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Idosa de 77 anos encontra moedas de mais de 200 anos enterradas no próprio quintal no Pará, homens se passam por historiadores, entram no terreno com detector de metais e levam dezenas de peças, PF e Iphan entram no caso e ela acaba deixando a cidade após invasões, ameaças e tentativas de assalto em busca do suposto tesouro
Escrito por Geovane Souza
Publicado em 11/08/2026 às 16:13
Atualizado em 11/08/2026 às 16:14
Curiosidades
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Peças de cobre produzidas entre 1816 e 1841 estavam enterradas em um terreno de Colares, no Pará. O achado atraiu caçadores de tesouros, levou o Iphan a recuperar 69 moedas e transformou a rotina da proprietária, que acabou deixando sua casa por medo de novas invasões.
O que parecia uma descoberta histórica escondida havia décadas sob o quintal de uma casa em Colares, no Pará, acabou se transformando em caso de polícia. Em janeiro de 2021, moedas antigas começaram a aparecer no terreno pertencente a uma idosa de 77 anos, desencadeando uma corrida pelo que rapidamente ficou conhecido como Tesouro de Colares.
A descoberta ganhou dimensão depois que pessoas chegaram ao imóvel com um detector de metais. Segundo informações divulgadas pela Secretaria de Cultura do município na época, um homem teria se apresentado como professor de história, entrou no terreno acompanhado de outras pessoas e saiu levando dezenas de moedas. A prefeitura foi avisada por moradores e registrou ocorrência.
As imagens do material chamaram atenção imediatamente. Fotografias divulgadas pela Prefeitura de Colares mostravam grande quantidade de moedas cobertas pela oxidação típica do cobre, algumas reunidas dentro de um carrinho de mão. Uma delas trazia claramente a inscrição do ano de 1819.
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A história, porém, não terminou com a descoberta. A circulação das fotografias e a expectativa de que outras moedas permanecessem enterradas levaram desconhecidos ao imóvel. A família relatou invasões e tentativas de assalto, e a proprietária acabou deixando Colares para permanecer em segurança.
Homens chegaram com detector de metais e saíram do terreno levando dezenas de moedas antigas
O episódio que revelou a dimensão do achado aconteceu em 16 de janeiro de 2021. A movimentação no terreno chamou a atenção dos moradores e, quando as autoridades municipais tomaram conhecimento do ocorrido, parte das moedas já havia sido retirada.
O terreno foi então isolado pela prefeitura para impedir novas escavações sem controle. Além de registrar boletim de ocorrência na Polícia Civil, o município acionou o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, que deveria verificar a autenticidade do material e avaliar a importância arqueológica da área.
A localização ajudava a explicar por que tantas moedas poderiam estar concentradas naquele ponto. O imóvel fica próximo de uma área relacionada à antiga movimentação portuária da região. O próprio filho da proprietária contou posteriormente que, quando criança, já encontrava moedas no quintal durante brincadeiras, embora a família não soubesse exatamente a idade ou a importância das peças.
Análise do Iphan revelou que as moedas atravessavam três períodos da história brasileira
Quando especialistas examinaram o material, ficou claro que não se tratava simplesmente de moedas antigas perdidas recentemente. O relatório preliminar do Iphan identificou exemplares produzidos entre 1816 e 1841, intervalo que atravessa mudanças profundas na formação política do Brasil.
De acordo com o levantamento do instituto divulgado pelo UOL, todas as moedas analisadas eram de cobre. O primeiro conjunto correspondia ao período entre 1816 e 1822, quando o Brasil integrava o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Outro grupo era posterior à Independência, com peças entre 1822 e 1831.
Essas moedas dos dois primeiros grupos tinham relação com a Casa da Moeda do Rio de Janeiro. Um terceiro conjunto chamou ainda mais atenção dos pesquisadores, pois apresentava carimbos locais do Pará e foi associado ao período entre 1831 e 1841, durante a Regência.
O Iphan informou que não havia conseguido determinar a origem de fabricação desse terceiro tipo. A combinação de moedas de épocas distintas reforçou a necessidade de estudar não apenas os objetos, mas também o próprio terreno e o contexto em que eles permaneceram enterrados.
Das peças retiradas do quintal, 69 acabaram sob a guarda provisória do Iphan
Nem tudo que saiu do terreno permaneceu com quem participou das primeiras buscas. Depois da intervenção das autoridades, o Iphan conseguiu acesso a 69 moedas, mantidas naquele momento sob guarda provisória do instituto.
A vistoria também mudou a dimensão arqueológica do caso. Os técnicos concluíram preliminarmente que toda a área examinada tinha interesse para pesquisa arqueológica e que uma investigação mais específica seria necessária para compreender a origem da concentração de moedas.
Antes da confirmação oficial sobre a natureza arqueológica das peças, o caso chegou a despertar especulação no mercado de colecionadores. Em janeiro de 2021, um historiador e colecionador ouvido pela imprensa estimou que um exemplar raro de 1819 poderia alcançar entre R$ 15 mil e R$ 20 mil no mercado numismático. Naquele momento, havia inclusive relatos de anúncios de peças na internet.
Essa avaliação comercial, entretanto, perdeu sentido jurídico quando o Iphan enquadrou o conjunto como bem arqueológico. Nesse caso, não se trata de um tesouro que alguém possa simplesmente retirar da terra, guardar ou vender livremente.
O verdadeiro problema começou quando a notícia do tesouro se espalhou por Colares
Para a proprietária do imóvel, o achado não trouxe riqueza. Trouxe pessoas rondando sua casa e a expectativa de que ainda existisse uma fortuna enterrada no terreno.
Segundo relato do filho da idosa, Hernani Júnior, a situação ficou especialmente grave cerca de uma semana depois da descoberta. Um homem teria entrado no quintal à procura das moedas e avançado para dentro do imóvel depois de ser surpreendido pela moradora.
O filho afirmou que a mãe sofreu hematomas no rosto e na cabeça durante o episódio e que o invasor fugiu levando o celular dela. Depois disso, a família decidiu retirar tanto a proprietária, então com 77 anos, quanto sua irmã, de 85 anos, da casa. As duas foram levadas para Belém.
Assim, o quintal que escondia um conjunto arqueológico acabou obrigando sua proprietária a abandonar temporariamente a própria cidade. A repercussão havia criado uma situação na qual desconhecidos passaram a enxergar o terreno como local onde poderiam encontrar dinheiro enterrado.
A Polícia Federal entrou no caso enquanto o terreno passou a ser tratado como área de interesse arqueológico
A retirada das moedas não ficou restrita a uma ocorrência policial municipal. O caso chegou à Polícia Federal, acionada após o envolvimento do Iphan e diante da possibilidade de retirada e comercialização irregular de patrimônio arqueológico.
Na atualização divulgada em março de 2021, a investigação ainda estava em andamento e o relatório técnico final envolvia também o Ministério Público Federal. Reportagens posteriores daquele período relataram ainda que vendas realizadas pela internet entraram no radar da investigação.
Um ponto que costuma causar confusão nesse tipo de descoberta é a propriedade do terreno. Ser dono da casa onde um objeto arqueológico aparece não significa automaticamente ser proprietário do material retirado do solo.
Lei brasileira impede que moedas arqueológicas encontradas no terreno sejam tratadas como fortuna particular
A Lei Federal nº 3.924, de 26 de julho de 1961, estabelece regras específicas para descobertas arqueológicas. A legislação determina que achados fortuitos de interesse arqueológico, histórico ou numismático devem ser comunicados às autoridades responsáveis e prevê a proteção desses bens pelo poder público.
Foi justamente esse enquadramento que afastou a ideia de atribuir ao Tesouro de Colares uma cotação oficial em milhões de reais. Embora uma moeda rara possa ter valor para colecionadores, as peças reconhecidas como bens arqueológicos não podem ser tratadas como mercadoria comum.
O conjunto interessa principalmente pelo que pode revelar sobre a circulação de dinheiro e pessoas no litoral paraense durante o século XIX. As datas encontradas no mesmo terreno atravessam o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, a Independência, o Primeiro Reinado e o Período Regencial, além de alcançarem os anos da Cabanagem, revolta ocorrida no Pará entre 1835 e 1840.
O Tesouro de Colares acabou, portanto, contando duas histórias diferentes. Uma está enterrada no passado brasileiro e aparece nas moedas produzidas há cerca de dois séculos. A outra aconteceu em 2021, quando a descoberta transformou um quintal particular em área de interesse arqueológico e fez uma idosa deixar a própria casa para escapar da procura desenfreada por um suposto tesouro.
E você, o que faria se descobrisse dezenas de moedas com mais de 200 anos enterradas no quintal da sua casa? Deixe sua opinião nos comentários e diga se acredita que ainda podem existir outras peças históricas escondidas no terreno de Colares.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Geovane Souza.

