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Plantas usadas há milhares de anos revelam mecanismo que poderá inspirar analgésicos e tratamentos anticâncer
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 05/08/2026 às 19:10
Ciência e Tecnologia
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Plantas venenosas tiveram genes transferidos para o tabaco, que reproduziu uma rota química ligada a moléculas de interesse medicinal.
Cientistas conseguiram fazer plantas de tabaco produzirem atisínio, uma substância que serve como base para uma família de moléculas associadas a possíveis efeitos analgésicos, antimaláricos e anticancerígenos. O experimento reproduziu parte do sistema químico encontrado no acônito e na esporinha, espécies altamente tóxicas, e poderá facilitar a obtenção sustentável de compostos difíceis de fabricar em laboratório.
O trabalho, publicado dia 3 de agosto de 2026 na revista científica Molecular Plant, foi conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan, nos Estados Unidos, e da Academia Tcheca de Ciências. A equipe identificou seis enzimas essenciais, localizou os genes responsáveis por sua produção e transferiu essas instruções genéticas para o tabaco.
Tabaco passou a reproduzir química de plantas tóxicas
A escolha do tabaco não ocorreu por suas propriedades medicinais, mas por sua utilização frequente como organismo experimental em biotecnologia. Ao receber os genes selecionados, a planta passou a funcionar como uma pequena biofábrica, reunindo as seis enzimas necessárias para formar o atisínio.
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Durante o processo, os pesquisadores também observaram como uma fonte fundamental de nitrogênio era incorporada à molécula. O resultado permitiu reconstruir uma parte da rota metabólica empregada naturalmente pelo acônito e pela esporinha.
Essas espécies produzem alcaloides diterpenoides, compostos conhecidos por estruturas químicas extremamente complexas. Em pequenas doses, algumas dessas substâncias podem afetar o sistema nervoso e provocar até paralisia, o que impede qualquer uso sem controle rigoroso.
Ao mesmo tempo, plantas desse grupo aparecem há milhares de anos em práticas de medicina tradicional. Para os cientistas, compreender sua química pode permitir que moléculas específicas sejam isoladas e avaliadas sem depender do uso direto das espécies venenosas.
Seis enzimas funcionam como etapas de uma linha de montagem
Para encontrar os genes envolvidos, os pesquisadores examinaram milhares de sequências presentes em diferentes espécies de acônito e esporinha. A busca se concentrou naquelas ativadas justamente nos tecidos e períodos em que os alcaloides eram produzidos.
Garret Miller, coautor principal do estudo, compara uma via biossintética a uma linha de montagem. Cada enzima executa uma etapa; se uma delas não funcionar, todas as transformações posteriores podem ser interrompidas.
Essa dependência ajuda a explicar a dificuldade de reconstruir compostos naturais. Mesmo depois de quase dois séculos desde o isolamento da aconitina, uma das moléculas mais conhecidas dessa família, sua síntese completa ainda não foi alcançada em laboratório.
Além da estrutura complicada, as plantas produzem essas substâncias em volumes muito pequenos. A baixa disponibilidade limita os experimentos e dificulta qualquer tentativa de desenvolver aplicações farmacêuticas em maior escala.
Descoberta pode reduzir extração direta da natureza
A reprodução do atisínio no tabaco não representa a criação imediata de um novo medicamento. O experimento demonstra, porém, que parte da maquinaria biológica pode ser retirada das espécies originais e instalada em outro organismo mais adequado à produção controlada.
Quando toda a sequência metabólica for identificada, os genes poderão ser transferidos para leveduras ou outras plataformas biotecnológicas. Esses organismos poderiam fabricar quantidades maiores dos compostos sem exigir o cultivo extensivo de espécies tóxicas.
A estratégia também evitaria algumas etapas de síntese química consideradas muito difíceis. Em vez de tentar montar a molécula artificialmente desde o início, os pesquisadores utilizariam enzimas aperfeiçoadas pelas próprias plantas ao longo de milhões de anos.
Björn Hamberger, autor sênior do estudo, afirma que o reino vegetal já forneceu inúmeras substâncias incorporadas ao cotidiano humano. Cafeína, capsaicina, mentol e vanilina são alguns exemplos, além dos medicamentos extraídos diretamente de vegetais ou inspirados em sua química.
Potencial médico ainda precisará ser testado
A identificação das enzimas cria uma plataforma para novas pesquisas, mas não elimina os riscos relacionados aos alcaloides. As moléculas produzidas por acônitos e esporinhas podem ter efeitos biológicos intensos, tornando indispensáveis avaliações de toxicidade, dosagem e eficácia.
O avanço principal está na possibilidade de produzir e estudar cada composto de maneira mais previsível. Com maior disponibilidade, os cientistas poderão investigar quais estruturas possuem atividade útil e quais apresentam perigos que inviabilizam seu desenvolvimento.
O objetivo de longo prazo é separar o potencial terapêutico da toxicidade que tornou essas espécies conhecidas. Em vez de colher grandes quantidades de plantas venenosas, futuras biofábricas poderiam reproduzir apenas as etapas químicas necessárias.
Ao revelar seis componentes dessa cadeia e fazê-los funcionar no tabaco, o estudo transforma uma defesa natural perigosa em ferramenta de pesquisa. A mesma química usada pelas plantas para sobreviver poderá, depois de controlada e testada, fornecer novos caminhos para a criação de medicamentos e processos farmacêuticos menos dependentes da extração ambiental.
Fonte: Revista Galileu
Fonte
Revista Galileu
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

