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O jogador do Palmeiras Ramón Sosa cresceu ajudando os pais agricultores no Paraguai e, mesmo com salário estimado em R$ 1,6 milhão por mês, não esqueceu suas raízes guaranis e continua visitando a família e sua cidade natal sempre que pode
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 11/08/2026 às 16:12
Atualizado em 11/08/2026 às 16:13
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Antes dos grandes estádios e dos contratos milionários, Ramón Sosa dividia a rotina entre o futebol e o trabalho de uma família que plantava milho e mandioca no interior do Paraguai. Anos depois, retornou a Maracaná e reencontrou crianças na escola onde estudou.
Ele voltou para casa.
Seis dias de folga depois de disputar uma Copa do Mundo pelo Paraguai poderiam levar Ramón Sosa a qualquer destino. Aos 26 anos, jogador do Palmeiras, com passagem pela Premier League e remuneração estimada em R$ 1,6 milhão por mês, o atacante escolheu outro caminho: voltou a Maracaná, no departamento de Canindeyú, onde cresceu em uma família de agricultores e ajudava os pais no trabalho do campo.
O retorno ganhou uma imagem difícil de separar de toda a trajetória. Sosa foi à escola onde estudou e onde hoje estuda sua irmã, conversou com as crianças e acabou sentado à mesa para dividir a merenda com os alunos. Era o mesmo jogador que poucas semanas antes estava nos Estados Unidos defendendo a seleção paraguaia no maior torneio de futebol do planeta.
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A cena poderia parecer apenas mais uma visita de um jogador famoso às próprias origens. No caso de Ramón Sosa, porém, existe uma história documentada muito antes dos contratos milionários, da Inglaterra e do Palmeiras. Em 2020, quando ele ainda atuava pelo modesto River Plate do Paraguai e mal era conhecido fora de seu país, já falava publicamente sobre a família, a agricultura e o sonho de ganhar dinheiro jogando futebol.
Antes dos milhões, havia milho, mandioca e trabalho na roça
Ramón Sosa Acosta nasceu em 31 de agosto de 1999 em Maracaná, no departamento de Canindeyú, uma região localizada a cerca de 250 a 260 quilômetros de Assunção. Filho de Fidelino Sosa e Virginia Acosta, ele cresceu longe da estrutura que encontraria anos depois nos grandes clubes do futebol internacional.
Em agosto de 2020, o jornal paraguaio La Nación apresentou Sosa como filho de agricultores e registrou o próprio jogador descrevendo a rotina da família. Todos trabalhavam na chacra, com plantações de milho e mandioca. O jovem atacante, então com 20 anos, dizia que seu sonho era conseguir ganhar o próprio dinheiro por meio do futebol.
A história não surgiu depois que ele ficou famoso. Seis anos antes de disputar a Copa do Mundo de 2026, Sosa já era apresentado pela imprensa de seu país como um rapaz de origem humilde, acostumado tanto ao trabalho agrícola quanto aos treinos. Naquele período, nem sequer tinha carro e contou ao La Nación que utilizava transporte coletivo para chegar às atividades do River Plate ou dependia da ajuda de companheiros.
O ge retomou essa trajetória em abril de 2026 e descreveu a família como trabalhadores da agricultura que viviam em um rancho simples. Segundo a publicação, Ramón também ajudou os pais nas tarefas durante a infância, enquanto começava a enxergar no futebol uma possibilidade de vida diferente daquela que conhecia no campo.
A antiga peça de madeira ajuda a medir a distância percorrida
Há um detalhe físico que torna a transformação ainda mais visível. Em 2021, o jornal paraguaio Extra, reproduzindo informações e imagens divulgadas pelo Portal Curuguaty, mostrou como era a antiga peça de Ramón Sosa na casa da família em Maracaná. As paredes eram de madeira pintada de azul, o piso não estava terminado e a instalação elétrica foi descrita como precária.
Naquele momento, a vida da família já começava a mudar. O mesmo relato mostrava que Fidelino Sosa e Virginia Acosta passaram a contar com uma residência renovada, construída com estrutura de alvenaria, novos cômodos e piso revestido. Era uma das primeiras consequências concretas de uma carreira que ainda estava muito distante dos valores que o atacante movimentaria alguns anos depois.
O contraste ajuda a entender por que a história de Ramón não começa no Palmeiras. Muito antes de posar com a camisa verde ou entrar em campo na Inglaterra, seu ponto de partida estava em uma comunidade rural do interior paraguaio, dentro de uma família que dependia do trabalho agrícola e em uma casa onde a simplicidade podia ser vista nas próprias paredes.
O pai pediu que ele não esquecesse a humildade, as raízes e o guarani
Quando Ramón começou a deixar Maracaná para perseguir o futebol profissional, o pai não lhe deu apenas conselhos sobre a carreira. Fidelino insistiu para que o filho não abandonasse aquilo que carregava do lugar onde havia crescido: a humildade, as raízes e o idioma guarani.
Em março de 2020, o Extra registrou Sosa explicando que preferia falar em guarani não por dificuldade com o espanhol, mas porque considerava o idioma parte de sua história. Segundo o jogador, utilizá-lo publicamente era uma forma de honrar os pais e as pessoas de sua região.
O detalhe ganha outro peso quando comparado com o que aconteceria seis anos depois. O retorno ao povoado após a Copa do Mundo não foi o surgimento repentino de uma ligação com as origens depois da fama. Esse vínculo aparecia nas entrevistas do jogador quando ele ainda dava os primeiros passos no futebol profissional e dependia de ônibus ou de carona para chegar aos treinamentos.
Da terceira divisão do Paraguai à Premier League em poucos anos
O primeiro salto ocorreu longe dos grandes clubes. Antes de aparecer no River Plate paraguaio, Ramón passou pelo Atlético Tembetary, que disputava a terceira divisão do país. Segundo levantamento publicado pelo ge, foram 33 partidas e nove gols nessa etapa da carreira.
Em 2020, ele foi emprestado ao River Plate-PAR, onde disputou 30 partidas e marcou quatro gols. O desempenho abriu a porta do Olimpia, um dos clubes mais tradicionais do Paraguai. Em apenas alguns anos, o jogador que vinha da terceira divisão começava a atravessar fronteiras.
Em 2022, mudou-se para a Argentina para defender o Gimnasia y Esgrima La Plata. No ano seguinte foi para o Talleres, onde ganhou projeção ainda maior. O Palmeiras registra 17 gols e 12 assistências do paraguaio durante sua passagem pela equipe de Córdoba.
A evolução chamou a atenção da Inglaterra. Em agosto de 2024, o Nottingham Forest contratou Sosa para disputar a Premier League. O clube inglês registra 23 partidas do atacante em todas as competições durante sua passagem, com três gols, incluindo seu primeiro gol no Campeonato Inglês diante do Brighton.
O caminho entre a terceira divisão paraguaia e uma das ligas mais ricas do mundo havia sido percorrido em aproximadamente cinco anos.
Palmeiras colocou cerca de R$ 80 milhões fixos na contratação
A experiência inglesa durou uma temporada. Em julho de 2025, Ramón Sosa retornou à América do Sul para entrar em outro patamar financeiro da carreira.
O Palmeiras anunciou oficialmente a contratação em 9 de julho de 2025. Sosa assinou vínculo por cinco temporadas, com validade até meados de 2030. O ge informou posteriormente que a operação envolveu € 12,5 milhões fixos, valor calculado naquele momento em aproximadamente R$ 80 milhões.
Na apresentação, o paraguaio levou o pai Fidelino à Academia de Futebol. A imagem dos dois juntos acrescentou outra camada à mudança: o homem que anos antes aconselhava o filho a não esquecer de onde tinha vindo agora acompanhava de perto sua chegada a um dos clubes de maior estrutura do continente.
O salário também passou a representar uma distância financeira difícil de imaginar quando Sosa falava sobre o desejo de simplesmente ganhar seu próprio dinheiro com o futebol. Em setembro de 2025, o Blog do Nicola, no R7, estimou sua remuneração no Palmeiras em R$ 1,6 milhão por mês, colocando-o ao lado de Paulinho e Piquerez entre os maiores vencimentos do elenco naquele levantamento.
O número não é uma informação salarial oficial divulgada pelo Palmeiras e, por isso, deve ser tratado como estimativa. Ainda assim, ajuda a dimensionar a transformação econômica: de uma família que trabalhava com milho e mandioca no interior do Paraguai para uma remuneração mensal estimada na casa do milhão de reais.
A Copa do Mundo colocou outro sonho no caminho
Sosa já fazia parte da seleção paraguaia havia anos. O Palmeiras registra convocações desde 2022 e sua participação na Copa América de 2024. Em 2026 veio a oportunidade de integrar o Paraguai na Copa do Mundo.
Sua participação individual em campo foi pequena, o que impede exageros sobre protagonismo no torneio. O peso da história está em outro ponto: o filho de agricultores de Maracaná havia alcançado uma Copa do Mundo.
O Paraguai passou da fase inicial, eliminou a Alemanha nos pênaltis na primeira rodada de mata-mata e chegou às oitavas de final. A campanha terminou em 4 de julho de 2026, quando a França venceu por 1 a 0, com gol de pênalti de Kylian Mbappé aos 70 minutos.
Terminada a competição, Ramón poderia olhar para frente. Em vez disso, por alguns dias decidiu olhar para trás.
Seis dias de folga e uma decisão: “quero ir ao meu povoado”
O próprio Palmeiras contou o que aconteceu depois. Sosa recebeu seis dias de descanso após a participação no Mundial e conversou com os pais. Disse que queria voltar para casa, ao seu povoado. A justificativa foi curta: “Lá sou muito feliz.”
Maracaná não apareceu apenas como cenário para fotografias com familiares. Ramón também voltou à Escola Básica nº 3255 Francisco López Rojas, instituição identificada pelo ge e por La Nación como a escola onde ele estudou e onde sua irmã frequenta as aulas.
Recebido pelas crianças, conversou com os alunos e acabou participando da merenda. Ao Palmeiras, contou que os próprios estudantes o convidaram para comer com eles e que depois soube que também tinham ficado felizes por dividir aquele momento com o jogador.
A imagem tem força justamente pela ausência de luxo. Não havia estádio de Premier League, centro de treinamento milionário ou apresentação com contrato até 2030. Havia uma escola simples, crianças, uma mesa e um jogador sentado no mesmo povoado onde começou a imaginar uma vida através do futebol.
O salário mudou, mas Maracaná continuou no caminho de volta
É tentador transformar trajetórias como a de Ramón Sosa em uma fórmula simples na qual pobreza aparece de um lado e riqueza do outro. A história documentada é mais interessante quando não precisa dessa simplificação.
O trabalho dos pais na agricultura, a casa simples, a antiga peça de madeira, o começo na terceira divisão, os ônibus para os treinamentos, a Argentina, a Premier League, os € 12,5 milhões investidos pelo Palmeiras e o salário estimado em R$ 1,6 milhão mostram uma mudança material gigantesca em poucos anos.
Mas existe uma linha que atravessa todas essas etapas. Em 2020, antes da fama internacional, Ramón dizia que falar guarani era uma maneira de honrar seus pais e seu povo. Em 2026, depois de chegar ao Mundial, teve seis dias livres e escolheu usá-los justamente para voltar a esse povo.
A carreira o levou da terra cultivada com milho e mandioca à terceira divisão, da Argentina à Premier League e da Inglaterra ao Palmeiras. Quando finalmente chegou a uma Copa do Mundo, porém, uma das primeiras viagens depois do torneio terminou no ponto onde tudo havia começado.
Não para mostrar o quanto estava distante de Maracaná.
Mas para sentar novamente entre as pessoas de lá.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

