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Nem aviões nem helicópteros: pastor espanhol com 2 mil ovelhas afirma que rebanhos limpam os montes melhor do que 100 pessoas e podem reduzir o risco de grandes incêndios
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 10/08/2026 às 21:53
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Pastor espanhol afirma que a presença permanente de ovelhas, cabras e vacas reduz o acúmulo de vegetação que alimenta as chamas e defende que incentivar a pecuária extensiva pode ser uma estratégia complementar na prevenção de incêndios florestais.
A prevenção dos incêndios florestais costuma ser associada a aeronaves de combate ao fogo, brigadas especializadas e máquinas de limpeza. Para um pastor espanhol que passa os dias conduzindo um rebanho pelos montes da província de Guadalajara, existe uma ferramenta muito mais antiga — e que, segundo ele, continua sendo subestimada.
Jesús Solá, que cria cerca de duas mil ovelhas, acredita que a pecuária extensiva desempenha um papel decisivo na redução do material vegetal que serve de combustível para os incêndios. A declaração foi feita durante participação no podcast espanhol Morir de Éxito e repercutida pelo portal Noticias Trabajo, que destacou sua defesa da manutenção dos rebanhos como parte da estratégia de prevenção.
Rebanhos podem limpar áreas maiores do que grandes equipes
Ao comentar o avanço dos incêndios registrados na Espanha durante o verão europeu, Jesús Solá argumentou que um rebanho consegue realizar um trabalho contínuo de limpeza impossível de ser reproduzido apenas com mão de obra humana.
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“Um rebanho de ovelhas, cabras ou vacas limpa muito mais do que 100 pessoas. Qual é o custo dessas 100 pessoas limpando um monte?”, questionou o pastor, segundo o Noticias Trabajo.
Na avaliação dele, parte dos recursos públicos destinados às operações de limpeza poderia ser direcionada ao incentivo da criação de animais em áreas rurais, permitindo que esse trabalho ocorresse durante todo o ano.
Não é uma discussão nova na gestão ambiental europeia. Nos últimos anos, especialistas e administradores de diferentes países voltaram a analisar o chamado “pastoreio dirigido” como ferramenta complementar de manejo da vegetação, especialmente em regiões sujeitas a incêndios recorrentes.
Como os animais ajudam a reduzir o risco de incêndios
O princípio é simples. Enquanto pastam, ovelhas, cabras e bovinos consomem gramíneas, arbustos e outras plantas que, durante os períodos de seca, podem transformar-se em combustível para incêndios de grandes proporções.
Essa remoção constante da vegetação diminui a quantidade de material inflamável espalhado pelo terreno e pode reduzir tanto a velocidade quanto a intensidade da propagação das chamas.
Segundo Jesús, essa realidade era mais evidente quando ele era criança, período em que havia muito mais rebanhos espalhados pelas aldeias espanholas.
A relação entre abandono rural e aumento do risco de incêndios vem sendo observada em diversas regiões do sul da Europa. Com menos atividade agropecuária, a vegetação cresce sem manejo por longos períodos, aumentando a carga de combustível disponível quando chegam os meses mais quentes.
Duas mil ovelhas percorrem diariamente os montes de Tortuera
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Jesús Solá mantém, junto com a esposa, aproximadamente duas mil ovelhas que circulam pelos montes de Tortuera, pequena localidade da província de Guadalajara.
Segundo ele, a presença diária dos animais impede que a vegetação se acumule em excesso e torna mais difícil a formação de incêndios de grandes dimensões.
A vila possui cerca de cem habitantes e está entre as poucas localidades da região que ainda mantêm um número significativo de rebanhos em atividade.
Falta de novos pastores preocupa o setor
Apesar dos benefícios que atribui à pecuária extensiva, Jesús afirma que o futuro da atividade preocupa.
A rotina exige dedicação permanente. Não existem fins de semana, feriados ou horários fixos.
“O gado não tem relógio. Trabalhamos com o sol, desde que nasce até que se põe”, afirmou durante a entrevista.
Na época dos partos, o trabalho pode continuar durante toda a noite para acompanhar os animais e prestar os cuidados necessários.
Essa realidade, segundo o pastor, afasta muitos jovens da profissão e acelera o abandono das áreas rurais, justamente em um momento em que diferentes países discutem formas de reduzir os impactos dos incêndios florestais.
O custo da prevenção versus o custo do combate
Um dos argumentos centrais de Jesús Solá é econômico. Ao comparar um rebanho com uma equipe de cem trabalhadores, ele questiona quanto custa mobilizar pessoas para limpar manualmente os montes e sugere que parte desses recursos poderia ser direcionada ao incentivo da pecuária extensiva. Na visão do pastor, manter animais pastando durante todo o ano pode representar uma forma contínua de manejo da vegetação, reduzindo a necessidade de intervenções periódicas mais caras.
A experiência de Tortuera como exemplo
O pastor usa a própria cidade como argumento. Tortuera, na província de Guadalajara, possui cerca de 100 habitantes e ainda mantém um número expressivo de rebanhos. Segundo Jesús, justamente por causa da presença constante das ovelhas, a vegetação não se acumula da mesma forma que em outras regiões, tornando menos provável a ocorrência de incêndios de grandes proporções.
A proposta vai além da produção de alimentos
Durante a entrevista, Jesús defende que a pecuária extensiva não deve ser vista apenas como uma atividade voltada à produção de carne, leite ou lã. Para ele, os rebanhos também prestam um serviço ambiental permanente ao controlar naturalmente o crescimento da vegetação, reduzindo a quantidade de material que pode alimentar incêndios durante os períodos mais secos do ano.
Um modelo que depende de políticas públicas
Outro ponto levantado pelo pastor é a necessidade de rever a destinação dos incentivos públicos. Em vez de concentrar investimentos apenas em ações de limpeza após o crescimento da vegetação, ele argumenta que parte desses recursos poderia estimular produtores a manter rebanhos ativos nas áreas rurais, criando uma forma permanente de manejo da paisagem.
A rotina segue o ritmo dos animais
Jesús também descreve como funciona o cotidiano de quem vive da pecuária extensiva. Segundo ele, a atividade não segue horários convencionais. Durante a época de parição, por exemplo, é comum que o trabalho continue durante a noite para acompanhar os nascimentos e garantir o bem-estar das ovelhas. “O gado não tem relógio. Trabalhamos com o sol”, resume o pastor ao explicar por que a profissão exige dedicação diária e acaba afastando muitos jovens do campo.
Por que o retorno dos rebanhos às áreas rurais voltou ao centro do debate sobre a prevenção de incêndios florestais na Europa
O debate sobre prevenção de incêndios tende a ganhar ainda mais espaço diante do aumento dos eventos extremos registrados em diferentes regiões da Europa. Ao lado de investimentos em tecnologia, monitoramento e combate aéreo, cresce o interesse por estratégias de manejo da paisagem que atuem antes do início das chamas. Nesse cenário, a pecuária extensiva volta a ser analisada não apenas como atividade econômica, mas também como uma possível aliada na redução do risco de grandes incêndios.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

