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Renda sobe e desemprego recua entre jovens brasileiros, enquanto maior escolaridade melhora entrada no mercado de trabalho e avanço da IA cria novos desafios para quem começa a carreira
Escrito por Ana Alice
Publicado em 20/09/2026 às 23:18
Economia
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Mais escolaridade, renda em alta e desemprego perto das mínimas históricas ajudam a mudar a entrada dos jovens no mercado de trabalho, embora diferenças salariais e novos desafios tecnológicos ainda marquem essa trajetória.
Um estudo divulgado neste sábado (19) pela Folha mostra uma mudança importante na situação dos brasileiros de 18 a 29 anos: os jovens estão mais escolarizados, com renda maior e enfrentando uma das menores taxas de desemprego da série histórica iniciada em 2012.
O levantamento dos pesquisadores Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do FGV Ibre, usa dados do segundo trimestre de 2026 da Pnad Contínua, do IBGE. A renda média mensal dos jovens chegou a R$ 2.593, o segundo maior valor já registrado para essa faixa etária.
Os números aparecem em um momento de melhora mais ampla do mercado de trabalho brasileiro. Mesmo assim, os jovens continuam recebendo menos e enfrentando uma taxa de desemprego superior à observada entre profissionais de 30 a 59 anos.
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A pesquisa também acrescenta um elemento que vem ganhando espaço no debate sobre emprego em 2026: a inteligência artificial. Estudos recentes do próprio FGV Ibre apontam que trabalhadores mais jovens estão entre os grupos mais expostos às mudanças provocadas pela IA generativa.
Renda dos jovens alcança um dos maiores níveis da série
O avanço recente da renda não eliminou a distância entre gerações.
No segundo trimestre de 2026, os trabalhadores de 18 a 29 anos receberam, em média, R$ 2.593 por mês, valor inferior apenas ao registrado nos três primeiros meses do próprio ano.
Entre profissionais de 30 a 59 anos, o rendimento médio chegava a R$ 4.167.
Na comparação, os jovens recebiam 37,8% menos.
A diferença também aparece diante da média geral do país, de R$ 3.738: nesse caso, o rendimento dos trabalhadores mais jovens era 30,6% inferior.
Mais escolaridade ajuda a elevar os rendimentos
Parte dessa recuperação passa por uma transformação que acontece antes mesmo do primeiro emprego: os jovens brasileiros estão permanecendo mais tempo na escola e chegando ao mercado com níveis maiores de formação.
Em 2012, apenas 11% das pessoas entre 18 e 29 anos tinham ensino superior completo.
No segundo trimestre de 2026, essa parcela havia subido para 16,8%.
No sentido contrário, caiu fortemente a proporção de jovens sem instrução ou com apenas o ensino fundamental incompleto, passando de 17,6% para 5,6%.
O efeito dessa mudança pode ser estimado em dinheiro.
Segundo Paulo Peruchetti, se a estrutura educacional dos jovens tivesse permanecido igual à observada em 2012, a renda média atual do grupo seria de aproximadamente R$ 2.381 mensais.
Isso representa cerca de 8% menos do que os R$ 2.593 efetivamente registrados.
A educação, portanto, não elimina as diferenças entre gerações, mas ajuda a impedir que elas sejam ainda maiores.
O próprio pesquisador destaca que a melhora educacional também favoreceu trabalhadores mais velhos, embora tenha um peso especial para quem ainda está tentando conquistar espaço profissional e acumular experiência.
Formação não elimina as dificuldades para conseguir emprego
Essa transformação aparece em trajetórias como a de Emily Carla, de 20 anos.
Depois de estudar em escolas públicas de bairros periféricos, ela passou a procurar cursos e projetos de formação ainda no ensino médio até conseguir uma bolsa integral para cursar jornalismo em uma faculdade particular.
O caminho até uma oportunidade profissional, no entanto, veio acompanhado de recusas.
Emily relatou que algumas vagas se tornavam inviáveis porque estudava em período integral, enquanto outras exigiam um nível de escolaridade que ela ainda não havia alcançado.
“Precisei lidar com vários ‘nãos’ até conseguir uma oportunidade”, afirmou.
Os números de desemprego ajudam a explicar por que experiências assim continuam comuns.
No segundo trimestre de 2026, 9,2% da população de 18 a 29 anos estava desempregada.
Foi a segunda menor taxa de toda a série iniciada em 2012, superada apenas pelos 8,8% registrados nos três últimos meses de 2025.
Mesmo perto da mínima histórica, a diferença entre as idades continua grande.
Entre trabalhadores de 30 a 59 anos, o desemprego estava em 3,8% naquele mesmo período.
A taxa dos jovens, portanto, era mais que duas vezes maior.
Informalidade ainda pesa no mercado de trabalho jovem
Outro obstáculo aparece depois que o emprego é encontrado.
A informalidade atingia 37,4% dos trabalhadores entre 18 e 29 anos no segundo trimestre de 2026.
O percentual era igual à média nacional, mas superior aos 34,8% registrados entre profissionais de 30 a 59 anos.
A combinação entre menor experiência e presença elevada em trabalhos informais ajuda a explicar parte da diferença salarial.
Segundo o levantamento do FGV Ibre, algumas das ocupações que mais empregam jovens estão em atividades de remuneração mais baixa.
Balconistas e vendedores de lojas somavam cerca de 1,7 milhão de trabalhadores entre 18 e 29 anos, equivalentes a 6,6% do grupo.
Escriturários gerais representavam outros 1,5 milhão, ou 6,1%, enquanto trabalhadores elementares da construção de edifícios chegavam a aproximadamente 617,8 mil, ou 2,5%.
Inteligência artificial muda a porta de entrada dos jovens
Há ainda uma transformação mais recente entrando nessa equação.
A inteligência artificial começa a alterar justamente parte das atividades usadas como porta de entrada para quem ainda está construindo experiência profissional.
Um estudo conduzido pelo pesquisador Daniel Duque, também do FGV Ibre, encontrou sinais de redução na probabilidade de emprego e na renda entre jovens inseridos em profissões mais expostas à inteligência artificial generativa.
A análise compara trabalhadores com características semelhantes antes e depois da popularização dessas ferramentas e recomenda cautela porque os dados disponíveis ainda cobrem um período relativamente curto.
A questão vai além de simplesmente perguntar se a IA vai “tirar empregos”.
Pesquisas do próprio FGV Ibre mostram que quase 30 milhões de trabalhadores brasileiros estavam, no terceiro trimestre de 2025, em ocupações com algum grau de exposição à IA generativa.
Dependendo da atividade, a tecnologia pode substituir determinadas tarefas ou funcionar como ferramenta complementar ao profissional.
Para os jovens, esse processo chama atenção porque muitas funções iniciais envolvem justamente tarefas mais padronizadas, usadas durante décadas como uma espécie de primeiro degrau profissional.
Quanto mais essas atividades mudam, maior tende a ser a importância de qualificação, adaptação e conhecimento de novas ferramentas.
Assista o vídeo
Cursos e qualificação ganham espaço no começo da carreira
Maria Rita Meira, de 22 anos, percebeu essa transformação enquanto estudava publicidade e propaganda.
Em conversas com colegas, ela notou uma redução na oferta de algumas vagas de nível júnior.
Depois de passar por experiências em outros setores, conseguiu seu primeiro emprego em uma agência e passou a apostar também em cursos para ampliar sua formação.
Outra trajetória apresentada no levantamento é a de Thaina Silva, de 25 anos.
Após deixar o trabalho como cuidadora de idosos durante uma gravidez de risco, ela começou a vender alimentos em casa.
Cursos de cozinha e finanças contribuíram para que avançasse na abertura e formalização de uma lanchonete, além de estimular a busca por novas qualificações.
Esses casos ajudam a colocar os números em perspectiva.
O jovem brasileiro chega ao mercado com escolaridade maior e encontra indicadores de emprego melhores do que os observados em diversos momentos desde 2012.
Ao mesmo tempo, continua mais exposto ao desemprego, à informalidade e aos salários menores quando comparado a trabalhadores mais experientes.
A mudança tecnológica acrescenta um novo elemento a esse processo.
Se durante anos a principal dificuldade era entrar no mercado e acumular experiência, agora também passa a importar quais tarefas permanecerão como porta de entrada e que conhecimentos serão exigidos de quem estiver começando uma carreira.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

