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Entregador de 56 anos transforma esperas por pedidos em poesia, vence importante prêmio literário na China e decide continuar trabalhando nas ruas
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 31/08/2026 às 12:19
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Morador de Kunshan, Wang Jibing escreveu versos durante as pausas das entregas, reuniu experiências da rotina na coletânea Voo baixo e foi reconhecido em julho de 2026 pelo Prêmio de Literatura Lu Xun, sem abandonar o trabalho que alimenta sua criação.
Durante as esperas por refeições, elevadores e clientes, o entregador Wang Jibing transformava minutos curtos em versos. Aos 56 anos, ele foi anunciado como um dos vencedores de um dos mais importantes prêmios literários da China.
A informação foi publicada pelo The Business Standard, veículo de notícias que trouxe os detalhes da trajetória. A coletânea Di Chu Fei Xing, traduzida como Voo baixo, nasceu principalmente das experiências vividas por Wang enquanto percorria as ruas de Kunshan.
Mesmo após o reconhecimento, o poeta não planeja abandonar as entregas. Para Wang, continuar próximo dessa rotina é uma maneira de preservar o contato com as pessoas, os conflitos e as pequenas cenas que alimentam sua escrita.
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Poesia entre pedidos
O trabalho de Wang é marcado pela contagem regressiva do aplicativo. Cada pedido precisa chegar ao destino dentro do prazo definido por um algoritmo, sistema automático que acompanha o tempo e pressiona o entregador a se deslocar rapidamente.
Uma das experiências mais frustrantes deu origem ao poema conhecido em português como Homem com pressa. Um cliente havia informado o endereço incorreto, obrigando Wang a fazer vários deslocamentos antes de concluir a entrega.
Enquanto aguardava a abertura do sinal de trânsito, algumas frases surgiram em sua mente. O poema retratou a sensação de correr contra o tempo e passar diretamente de uma parada para a seguinte, quase sem perceber as mudanças ao redor.
Os versos ganharam visibilidade em 2022, depois que outro admirador de poesia os publicou na internet. A repercussão levou a obra de Wang para além das ruas percorridas diariamente em seu veículo elétrico.
Da escola interrompida às ruas de Kunshan
Wang nasceu em 1969, na província de Jiangsu, no leste da China. Ele interrompeu os estudos ainda durante a educação básica e passou por diferentes trabalhos para conseguir renda.
Antes de fazer entregas, trabalhou na construção civil, na retirada de areia, como vendedor ambulante e coletor de materiais descartados. Apesar da formação escolar incompleta, manteve o interesse pela leitura e costumava visitar bancas de livros usados e procurar jornais descartados.
Wang e a esposa acabaram se estabelecendo em Kunshan. O casal administrou uma pequena loja, economizou durante anos e financiou um apartamento, considerado uma conquista importante para a família.
Em 2019, ele soube que as entregas de refeições poderiam oferecer uma renda melhor e decidiu experimentar a atividade. Aos 50 anos, tornou se o entregador mais velho da unidade em que começou a trabalhar.
O reconhecimento literário
O The Business Standard, veículo de notícias que publicou a história de Wang, detalhou os pontos centrais do reconhecimento. A coletânea Voo baixo foi anunciada como uma das vencedoras em 15 de julho de 2026.
A obra recebeu o prêmio de poesia na nona edição do Prêmio de Literatura Lu Xun. A homenagem leva o nome de Lu Xun, escritor conhecido por retratar de maneira direta a sociedade chinesa do início do século passado.
Entregue a cada quatro anos, o prêmio reconhece trabalhos de diferentes gêneros, entre eles poesia, conto, novela, prosa, reportagem literária, crítica e tradução. A seleção colocou Wang entre autores vindos de diferentes ambientes profissionais e sociais.
Zhang Yiwu, professor de literatura chinesa da Universidade de Pequim, avaliou que a poesia do entregador permanece próxima da vida contemporânea. Para o professor, a obra também oferece espaço a um grupo pouco observado, formado por trabalhadores que ajudam a manter as cidades em funcionamento.
Por que continuar entregando
Após receber o prêmio, Wang afirmou que desejava subir novamente em seu veículo e retornar ao trabalho. Em vez de trocar as ruas por uma rotina dedicada apenas aos livros, ele pretende continuar fazendo entregas.
O escritor entende que sua inspiração surge justamente do contato com os pedidos, os clientes e os acontecimentos do caminho. Ele não se imagina trabalhando apenas como autor porque considera as entregas sua fonte direta de inspiração.
Essa decisão não transforma dificuldade em requisito para produzir arte. A rotina inclui pressão constante, prazos curtos e cobranças controladas pelo aplicativo. Wang apenas encontrou uma forma de registrar sentimentos e situações presentes em seu próprio cotidiano.
A coletânea também aproxima o leitor de uma categoria que ultrapassa 10 milhões de entregadores de refeições na China. As pessoas que aparecem nos poemas não são tratadas apenas como responsáveis pela velocidade do serviço, mas como trabalhadores que carregam preocupações, responsabilidades e histórias.
A conquista de Wang mostra como momentos aparentemente vazios, como a espera por um elevador ou por um cliente, podem ganhar outro significado. Ele utilizou esses intervalos para observar, escrever e construir a obra que lhe rendeu reconhecimento nacional.
Mesmo premiado, o entregador de 56 anos escolheu permanecer próximo da realidade que deu origem aos versos. Seu caminho une trabalho, leitura e criação sem esconder as dificuldades presentes nas ruas.
Você continuaria na mesma profissão depois de receber um prêmio desse tamanho? Compartilhe a história e deixe sua opinião nos comentários.
Fonte
The Business Standard
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

