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Fazenda flutuante mantém 40 vacas sobre o rio, produz 600 litros de leite por dia, usa robôs na ordenha e reaproveita restos de cervejarias, batatas e água da chuva
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 29/08/2026 às 23:21
Atualizado em 29/08/2026 às 23:22
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A Floating Farm, fazenda flutuante de Roterdã, mantém cerca de 40 vacas e produz aproximadamente 600 litros de leite por dia dentro da cidade.
Cerca de 40 vacas criadas sobre o rio Nieuwe Maas produzem aproximadamente 600 litros de leite por dia em pleno ambiente urbano de Roterdã, nos Países Baixos. Em operação desde 2019, a Floating Farm leva diferentes etapas da pecuária leiteira para uma estrutura flutuante, onde ordenha, alimentação dos animais, processamento e aproveitamento dos dejetos funcionam próximos dos consumidores.
A fazenda foi concebida para experimentar uma cadeia de alimentos menos dependente de longos deslocamentos entre campo e cidade. Parte dos insumos utilizados pelos animais vem da própria região urbana, enquanto leite e derivados são preparados no local e vendidos principalmente em Roterdã. O projeto também combina automação, reaproveitamento de água, energia solar e cultivo de vegetais.
Resíduos da cidade voltam para a cadeia como alimento das vacas
Um dos pilares da Floating Farm está em aproveitar materiais que ainda possuem valor nutricional, mas que poderiam deixar a cadeia de alimentos como resíduos. A criação recebe, por exemplo, cascas de batata provenientes de uma processadora local e bagaço gerado pelas cervejarias de Roterdã.
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Outras fontes incluem grama retirada de instalações esportivas e farelo produzido por moinhos de Schiedam. O projeto também experimentou o aproveitamento de pão e excedentes de frutas e verduras oriundos de restaurantes e cozinhas empresariais.
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A lógica é fazer a cidade participar da produção agropecuária não apenas como consumidora. Materiais gerados por atividades urbanas retornam como alimentação animal e ajudam a formar um ciclo no qual parte do que seria descartado ganha uma nova utilização.
Esse conceito de agricultura circular aparece em diferentes pontos da fazenda, inclusive depois que o alimento passa pelos animais.
Esterco deixa de ser apenas resíduo e ganha novos destinos
O piso onde ficam as vacas é percorrido por um sistema automatizado responsável por recolher os dejetos. Depois da coleta, o material segue para separação e processamento.
A fração sólida pode ser reaproveitada na fabricação de fertilizantes e vasos destinados a plantas, criando outro produto a partir da operação leiteira. O tratamento também busca reduzir o impacto associado ao manejo convencional do esterco.
Segundo os responsáveis pela Floating Farm, o processo adotado pode diminuir em cerca de 60% as emissões relacionadas ao manejo dos dejetos.
Assim, o ciclo não termina quando as vacas produzem leite. O projeto tenta aproveitar também aquilo que sobra da criação, integrando o esterco novamente a outras atividades produtivas.
Vacas procuram o robô quando precisam ser ordenhadas
A automação reduz a necessidade de conduzir todos os animais simultaneamente para uma ordenha em horário rígido. As vacas podem entrar voluntariamente em um robô de ordenha, que realiza o processo quando elas procuram o equipamento.
A tecnologia divide espaço com sistemas automatizados destinados ao manejo do estábulo. Em uma propriedade com área limitada e construída sobre a água, organizar alimentação, ordenha e limpeza exige integrar equipamentos a uma estrutura muito diferente de uma instalação rural convencional.
A Floating Farm mantém animais da raça Maas-Rijn-IJssel, distribuídos em um empreendimento com aproximadamente 2 mil m² de área construída.
A plataforma principal mede 27 metros de largura por 27 metros de comprimento e foi organizada verticalmente para acomodar funções diferentes sem ocupar grandes extensões de terreno urbano.
Três pavimentos concentram funções da fazenda
O aproveitamento vertical é uma das características centrais do projeto. A construção possui três níveis, permitindo separar criação, processamento e atividades relacionadas aos resíduos dentro da mesma instalação.
Parte da estrutura fica abaixo da linha da água e recebe inclusive uma função ligada aos produtos finais. Esse espaço é utilizado no processo de maturação dos queijos produzidos pela própria operação.
A proximidade entre as etapas diminui a necessidade de transportar o leite cru para uma indústria distante. Depois da ordenha, a matéria-prima pode seguir dentro da própria Floating Farm para transformação em outros alimentos.
Além do leite, são produzidos queijos, manteiga e iogurte, ampliando o valor obtido a partir da produção diária das vacas.
Chuva e painéis solares entram na operação
A água utilizada no empreendimento também faz parte da estratégia de aproveitamento de recursos disponíveis no próprio ambiente. A chuva é captada e passa por tratamento antes de ser destinada às atividades da propriedade.
Na geração elétrica, uma instalação flutuante próxima abriga painéis solares que fornecem parte da energia consumida pela fazenda. A ideia é combinar diferentes soluções em vez de depender de uma única tecnologia para sustentar todo o sistema.
A produção de alimentos ainda avançou além da criação leiteira. A estrutura recebeu experiências com agricultura vertical voltadas ao cultivo de ervas e microvegetais.
Em 2025, a expansão dessa frente foi anunciada com o objetivo de aumentar a quantidade de produtos frescos direcionados a restaurantes de Roterdã.
Furacão em Nova York ajudou a inspirar projeto na Holanda
A origem da Floating Farm está ligada a um problema observado longe dos Países Baixos. Minke e Peter van Wingerden acompanharam as dificuldades de abastecimento provocadas pelo furacão Sandy em Nova York, em 2012.
O episódio colocou em evidência a vulnerabilidade de cidades que dependem de alimentos transportados de áreas distantes. Interrupções na logística podem comprometer rapidamente a chegada de produtos quando grande parte da produção permanece fora dos centros urbanos.
Roterdã posteriormente se tornou o local escolhido para transformar essa preocupação em um projeto concreto. A forte relação da cidade com a água e sua exposição a inundações ajudaram a orientar a proposta.
Por ser flutuante, a estrutura acompanha as alterações no nível do rio, mantendo a produção em um ambiente onde a disponibilidade de terra é limitada.
Floating Farm reduz distância entre produção e consumidor
Levar a pecuária para dentro da cidade muda também a última etapa da cadeia. Boa parte dos produtos obtidos na fazenda permanece em Roterdã, diminuindo a distância necessária para chegar ao consumidor.
A produção diária de aproximadamente 600 litros abastece uma operação que não vende somente leite in natura. Ao processar derivados no próprio endereço, a Floating Farm concentra diferentes etapas que normalmente poderiam estar separadas por quilômetros.
A mesma cidade que fornece parte dos resíduos utilizados para alimentar os animais passa, depois, a consumir os produtos originados deles. O esterco encontra novos usos, a água da chuva retorna à operação e parte da energia vem de painéis instalados sobre a água.
O resultado é uma tentativa de aproximar produção e consumo sem reproduzir integralmente a estrutura tradicional de uma propriedade rural.
Fazenda flutuante funciona como laboratório para cidades com pouco espaço
A Floating Farm ainda enfrenta limitações relacionadas a custo e capacidade de produção. Com cerca de 40 vacas, não foi concebida para substituir grandes sistemas de pecuária ou transferir toda a produção de leite para áreas urbanas.
Seu papel é testar como diferentes tecnologias podem funcionar juntas em uma cidade: automação na ordenha, aproveitamento de resíduos, tratamento de dejetos, geração renovável, processamento no próprio local e agricultura vertical.
A experiência de Roterdã parte de uma questão cada vez mais presente em centros urbanos: enquanto a população se concentra nas cidades, grande parte dos alimentos continua chegando de áreas produtivas distantes.
Ao colocar uma fazenda diretamente sobre a água, a Floating Farm propõe outro caminho. Em vez de eliminar o campo, o projeto investiga quanto da produção pode ser aproximado dos consumidores e quantos recursos já gerados pela própria cidade podem voltar para o sistema antes de serem descartados.
Fonte
Compre Rural
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

