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Isabelle Chagas Vilela Borges passou o mestrado comparando crânios e sequências de DNA de um bichinho de poucas dezenas de gramas até provar que ele vivia escondido há 1,78 milhão de anos em Macaé, Silva Jardim e Paracambi, e batizou a nova espécie de cuíca-de-três-listras-do-Rio de Janeiro
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 21/08/2026 às 18:51
Atualizado em 21/08/2026 às 18:52
Ciência e Tecnologia
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Pesquisadora da UFRJ investigou diferenças no crânio, dentes e DNA de cuícas da Mata Atlântica e ajudou a revelar a Monodelphis semilineata, espécie exclusiva do estado do Rio de Janeiro
Um animal de poucas dezenas de gramas, olhos diminutos e focinho pontudo passou tanto tempo confundido com parentes próximos que foi preciso colocar lado a lado crânios, dentes, características externas e sequências de DNA para perceber que havia algo diferente escondido nos fragmentos de Mata Atlântica do Rio de Janeiro.
Foi esse quebra-cabeça que acompanhou Isabelle Chagas Vilela Borges durante seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Conservação (PPG-CiAC) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
O resultado foi muito maior do que simplesmente separar exemplares de uma coleção científica: o trabalho ajudou a demonstrar que aqueles pequenos marsupiais pertenciam a uma espécie até então desconhecida pela ciência, a Monodelphis semilineata, hoje chamada de cuíca-de-três-listras-do-Rio de Janeiro.
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Segundo o PPG-CiAC/NUPEM-UFRJ, Isabelle realizou os estudos comparativos ao longo do mestrado ao lado de Carina Azevedo Oliveira Silva, sob orientação do professor Pablo Rodrigues Gonçalves. A pesquisa posteriormente deu origem ao artigo científico que formalizou a descrição da espécie.
O mestrado começou com uma pergunta: quantas espécies de cuícas realmente existiam?
A própria dissertação de Isabelle deixa clara a dimensão do problema que ela decidiu investigar.
Defendido em 28 de março de 2024, o trabalho recebeu o título “Quantas espécies de cuícas-de-três-listras há na Mata Atlântica? Revisão taxonômica de Monodelphis (Microdelphys) iheringi (Thomas, 1888)”.
O objetivo envolvia justamente revisar animais que vinham sendo identificados dentro de um mesmo grupo.
Na taxonomia, diferenças aparentemente pequenas podem mudar completamente a classificação de um organismo. Uma listra mais curta, por exemplo, dificilmente seria suficiente sozinha para declarar a existência de uma espécie nova.
Por isso, o trabalho avançou para características muito menos perceptíveis a olho nu.
Os pesquisadores compararam a anatomia dos crânios e da dentição, características externas dos exemplares e informações genéticas. Quando as diferentes linhas de evidência começaram a apontar na mesma direção, surgiu um cenário diferente daquele conhecido até então.
Parte dos animais atribuídos a espécies já descritas pertencia, na realidade, a uma linhagem própria.
DNA levou a história da pequena cuíca até cerca de 1,78 milhão de anos atrás
A análise genética permitiu ir além da aparência do animal.
A hipótese evolutiva apresentada pelos pesquisadores indica que a linhagem associada à nova espécie surgiu aproximadamente 1,78 milhão de anos atrás, durante o Pleistoceno.
Isso significa que o animal não apareceu recentemente na fauna fluminense. O que é recente é seu reconhecimento pela ciência.
Essa diferença é importante: descobrir uma espécie não significa necessariamente encontrar um organismo que nunca tenha sido visto por seres humanos. Em estudos taxonômicos, a descoberta pode ocorrer quando pesquisadores demonstram que exemplares anteriormente agrupados com outra espécie representam uma linhagem biologicamente distinta.
Foi justamente a combinação de evidências morfológicas e moleculares que permitiu separar a nova cuíca de parentes próximos.
O estudo que formalizou a descoberta foi assinado por Isabelle Chagas Vilela Borges, Carina Azevedo Oliveira Silva e Pablo Rodrigues Gonçalves e publicado no periódico internacional Journal of Mammalogy.
O artigo recebeu o DOI 10.1093/jmammal/gyag020.
Um detalhe nas costas ajudou a dar nome à nova espécie
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A nova cuíca recebeu o nome científico Monodelphis semilineata.
E o segundo nome guarda justamente uma das pistas visuais encontradas pelos pesquisadores.
Semilineata significa “meio-listrada”.
A cuíca apresenta três listras escuras nas costas, mas a faixa preta central é mais curta que a encontrada em parentes próximos: ela desaparece antes de alcançar o focinho.
Esse padrão, combinado às diferenças observadas no crânio e na dentição, ajudou os pesquisadores a distinguir a espécie de Monodelphis iheringi, uma parente próxima que pode inclusive ocorrer nas mesmas regiões.
O animal também chama atenção pelo tamanho.
De acordo com o NUPEM-UFRJ, a cuíca pesa apenas algumas dezenas de gramas, apresenta olhos pequenos e focinho pontudo e tem alimentação composta principalmente por insetos.
É um contraste curioso: um mamífero minúsculo exigiu uma investigação que atravessou anatomia, genética, taxonomia e milhões de anos de evolução para finalmente receber um nome próprio.
Macaé, Silva Jardim e Paracambi guardavam exemplares da espécie
Os registros conhecidos de Monodelphis semilineata estão no estado do Rio de Janeiro, incluindo localidades de Macaé, Silva Jardim e Paracambi.
Um dos exemplares mais importantes para a descrição científica veio de Mata da Fazenda, em Cabiúnas, Macaé.
É dali o holótipo — nome dado ao espécime utilizado como referência formal para a descrição de uma nova espécie.
O exemplar está depositado em coleção científica, permitindo que outros pesquisadores no futuro revisem características do animal, comparem novos indivíduos e testem as conclusões apresentadas no estudo.
A distribuição restrita torna a descoberta especialmente relevante.
Não estamos falando de um animal identificado pela primeira vez em uma floresta remota e praticamente inacessível. A espécie foi reconhecida em um dos estados mais urbanizados do Brasil e dentro de um dos biomas mais estudados do país.
É justamente aí que a história ganha outra dimensão: se um mamífero ainda podia permanecer taxonomicamente escondido na Mata Atlântica fluminense, o inventário da biodiversidade brasileira está longe de ser uma história encerrada.
A cuíca passou milhões de anos ali; a ciência é que ainda não sabia seu nome
Hoje doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biologia Evolutiva da UFRJ, Isabelle transformou aquela pergunta feita durante o mestrado em uma espécie formalmente reconhecida pela ciência.
A Monodelphis semilineata passa a integrar o catálogo de mamíferos conhecidos da Mata Atlântica e oferece uma nova peça para compreender como pequenos marsupiais se diversificaram no bioma ao longo do tempo.
Também deixa uma mensagem menos óbvia sobre descobertas científicas.
Nem sempre encontrar uma espécie nova exige entrar em uma região onde ninguém jamais esteve. Às vezes, a descoberta começa diante de exemplares que já estavam ao alcance dos pesquisadores — e depende de alguém perceber, ao comparar um crânio, um dente, uma listra e uma sequência genética, que dois animais aparentemente semelhantes não contam exatamente a mesma história evolutiva.
As informações sobre a trajetória de Isabelle, as características da espécie e o desenvolvimento da pesquisa foram divulgadas pelo PPG-CiAC/Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM-UFRJ). A descrição taxonômica foi publicada no Journal of Mammalogy, sob o DOI 10.1093/jmammal/gyag020.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

