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Estudante de 21 anos em Santa Catarina vasculha quase 880 mil estrelas, ressuscita pesquisa que ficou anos na gaveta e encontra 446 pistas escondidas na Via Láctea capazes de abrir uma nova janela para entender onde e como planetas podem se formar
Escrito por Ana Alice
Publicado em 31/08/2026 às 14:49
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Pesquisa liderada por estudante da UFSC retomou uma ideia criada em 2011 e encontrou centenas de sinais astronômicos em uma região pouco explorada da Via Láctea, abrindo novos caminhos para estudar sistemas planetários.
Uma ideia que começou a ser discutida em 2011, quando os dados necessários ainda nem estavam disponíveis, ganhou novo impulso dentro da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e terminou em 2026 com 446 fontes candidatas a abrigar discos de detritos ao redor de estrelas da Via Láctea.
O primeiro autor do trabalho é Pedro Esteves, estudante de Física da UFSC, que desenvolveu a pesquisa como projeto de Iniciação Científica sob orientação do professor Roberto K. Saito.
Publicado em 12 de junho de 2026 na revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society (MNRAS), o artigo analisou inicialmente informações de 879.556 fontes astronômicas em uma região particularmente difícil de estudar no plano da Via Láctea.
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As 446 descobertas, porém, precisam ser interpretadas corretamente.
Elas não representam 446 planetas novos já identificados.
São estrelas que apresentaram um excesso de emissão no infravermelho compatível com a possível presença de discos de detritos — estruturas de poeira produzidas principalmente por colisões entre pequenos corpos rochosos em sistemas planetários já formados.
Na prática, esses discos funcionam como pistas sobre a história e a evolução de outros sistemas semelhantes, em alguns aspectos, ao nosso.
Pesquisa da UFSC começou com quase 880 mil fontes astronômicas
O tamanho inicial do conjunto de dados ajuda a mostrar a dimensão do trabalho.
Os pesquisadores partiram de 879.556 fontes registradas no catálogo VIRAC2 em uma área do levantamento VVV conhecida como d077.
Depois, cruzaram informações de diferentes levantamentos astronômicos para eliminar associações duvidosas e selecionar objetos que tivessem dados adequados em diferentes comprimentos de onda.
O processo reduziu o universo inicial para 36.253 fontes com cobertura fotométrica uniforme.
A seleção seguinte separou 12.940 candidatas a estrelas da sequência principal.
Após novas exigências de qualidade dos dados, restaram 3.169 objetos com informações suficientes para a análise detalhada da distribuição espectral de energia.
Foi nesse grupo que apareceram as 446 fontes com excesso de emissão infravermelha.
Excesso de luz infravermelha pode revelar discos de detritos
Uma estrela emite determinada quantidade de energia em diferentes faixas do espectro.
Os astrônomos conseguem construir modelos para estimar como esse brilho deveria aparecer caso não existisse uma quantidade relevante de material ao redor dela.
Quando há poeira circundando a estrela, porém, parte da radiação é absorvida.
Essa poeira aquece e devolve energia principalmente na forma de radiação infravermelha.
Por isso, uma estrela que aparece mais brilhante no infravermelho do que o modelo prevê pode estar cercada por material circumestelar.
Foi justamente esse excesso que o grupo procurou.
No Sistema Solar, estruturas como o cinturão de asteroides e o cinturão de Kuiper ajudam a imaginar, em escala mais familiar, o tipo de material que pode permanecer ao redor de uma estrela depois das etapas iniciais de formação planetária.
Os discos de detritos estudados pelos astrônomos não são iguais aos discos primordiais ricos em gás nos quais os planetas começam a surgir.
Segundo o próprio artigo, eles são considerados estruturas de “segunda geração”, abastecidas principalmente pela poeira produzida em colisões entre planetesimais.
Região da Via Láctea escolhida costuma dificultar esse tipo de busca
Um dos diferenciais do trabalho está justamente no lugar onde os pesquisadores decidiram procurar.
Grande parte das pesquisas anteriores sobre discos de detritos privilegiou regiões menos congestionadas do céu.
O plano da Via Láctea oferece uma dificuldade diferente.
Há muitas estrelas concentradas na mesma direção, grande quantidade de poeira interestelar e forte extinção da luz, fatores capazes de confundir as observações e produzir falsos candidatos.
O artigo afirma que esses obstáculos fizeram com que regiões do plano galáctico permanecessem sub-representadas em levantamentos anteriores de discos de detritos.
A região analisada pelo grupo está diretamente sobre o plano da Galáxia e corresponde a aproximadamente um grau quadrado do céu.
Isso significa que as 446 candidatas foram encontradas em apenas uma pequena parte da área observada pelo levantamento VVV.
Dados do VVV, Gaia e Spitzer foram combinados
Para tentar atravessar esse “congestionamento” de estrelas e poeira, a equipe não dependeu de um único instrumento.
A pesquisa combinou informações do VVV e VIRAC2, obtidas no infravermelho próximo, com dados do DECam Plane Survey, do Gaia DR3 e do levantamento GLIMPSE, realizado com observações do telescópio espacial Spitzer.
O VVV, sigla para VISTA Variables in the Vía Láctea, utilizou o telescópio VISTA, de 4,1 metros, instalado no Observatório Paranal, do Observatório Europeu do Sul, no Chile.
A combinação permitiu acompanhar os objetos desde comprimentos de onda ópticos até o infravermelho médio.
Além disso, a base VVV/VVVX ofereceu aproximadamente 14 anos de observações, permitindo que os pesquisadores estudassem não apenas o brilho das estrelas, mas também como ele variava ao longo do tempo.
356 candidatas mostraram sinais de variabilidade
A análise temporal revelou outro resultado.
Entre as 446 fontes com excesso infravermelho, 356 ultrapassaram o limite adotado pelos pesquisadores para indicar variabilidade de brilho.
Depois de critérios adicionais de periodicidade e inspeção das curvas de luz, o grupo chegou a 171 fontes variáveis candidatas com possível comportamento periódico.
Essas alterações podem ter diferentes origens.
A própria pesquisa ressalta que a variação pode estar associada à rotação das estrelas, sistemas binários, eclipses, atividade estelar ou estruturas de poeira que passam temporariamente diante da estrela.
Por isso, nem mesmo a variabilidade confirma sozinha a existência de um disco.
Ela funciona como uma informação adicional para selecionar objetos que merecem observações futuras.
Ideia sobre discos de detritos surgiu em 2011
A história por trás da pesquisa começou cerca de 15 anos antes da publicação do artigo.
Segundo o relato apresentado pelo professor Roberto Saito, a ideia surgiu em 2011, quando ele conheceu Carolina Chavero, pesquisadora ligada ao Observatório Astronômico de Córdoba, na Argentina, cuja área de trabalho incluía discos de detritos.
Naquela época, Saito participava do levantamento VVV.
A proposta era combinar a experiência de Chavero com os dados do projeto para procurar esses sistemas em regiões pouco exploradas da Via Láctea.
Havia um problema: o VVV ainda estava no começo.
A quantidade e a extensão temporal dos dados necessárias para uma análise como a realizada posteriormente ainda não existiam.
A ideia acabou ficando guardada enquanto o levantamento continuava acumulando observações.
Por isso, os 15 anos citados entre a concepção e a publicação não representam 15 anos de análise contínua.
Trata-se do intervalo entre a ideia inicial, em 2011, e o artigo publicado em 2026.
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Ana Alice
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Pedro Esteves retomou projeto na UFSC em 2024
O projeto ganhou força em 2024, quando Pedro Esteves iniciou sua trajetória na Física da UFSC e procurou Roberto Saito com interesse em trabalhar com estrelas e sistemas planetários.
A disponibilidade de bases de dados muito maiores mudou o cenário.
Aquilo que em 2011 ainda não podia ser executado passou a ser tecnicamente possível.
Saito retomou contatos de sua experiência no VVV, e o trabalho cresceu até envolver pesquisadores de diferentes instituições e países.
O artigo tem autores ligados à UFSC, ao Instituto Federal Catarinense, à Universidad Nacional de Córdoba e ao CONICET, na Argentina, além de instituições no Chile, China, Alemanha e Vaticano.
Pedro aparece como primeiro autor, posição que normalmente identifica quem teve participação central na execução e redação do estudo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

