SC
9 min de leitura
Pai chegou da China sem falar português, trabalhou em pastelaria e prosperou com produtos de R$ 1,99; aos 19 anos, o filho abriu uma construtora que já entregou 957 unidades e prepara R$ 2,3 bilhões no litoral catarinense
Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 05/08/2026 às 19:18
Atualizado em 05/08/2026 às 19:19
Curiosidades
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
A trajetória da família Kan começou longe dos edifícios de alto padrão de Itajaí, Navegantes e Balneário Camboriú. Carlos Kan chegou jovem ao Brasil, passou por pastelaria, restaurante e pequenos negócios até encontrar espaço na importação de mercadorias baratas. Décadas depois, o filho Charles transformou a experiência comercial da família em uma construtora que afirma ter entregado 15 empreendimentos e 170 mil metros quadrados.
A virada não começou no concreto.
Começou com produtos vendidos por R$ 1,99, margens apertadas, mercadorias importadas e a necessidade de controlar cada etapa de uma operação comercial que dependia de preço, escala e logística.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Foi desse ambiente que surgiu a base da Construtora CK, fundada em Navegantes, Santa Catarina, em 2010. A empresa nasceu quando Charles Kan tinha apenas 19 anos e hoje atua em algumas das áreas mais disputadas do mercado imobiliário catarinense.
Carlos Kan chegou ao Brasil sem falar português e começou por trabalhos modestos
A história da família começou na China, entre as décadas de 1960 e 1970.
Carlos Kan deixou o país ainda jovem e chegou ao Brasil sem dominar o português. Antes de construir patrimônio, trabalhou em atividades como pastelaria, restaurante e pequenos negócios, acumulando experiência em um país cuja língua e cultura ainda precisava aprender.
Não houve uma passagem direta da imigração para o mercado imobiliário.
Durante anos, Carlos experimentou diferentes atividades até encontrar uma oportunidade no comércio exterior. A mudança ocorreu principalmente durante a expansão das lojas de R$ 1,99 no Brasil, fenômeno que ganhou força na década de 1990.
Esses estabelecimentos precisavam de grande variedade de mercadorias, preços baixos e reposição constante. A família passou então a importar produtos destinados ao atacado e às lojas populares. Também realizou o caminho inverso, exportando produtos brasileiros para a China, entre eles frutos do mar.
O varejo de R$ 1,99 criou capital, mas também ensinou a controlar margem e estoque
Vender produtos baratos não significava trabalhar sem estratégia.
O modelo exigia controle rigoroso de caixa, conhecimento dos fornecedores, capacidade de negociar grandes volumes e atenção permanente aos custos de transporte e armazenamento.
Como a margem por produto era pequena, o resultado dependia da escala e da eficiência da operação. Um erro na compra, no preço ou na logística poderia consumir rapidamente o lucro obtido com milhares de unidades vendidas.
Segundo Charles Kan, essa experiência comercial acabou influenciando a forma como a família passou a administrar os empreendimentos imobiliários. O controle financeiro, a cautela com os compromissos assumidos e a preocupação com a reputação deixaram o varejo e foram levados para as obras.
A diferença estava no tempo.
Enquanto uma mercadoria de baixo custo podia entrar e sair da loja em poucos dias, um empreendimento imobiliário podia exigir cerca de cinco anos entre a compra do terreno, a construção e a venda da última unidade.
A operação com frutos do mar levou a família para o litoral de Santa Catarina
A relação comercial com a China aproximou a família do litoral catarinense.
Navegantes tornou-se uma base estratégica por causa da atividade portuária e da possibilidade de importar e exportar mercadorias. Foi nessa região que a família começou a observar um mercado imobiliário ainda formado por construtoras menores, poucas imobiliárias e edifícios de porte mais modesto.
A entrada na construção não ocorreu inicialmente como uma substituição completa do comércio.
Carlos começou participando como investidor em projetos de terceiros. Empresários locais procuravam capital para viabilizar pequenos prédios, enquanto a família buscava maneiras de diversificar os negócios e gerar renda com ativos imobiliários.
O que era uma atividade complementar acabou abrindo espaço para uma nova empresa.
Charles tinha 19 anos quando decidiu fundar a própria construtora
Charles Kan cresceu acompanhando as negociações da família e decidiu estruturar uma operação própria.
A CK Construções e Empreendimentos foi fundada em Navegantes em 2010. De acordo com a reportagem publicada pela Exame, Charles tinha 19 anos quando abriu a empresa.
O primeiro projeto foi um edifício de pequeno porte em Navegantes.
Depois veio outro prédio, seguido por novos empreendimentos. A companhia ampliou gradualmente a atuação para Itajaí e Balneário Camboriú, sem abandonar a região onde iniciou suas atividades.
A lógica adotada foi diferente da velocidade do varejo popular. Em vez de girar mercadorias rapidamente, a empresa precisava preservar caixa, acompanhar obras durante anos e sustentar compromissos assumidos com compradores que haviam adquirido imóveis ainda na planta.
Na construção, um problema não desaparece quando a mercadoria sai da prateleira. Ele pode permanecer ligado ao nome da empresa durante décadas.
A CK afirma ter entregado 15 empreendimentos, 957 unidades e 170 mil metros quadrados
Segundo dados divulgados pela empresa e publicados pela Exame, a CK já entregou 15 empreendimentos, que somam 957 unidades e aproximadamente 170 mil metros quadrados construídos. A companhia também informa empregar cerca de 250 funcionários diretos.
Esses números colocam a empresa muito além dos primeiros edifícios de pequeno porte construídos em Navegantes.
Atualmente, o site da CK apresenta empreendimentos entregues em Navegantes, Itajaí e Balneário Camboriú, além de três obras em andamento em Itajaí:
- Artefacto Towers by CK;
- Habitah Praia Brava;
- Urbe Residence.
A página também mostra o Levels em fase de pré-lançamento e o Versus como lançamento.
Em 2025, as três obras em andamento reuniam quase 80 mil metros quadrados, segundo dados divulgados em uma reportagem sobre a participação da empresa no Ranking INTEC de 2026. A CK ficou na 14ª colocação entre as construtoras de Santa Catarina, na 36ª posição do Sul e na 129ª colocação nacional, considerando a metragem construída.
Os projetos atuais misturam alto padrão, apartamentos compactos e condomínios com estrutura de clube
A empresa não concentra todos os projetos no mesmo público.
O Artefacto Towers e o Habitah Praia Brava estão localizados em uma área valorizada entre Itajaí e Balneário Camboriú e foram planejados para compradores de padrão mais elevado. Juntos, os dois projetos tinham VGV estimado acima de R$ 567 milhões em março de 2026.
O Urbe Residence segue uma proposta diferente.
Localizado no bairro São Judas, em Itajaí, o empreendimento foi projetado para o médio padrão, com VGV estimado em R$ 30 milhões e foco em compradores que priorizam mobilidade, comércio e serviços próximos.
Já Levels e Versus representam a aposta da construtora em unidades mais compactas. Os dois projetos somavam quase R$ 570 milhões em VGV estimado, de acordo com os dados divulgados durante o primeiro trimestre de 2026.
Essa mudança acompanha um comportamento percebido pela própria empresa: parte dos consumidores passou a procurar apartamentos menores, mas não aceita abrir mão de academia, piscina, áreas de convivência, espaços de trabalho e outros serviços dentro do condomínio.
A família constrói em uma região onde o metro quadrado supera grandes capitais
O crescimento da CK ocorreu em um dos corredores imobiliários mais caros do país.
Quando a Exame publicou a história, em fevereiro de 2026, Balneário Camboriú liderava o levantamento nacional do FipeZAP. Em janeiro, o preço médio anunciado na cidade era de R$ 15.030 por metro quadrado. Itapema aparecia logo depois, com R$ 14.944, enquanto Itajaí registrava R$ 13.023.
A ordem mudou alguns meses depois.
No relatório de julho de 2026, Itapema passou a apresentar o maior preço médio da amostra, com R$ 15.403 por metro quadrado. Balneário Camboriú aparecia com R$ 15.295 e Itajaí com R$ 13.301.
Isso exige uma ressalva.
A expressão “litoral mais valorizado do Brasil” descreve corretamente a concentração de cidades caras no litoral norte catarinense, mas não significa que uma mesma cidade permaneça todos os meses na primeira colocação.
Além disso, o FipeZAP é calculado com base em preços anunciados nos portais imobiliários do Grupo OLX. Portanto, o indicador acompanha os valores pedidos pelos vendedores, que podem ser diferentes dos preços finais efetivamente negociados.
Os R$ 2,3 bilhões representam potencial de vendas, não dinheiro já faturado
Este é o ponto que mais exige cuidado.
A CK afirma preparar projetos com mais de R$ 2,3 bilhões em Valor Geral de Vendas para os próximos anos. A cifra ajuda a medir a dimensão do plano de expansão, mas não representa receita já recebida pela construtora.
O VGV é calculado pela soma do valor potencial de venda de todas as unidades de um empreendimento.
Ele pode mudar por causa de descontos, alterações nos preços, unidades que não são vendidas, participação de sócios, distratos e outras condições comerciais. Por isso, não deve ser tratado automaticamente como faturamento, lucro ou dinheiro disponível em caixa.
O mesmo cuidado vale para a afirmação de que o VGV acumulado da CK já ultrapassou bilhões.
A informação foi fornecida pela companhia e reproduzida pela Exame, mas não foram localizadas demonstrações financeiras públicas que permitam transformar esse valor em faturamento líquido, lucro ou patrimônio da família.
O número revela o potencial comercial dos projetos. Não revela, sozinho, quanto permaneceu com a empresa depois de terrenos, construção, impostos, comissões, financiamento e participação de parceiros.
Crescer na construção exige sobreviver a um ciclo muito mais longo que o varejo
A experiência dos produtos de R$ 1,99 ensinou a trabalhar com giro rápido.
A construção exige o contrário: capital imobilizado, cronogramas extensos e capacidade de atravessar mudanças nos juros e na procura antes de receber todo o valor das unidades.
A própria empresa reconhece que os juros elevados, o aumento do número de concorrentes e o longo ciclo dos projetos são obstáculos para a expansão. A estratégia declarada para os próximos anos é crescer com controles internos, auditoria e adaptação dos imóveis ao perfil dos compradores.
O plano não depende apenas de construir torres maiores.
Depende de escolher terrenos, lançar unidades compatíveis com a procura, evitar promessas difíceis de cumprir e preservar a confiança de quem entrega parte de suas economias antes de o prédio ficar pronto.
Foi nesse ponto que a experiência do pai se encontrou com a empresa criada pelo filho.
Carlos Kan chegou sem falar português, trabalhou em negócios modestos e prosperou vendendo mercadorias populares. Charles transformou o aprendizado comercial da família em uma construtora que afirma ter chegado perto de mil unidades entregues.
O produto mudou completamente.
A necessidade de controlar custos, proteger o caixa e cumprir a palavra continuou a mesma.
Você confiaria em uma construtora fundada por um jovem de apenas 19 anos? E acredita que a disciplina aprendida nas lojas de R$ 1,99 pode realmente ser aplicada a projetos imobiliários bilionários?
Fontes
exame
construtora ck
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Noel Budeguer.

