória iniciada décadas antes, quando estudar em uma universidade parecia distante, e culminou na conclusão do curso de Pedagogia depois de anos conciliando responsabilidades profissionais, familiares e acadêmicas.
Diploma de Pedagogia veio aos 67 anos
Aos 67 anos, Dulce recebeu o diploma de Pedagogia pela UERJ, encerrando uma graduação na qual, segundo relatou, não havia sido reprovada em nenhuma disciplina, embora o calendário acadêmico tenha sido afetado por paralisações ocorridas durante sua formação.
Durante a cerimônia de colação de grau, diferentes gerações da família estiveram reunidas, e sua neta, então com um ano de idade, chamava por ela enquanto Dulce permanecia no palco para receber oficialmente o diploma universitário.
A cena aconteceu décadas depois das passagens pelo campus ao lado do pai, quando a futura pedagoga apenas observava a UERJ sem saber em que momento conseguiria chegar ao ensino superior ou se aquele desejo de infância seria algum dia realizado.
Antes de alcançar esse palco, porém, vieram a retomada dos estudos aos 54 anos, a conclusão do ensino médio pela EJA, o primeiro emprego, o trabalho em creche, a aprovação em concurso público e a preparação para disputar uma vaga universitária.
Quando entrou na UERJ aos 62 anos, Dulce incorporou a graduação a uma rotina que já incluía o trabalho como agente de Educação Infantil, seguindo até a monografia mesmo depois da morte do marido exigir uma reorganização da etapa final do curso.
Décadas separaram a menina que observava o campus da UERJ da mulher que entrou naquele mesmo espaço como estudante e saiu com um diploma de Pedagogia, após reconstruir gradualmente uma trajetória educacional interrompida ainda na juventude.
Depois de conhecer uma história marcada por tantos anos longe da escola, retorno pela EJA, trabalho, concurso público e ingresso na universidade após os 60, qual objetivo deixado de lado por muito tempo você ainda consideraria possível retomar hoje?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

