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Menino chegou aos EUA aos 12 anos sem falar inglês, foi morar em apartamento de cerca de 39 m² onde viviam nove familiares, lavou pratos e chegou a trabalhar até 18 horas por dia para pagar os estudos, até conquistar vaga em Medicina na UC Davis em um programa acelerado de apenas 3 anos
Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 10/08/2026 às 00:05
Atualizado em 10/08/2026 às 00:06
Curiosidades
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Trajetória marcada por imigração, barreiras linguísticas, trabalho intenso e dificuldades financeiras revela como um adolescente recém-chegado aos Estados Unidos percorreu etapas improváveis até alcançar uma das formações mais exigentes do país, passando por experiências que transformaram sua relação com estudo, trabalho e saúde.
Edgar Velázquez tinha 12 anos quando deixou o México para reencontrar os pais nos Estados Unidos sem conseguir se comunicar em inglês.
Em San Francisco, passou a dividir com outros oito familiares um apartamento de apenas 418 pés quadrados, equivalente a cerca de 39 metros quadrados, enquanto tentava se adaptar à escola e a uma rotina completamente diferente.
Mais tarde, já no ensino superior, o trabalho passou a ocupar boa parte de seus dias.
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Lavando pratos em restaurantes, chegou a acumular jornadas de até 18 horas por dia em cozinhas para conseguir pagar os estudos, antes de conquistar uma vaga na Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em Davis, em um programa intensivo com duração de três anos.
Documentada pela própria UC Davis, a trajetória reúne dificuldades financeiras, barreiras linguísticas e uma situação migratória complexa que acompanharam o estudante desde a infância.
Nascido perto de Lagos de Moreno, no estado mexicano de Jalisco, Edgar viu a situação econômica da família mudar depois que o pequeno negócio de construção mantido pelo pai entrou em dificuldades e acabou fechando.
Da infância no México à chegada aos Estados Unidos
Em busca de trabalho, os pais seguiram primeiro para San Francisco, enquanto os filhos permaneceram no México por algum tempo.
Duas irmãs também fizeram posteriormente a viagem, até chegar a vez de Edgar deixar o país.
Aos 12 anos, ele atravessou a fronteira e finalmente conseguiu se reunir à família.
O reencontro, porém, trouxe uma nova realidade: nove pessoas compartilhavam um pequeno apartamento no distrito de Tenderloin, em San Francisco, com pouco espaço disponível para as atividades cotidianas.
Encontrar um lugar tranquilo para estudar tornou-se mais um desafio dentro de casa.
Em alguns momentos, Edgar precisava fazer tarefas escolares no banheiro da residência, onde conseguia se afastar da movimentação do apartamento e se concentrar por algum tempo.
Aprender inglês virou parte da rotina escolar
Fora de casa, a dificuldade mais imediata era o idioma.
Após alguns meses em uma escola de ensino fundamental e aulas durante o verão, Edgar ingressou no ensino médio praticamente sem falar inglês, conseguindo no primeiro dia apenas se apresentar e informar à turma que ainda não dominava a língua.
O aprendizado passou a acontecer também durante os deslocamentos cotidianos.
No caminho para a escola, ele tentava interpretar palavras escritas em outdoors e placas; nos fins de semana, estudava em uma biblioteca pública ao lado das irmãs.
Por depender menos do domínio do idioma, a matemática inicialmente oferecia menos dificuldades.
Ao longo dos anos seguintes, porém, foi o interesse pelas ciências que ganhou espaço e começou a aproximá-lo de possibilidades profissionais que até então pareciam distantes.
Perto do fim do ensino médio, uma professora indicou Edgar para participar de um programa de pesquisa de verão ligado à Universidade da Califórnia em San Francisco.
A experiência colocou o adolescente em contato mais próximo com pesquisadores e ampliou sua percepção sobre uma possível carreira científica.
Ao mesmo tempo, os problemas sociais e de saúde observados no bairro onde vivia passaram a fazer parte de seus interesses.
Dessa combinação entre ciência e contato com comunidades que enfrentavam dificuldades de acesso aos serviços médicos surgiu uma aproximação cada vez maior com a Medicina.
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Trabalho em restaurantes ajudou a financiar os estudos
O desempenho escolar permitiu que Edgar apresentasse candidatura a cerca de 20 universidades e fosse aceito em quase todas.
Apesar das aprovações, sua condição de estudante sem documentação migratória regular restringia o acesso a determinadas formas de auxílio financeiro, bolsas e empregos disponíveis para outros alunos.
Para continuar estudando, foi necessário encontrar outra fonte de renda.
Seguindo um caminho profissional que o próprio pai já havia percorrido, Edgar começou a lavar pratos em restaurantes enquanto frequentava a San Francisco State University.
Conciliar a graduação com o trabalho logo se transformou em uma rotina exigente.
De acordo com a UC Davis, houve períodos em que Edgar chegou a trabalhar até 18 horas por dia em diferentes cozinhas, o que tornava mais difícil permanecer acordado nas aulas e encontrar tempo para revisar o conteúdo acadêmico.
Mesmo sob essa carga de trabalho, ele reservava parte da rotina para atuar voluntariamente como intérprete em clínicas comunitárias.
O contato com pacientes permitia utilizar espanhol e inglês enquanto conhecia de perto ambientes relacionados à área profissional que pretendia seguir.
Dificuldades acadêmicas e mudanças na trajetória
Nem todo o percurso avançou de maneira contínua.
Edgar encontrou dificuldades em disciplinas preparatórias ao mesmo tempo em que a família enfrentava o diagnóstico de câncer da mãe, circunstâncias que contribuíram para uma interrupção temporária dos estudos.
Quando retornou à universidade, reorganizou a rotina acadêmica e conseguiu melhorar o desempenho.
Nesse período, novas possibilidades profissionais surgiram depois que passou a ser beneficiário do programa conhecido como DACA, criado para conceder proteção temporária contra deportação e autorização de trabalho a determinados imigrantes que chegaram ainda jovens aos Estados Unidos.
Uma dessas mudanças carregava um significado particular dentro de sua trajetória.
Depois de enfrentar dificuldades em uma disciplina de preparação para química, Edgar recebeu a oportunidade de ajudar no ensino da mesma matéria, deixando parte da rotina nas cozinhas para atuar dentro do ambiente acadêmico.
Após seis anos de estudos, concluiu a graduação na San Francisco State University.
A formação universitária, no entanto, não encerrou seu objetivo de entrar em Medicina, e o contato com profissionais da área continuou aproximando o estudante da prática clínica.
Vaga na Escola de Medicina da UC Davis
Três anos depois da graduação, Edgar recebeu a aprovação para estudar na Escola de Medicina da UC Davis.
Junto com a vaga veio a seleção para o ACE-PC, sigla de Accelerated Competency-based Education in Primary Care, programa intensivo de formação médica estruturado para ser concluído em três anos.
Voltado a estudantes interessados em atenção primária, o modelo concentra a formação em um período menor que o percurso tradicional de quatro anos das escolas médicas americanas.
Para Edgar, a seleção também significava entrar em um programa direcionado ao atendimento de comunidades e pacientes em áreas pelas quais já havia demonstrado interesse.
Durante a formação, passou a participar de atividades relacionadas a psiquiatria, neurociência e farmacologia, além de acompanhar pacientes por meio da parceria do curso com unidades de atendimento de saúde na Califórnia.
Dessa forma, a experiência acadêmica se aproximava cada vez mais da prática clínica buscada desde os primeiros contatos com a área.
Dos turnos nas cozinhas à formação médica
Entre a chegada aos Estados Unidos e a entrada na Escola de Medicina, o percurso foi construído em várias etapas.
Houve a adaptação a um país cujo idioma não conhecia, a vida de nove pessoas em menos de 40 metros quadrados, os estudos em espaços improvisados, o trabalho lavando pratos, jornadas que chegaram a 18 horas e uma graduação concluída enquanto precisava contribuir para o próprio sustento.
A vaga na UC Davis colocou Edgar em um programa alinhado ao objetivo declarado de trabalhar com atenção primária e atender comunidades que enfrentam dificuldades semelhantes às que ele conheceu durante a juventude.
Quantos estudantes poderiam avançar por caminhos semelhantes se obstáculos financeiros e linguísticos não transformassem o acesso à universidade em uma jornada tão longa?
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Alisson Ficher.

