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Faxineira de hotel que voltou a estudar depois dos 40, encarou a EJA à noite enquanto trabalhava, passou para auxiliar de merendeira e, ainda concluindo Pedagogia, foi chamada em seleção e virou professora da rede municipal
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 08/08/2026 às 19:29
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Trajetória de Sevilha de Souza Teles reúne retorno aos estudos depois dos 40 anos, trabalho durante o dia, aulas noturnas e sucessivas mudanças profissionais dentro da educação, até uma oportunidade que transformou uma antiga meta de infância em uma nova etapa de carreira na rede municipal.
Depois de retomar os estudos quando já tinha mais de 40 anos, Sevilha de Souza Teles deixou a limpeza de um hotel e avançou, etapa por etapa, até conseguir uma oportunidade como professora na rede municipal de educação de Gaspar, em Santa Catarina.
Enquanto trabalhava durante o dia e frequentava a Educação de Jovens e Adultos no período noturno, ela recuperou etapas da escolarização, concluiu o ensino médio, ingressou na faculdade de Pedagogia e passou a ocupar diferentes funções dentro do ambiente escolar.
A mudança profissional, porém, começou longe da sala de aula, porque Sevilha havia se mudado com o marido do Amazonas para Gaspar e, ao chegar à cidade catarinense, encontrou na limpeza de um hotel uma forma de recomeçar a vida profissional.
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Mesmo exercendo uma atividade distante da docência, o novo contexto reacendeu um desejo que vinha da infância, levando-a a considerar novamente a possibilidade de estudar, concluir a formação interrompida e buscar uma carreira trabalhando diretamente com educação e crianças.
EJA abriu caminho para a retomada dos estudos
Para voltar à escola, Sevilha precisou primeiro resolver uma dificuldade prática, já que não conseguia comprovar formalmente toda a escolaridade cursada anteriormente e precisava descobrir em qual etapa poderia retomar a formação depois de tantos anos afastada das aulas.
A solução encontrada foi procurar a EJA e realizar uma avaliação de nivelamento, procedimento que permitiu definir seu ponto de retorno e abriu caminho para que ela ingressasse no sexto ano, conciliando novamente trabalho durante o dia e estudos à noite.
Segundo relato publicado pelo Jornal Metas, essa rotina fazia com que Sevilha permanecesse praticamente o dia inteiro fora de casa, pois iniciava o expediente pela manhã e só retornava depois das aulas, quando o relógio já se aproximava das 23 horas.
Naquele momento, os quatro filhos já estavam crescidos e haviam concluído seus próprios estudos, circunstância que coincidiu com a decisão de retomar uma trajetória escolar interrompida durante décadas e transformar o tempo disponível em uma nova oportunidade de formação.
Infância no Amazonas foi marcada por dificuldades para estudar
Muito antes da volta à escola na vida adulta, a relação de Sevilha com os estudos havia sido marcada por obstáculos, porque ela começou a trabalhar na roça ainda criança, no Amazonas, ajudando a família em uma rotina que dificultava a frequência regular às aulas.
O deslocamento até a escola também fazia parte dessas dificuldades e, conforme o próprio relato, havia situações em que o trajeto exigia cerca de 40 minutos remando em uma canoa, esforço que se somava às limitações financeiras enfrentadas pela família naquele período.
Além da distância, a situação econômica interferia diretamente na permanência dos filhos na escola, já que, em determinados momentos, os pais precisavam priorizar a obtenção de alimento para a família antes de conseguir manter uma rotina escolar contínua para as crianças.
Anos depois, casamento e maternidade passaram a ocupar o centro da vida de Sevilha, que teve quatro filhos e permaneceu durante longo período dedicada à família, antes de decidir com o marido mudar de região e iniciar uma nova etapa no Sul do país.
Da limpeza do hotel à merenda escolar
Já instalada em Gaspar, a experiência na faxina do hotel garantiu uma fonte de trabalho, enquanto o retorno aos estudos começou a modificar as possibilidades profissionais, aproximando Sevilha gradualmente do ambiente educacional em que pretendia construir uma carreira no futuro.
Durante essa fase, ela participou de um processo seletivo promovido pela Prefeitura de Gaspar para trabalhar como auxiliar de merendeira e, depois de ser aprovada e convocada, deixou definitivamente o emprego na limpeza do hotel para assumir a nova função.
A mudança não ocorreu por causa de uma grande diferença salarial, mas pelas condições de organização da jornada, pela possibilidade de ter finais de semana e feriados livres e, sobretudo, pelo tempo adicional que poderia ser destinado à continuidade dos estudos.
Ao entrar em uma unidade educacional, Sevilha também passou a trabalhar diariamente no mesmo ambiente em que desejava avançar profissionalmente, convivendo com crianças e profissionais da educação enquanto mantinha a formação necessária para buscar outras oportunidades dentro da rede municipal.
Pedagogia ampliou as oportunidades dentro da educação
Sem interromper a trajetória escolar, Sevilha concluiu a etapa cursada por meio da EJA, seguiu para o Ceja a fim de realizar o ensino médio e também passou pelo Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos, o Encceja.
Com a educação básica encaminhada, o passo seguinte foi o ingresso no curso superior de Pedagogia, formação iniciada quando ela já havia ultrapassado os 40 anos e continuava trabalhando enquanto avançava nos estudos voltados à área que pretendia exercer profissionalmente.
Em vez de abandonar o emprego para se dedicar exclusivamente à faculdade, ela manteve as duas atividades ao mesmo tempo, fazendo com que a formação acadêmica avançasse paralelamente à experiência prática adquirida nas unidades educacionais onde começou a trabalhar depois da mudança de carreira.
Foi justamente durante o período em que atuava como servente de merendeira que surgiu outra oportunidade, quando um processo seletivo abriu possibilidade de atuação como professora ainda sem a graduação concluída e Sevilha decidiu participar da seleção oferecida pela rede.
Experiência como auxiliar antecedeu a sala de aula
Antes de assumir diretamente uma turma, ela também participou de uma chamada emergencial para auxiliar de professora e trabalhou no CDI Sônia Gioconda, onde atuou no berçário durante alguns meses e ampliou o contato com atividades ligadas ao cotidiano pedagógico.
Essa experiência aproximou ainda mais a antiga trabalhadora da limpeza da função que buscava desde o retorno aos estudos, permitindo que o trabalho dentro da educação acompanhasse o avanço da formação e preparasse a passagem para uma responsabilidade maior dentro da unidade.
Quando recebeu a oportunidade de lecionar, Sevilha deixou a função de auxiliar e seguiu para o CDI Cachinhos de Ouro, também em Gaspar, onde passou pela primeira vez a ocupar a posição de responsável pela condução de uma turma.
A mudança representava justamente a profissão imaginada ainda na infância e passou a reunir, em uma mesma trajetória, anos de afastamento escolar, retomada pela EJA, trabalho durante os estudos, ingresso em Pedagogia e sucessivas oportunidades conquistadas dentro da educação municipal.
Primeira turma reuniu crianças de 5 e 6 anos
Na estreia como professora, Sevilha passou a trabalhar com crianças de 5 e 6 anos e, conforme seu relato, assumiu 25 alunos distribuídos pelos dois períodos, depois de já ter convivido com crianças nas unidades educacionais sem comandar diretamente uma sala.
A nova responsabilidade exigiu preparação constante, especialmente porque as perguntas feitas pelos alunos levavam Sevilha a pesquisar conteúdos e buscar respostas antes de retornar à turma, enquanto profissionais que atuavam como auxiliares colaboravam com a adaptação à rotina de professora.
Ao longo desse processo, o marido também aparece no relato como uma das pessoas que apoiaram a mudança profissional, desde a decisão inicial de procurar a EJA até as etapas posteriores que permitiram transformar estudo e trabalho em uma nova carreira.
Formação acompanhou cada mudança profissional
Observada em sequência, a trajetória profissional mostra como cada nova etapa de formação ampliou as possibilidades de atuação, fazendo com que a experiência na faxina desse lugar à merenda escolar, depois ao auxílio pedagógico e, posteriormente, ao trabalho diretamente em sala de aula.
A faxina foi substituída pela função de auxiliar de merendeira, a vivência na unidade educacional abriu caminho para atuar como auxiliar de professora e a graduação em Pedagogia continuou avançando enquanto Sevilha já começava a exercer a docência.
Mesmo depois dessas mudanças, o percurso manteve ligação direta com um ponto de partida marcado por trabalho na roça durante a infância, dificuldades para frequentar a escola, criação de quatro filhos, mudança do Norte para o Sul e recomeço profissional na limpeza.
Se uma trabalhadora consegue retomar os estudos depois dos 40 anos, conciliar emprego com aulas noturnas e avançar até assumir uma turma como professora, quantas outras trajetórias semelhantes podem estar começando agora dentro da educação de jovens e adultos?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

