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Mãe largou tudo para impedir que a filha abandonasse a escola por não ter com quem deixar o bebê, voltou a estudar ao lado dela pela EJA, levou a neta para as aulas e viu as duas concluírem o ensino médio, passarem juntas no vestibular, conseguirem bolsa de 50% e entrarem em Pedagogia
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 04/08/2026 às 23:34
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Mudança de cidade, retorno à escola e uma rotina dividida entre trabalho, maternidade e estudos transformaram a trajetória de uma família baiana, aproximando três gerações em torno da educação e abrindo um caminho inesperado até o ensino superior com apoio mútuo.
Adejane Silva Santos deixou a rotina que mantinha e se mudou para Teixeira de Freitas, no extremo sul da Bahia, ao descobrir que a filha cogitava abandonar a escola por não ter com quem deixar o bebê durante as aulas.
Da decisão de apoiar a jovem nasceu também uma oportunidade pessoal: em vez de permanecer apenas responsável pelos cuidados da neta, Adejane retomou a própria formação e ingressou na Educação de Jovens e Adultos oferecida pelo Serviço Social da Indústria.
Mãe e filha passaram a dividir o ensino médio, os horários de estudo e parte dos encontros presenciais, nos quais a criança também esteve presente, permitindo que a maternidade não se transformasse em motivo para uma nova interrupção escolar.
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Depois de concluírem juntas a educação básica, as duas fizeram vestibular, foram aprovadas, conquistaram bolsas de 50% e ingressaram em Pedagogia, convertendo uma situação de possível abandono em um projeto educacional compartilhado por três gerações.
Mãe e filha retomaram os estudos pela EJA
Relatada por Adejane à Federação das Indústrias do Estado da Bahia das Indústrias do Estado da Bahia, responsável pelo SESI Bahia, a trajetória reúne mudanças de cidade, pausas sucessivas na formação e uma retomada construída a partir da necessidade de apoiar a filha mais velha.
Quando contou sua história à instituição, ela tinha 39 anos e descreveu como as responsabilidades familiares haviam interrompido os estudos em diferentes momentos, embora o desejo de concluir a educação básica permanecesse presente mesmo longe da sala de aula.
Antes de chegar a Teixeira de Freitas, Adejane já carregava uma relação marcada por afastamentos da escola, pois começou a estudar mais tarde, casou-se cedo e teve a primeira filha aos 19 anos, assumindo responsabilidades que limitaram sua continuidade acadêmica.
Ainda assim, o retorno ganhou força quando a filha enfrentou uma dificuldade semelhante, já que a ausência de alguém para cuidar do bebê durante as aulas colocou em risco sua permanência na escola e exigiu uma reorganização familiar imediata.
Mudança para Teixeira de Freitas evitou abandono escolar
Ao saber que a jovem pensava em desistir, Adejane reorganizou a própria vida e se mudou para ajudá-la, assumindo parte dos cuidados com a neta enquanto também se aproximava de uma chance concreta de voltar a estudar.
Sobre esse momento, a mãe afirmou que havia “largado tudo” para ir a Teixeira de Freitas, expressão que sintetiza a mudança feita para apoiar a filha e, ao mesmo tempo, reconstruir uma trajetória educacional interrompida.
O apoio diário não se limitou ao cuidado com a criança, porque Adejane passou a acompanhar de perto a formação da filha e ingressou no mesmo percurso escolar, transformando a relação familiar em uma convivência também marcada por tarefas, aulas e metas acadêmicas.
Assim, os papéis tradicionais de mãe e filha ganharam outra dimensão: além do vínculo familiar, ambas se tornaram colegas no ensino médio, dividiram dificuldades e avançaram juntas em uma etapa que nenhuma das duas pretendia abandonar novamente.
Neta acompanhou parte da rotina escolar
Nos dias de encontros presenciais, realizados duas vezes por semana, a neta também fazia parte da rotina, acompanhando mãe e avó em algumas aulas e permitindo que a jovem seguisse estudando sem precisar escolher entre maternidade e permanência escolar.
A presença do bebê dentro desse arranjo familiar tornou possível a continuidade das duas estudantes, pois conciliou o cuidado com a criança e a participação nas atividades exigidas pela EJA sem afastar nenhuma delas da sala de aula.
Outro fator importante foi o formato híbrido do curso, que, segundo a FIEB, utiliza 80% da carga horária em atividades a distância e 20% em encontros presenciais, combinação que facilitou a organização entre trabalho, deslocamentos, estudos e cuidados familiares.
Com essa estrutura, Adejane conseguiu adaptar os horários e manter o vínculo com a formação, enquanto a filha encontrava condições para acompanhar as atividades sem abandonar o bebê, preservando uma rotina que dependia da cooperação entre as duas.
EJA do SESI reconheceu experiências dos estudantes
Além da flexibilidade, as estudantes receberam material didático próprio, acesso a uma plataforma virtual de aprendizagem e acompanhamento pedagógico, recursos que integravam o percurso educacional e permitiam organizar as atividades dentro e fora dos encontros presenciais.
O programa adota a Metodologia de Reconhecimento de Saberes, que considera conhecimentos e experiências acumulados ao longo da vida para estruturar o ensino, aspecto especialmente relevante para adultos que retornam à escola depois de interrupções prolongadas.
No caso de Adejane, essa abordagem dialogava com uma trajetória construída entre trabalho, maternidade e responsabilidades familiares, reconhecendo que o período longe do ensino formal não significava ausência de aprendizado, mas uma formação adquirida em outros espaços.
Em vez de apagar esse percurso, a EJA incorporava experiências anteriores ao processo educacional, ajudando a estudante a retomar os conteúdos escolares sem desconsiderar aquilo que já havia aprendido durante os anos dedicados à família e ao trabalho.
Exemplo da mãe alcançou a filha mais nova
Dentro de casa, a rotina acadêmica também alcançou a filha mais nova de Adejane, que tinha 10 anos quando a história foi divulgada e passou a estudar perto da mãe enquanto ela acompanhava aulas e atividades pelo computador.
Mesmo depois do trabalho, Adejane ligava o equipamento para cumprir as tarefas da faculdade, enquanto a menina se sentava ao lado com o próprio caderno, reproduzindo o hábito de estudo e acompanhando o esforço materno.
A criança chegou a preparar café durante esses momentos, gesto simples que mostrou como a retomada educacional ultrapassou a relação entre mãe e filha mais velha e passou a influenciar também a integrante mais nova da família.
Desse modo, a decisão de voltar à escola tornou-se referência dentro de casa, não por meio de discursos, mas pela convivência diária com uma mãe que conciliava responsabilidades, cansaço e estudo sem abandonar o objetivo de avançar.
Vestibular e bolsa de estudos ampliaram a trajetória
Depois de tantas interrupções, a conclusão conjunta do ensino médio representou o primeiro resultado concreto daquela reorganização, pois mãe e filha encerraram a etapa na EJA e decidiram prosseguir em direção ao ensino superior.
As duas se inscreveram no vestibular, foram aprovadas e receberam bolsas que cobriam metade do valor da graduação, ampliando uma trajetória que havia começado com o risco de abandono escolar e alcançado uma nova possibilidade profissional.
A escolha pela Pedagogia acrescentou outro significado ao percurso, já que ambas entraram em uma área diretamente ligada à educação depois de enfrentarem dificuldades para permanecer na escola e retomarem a formação em condições pouco convencionais.
Mais do que dar continuidade aos estudos, o curso abriu uma perspectiva de atuação profissional ligada ao ensino e ao desenvolvimento de outros alunos, aproximando a experiência pessoal das duas mulheres de uma futura atividade na área educacional.
Educação aproximou três gerações da família
Na rotina universitária, permaneceu a dinâmica de apoio construída durante a EJA, com Adejane conciliando trabalho e atividades acadêmicas, a filha mais velha dividindo a graduação e a mais nova acompanhando de perto os momentos de estudo em casa.
O percurso passou a reunir diferentes formas de cuidado: a mãe mudou de cidade para impedir que a filha abandonasse a escola, a jovem compartilhou com ela a retomada dos estudos, e as crianças participaram dessa transformação de maneiras distintas.
Enquanto a neta esteve presente em parte das aulas, a menina de 10 anos adotou o hábito de estudar perto da mãe, formando uma rede familiar na qual a educação deixou de ser um objetivo individual e passou a atravessar três gerações.
Quantas histórias familiares poderiam mudar se mais adultos encontrassem apoio para retomar os estudos, conciliar trabalho e cuidado com os filhos e transformar uma interrupção antiga em uma oportunidade compartilhada por diferentes gerações dentro da própria casa?
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

