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Quando o calor bate 44,7 ºC na Austrália, homem faz 4.500 litros de água, paredes de tijolos, laje de concreto, sombra e ventilação trabalharem juntos como um escudo contra o Sol e mantém a própria casa a apenas 24,9 ºC sem ar-condicionado
Escrito por Ana Alice
Publicado em 21/08/2026 às 19:39
Atualizado em 21/08/2026 às 19:42
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Uma casa australiana enfrentou um dos episódios de calor mais extremos registrados no projeto e mostrou como água, concreto, orientação solar, isolamento e sensores podem trabalhar juntos para controlar a temperatura interna.
Do lado de fora, os termômetros marcavam 44,7ºC, temperatura suficiente para transformar uma casa mal protegida do calor em um ambiente difícil de suportar.
Dentro da Edgar House, porém, os sensores registravam 24,9ºC no meio da tarde, sem que o ar-condicionado estivesse sendo usado naquele episódio.
A diferença de 19,8ºC não apareceu por causa de uma máquina escondida ou de uma tecnologia única.
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Na residência construída em Dalton, no estado australiano de Nova Gales do Sul, o controle da temperatura começa na posição da casa, passa pelas janelas e pelos beirais e chega a uma solução menos comum: 4.500 litros de água mantidos dentro de três reservatórios para funcionar como massa térmica.
O projeto ganhou documentação pública no Sustainable House Day, iniciativa coordenada pela organização australiana Renew, e continuou sendo detalhado em 2026.
Em abril, a revista técnica Silicon Chip publicou um artigo sobre o sistema eletrônico utilizado para acompanhar o comportamento térmico da residência, que registra continuamente dezenas de informações sobre o que ocorre dentro e fora da construção.
Casa mantém quase 20ºC de diferença com arquitetura passiva
O registro mais chamativo ocorreu durante o verão australiano de 2025–2026.
Enquanto a temperatura externa atingiu 44,7ºC, o interior permaneceu em 24,9ºC no meio da tarde, segundo os dados divulgados pelos responsáveis pela Edgar House.
Isso não significa que a residência consiga manter permanentemente uma diferença de quase 20ºC em qualquer condição climática.
O número corresponde a um episódio específico registrado pelos sensores e serve para mostrar como diferentes elementos do projeto trabalharam juntos naquele período de calor intenso.
A própria descrição técnica da casa aponta que nenhuma solução isolada é apresentada como responsável pelo desempenho.
Quando questionados sobre qual aspecto fazia maior diferença, os responsáveis destacaram o projeto inicial, especialmente orientação solar, massa térmica, ventilação, sombreamento e divisão dos ambientes.
A ficha da propriedade inclui uma bomba de calor de ciclo reverso entre seus sistemas de aquecimento e resfriamento, além de ventiladores de teto.
Como 4.500 litros de água ajudam a controlar a temperatura
Os três reservatórios são uma das partes mais curiosas da construção porque, à primeira vista, poderiam parecer integrantes de algum sistema de refrigeração à base de água.
Não é isso que acontece: a água não precisa circular pelas paredes nem pelos cômodos para produzir o efeito descrito no projeto.
Sua função é servir como massa térmica.
Em termos simples, materiais com grande capacidade de armazenar calor conseguem absorver energia quando o ambiente esquenta e devolvê-la mais lentamente quando as condições mudam, ajudando a reduzir oscilações rápidas de temperatura.
A água é especialmente útil para essa função por conseguir armazenar grande quantidade de energia térmica.
Na Edgar House, os 4.500 litros estão distribuídos entre três tanques instalados dentro da área protegida termicamente da residência.
Eles também não trabalham sozinhos.
A laje de concreto, isolada nas bordas, e paredes internas de tijolos acrescentam mais massa térmica ao projeto, criando diferentes superfícies capazes de absorver e liberar calor ao longo do dia.
Por isso, resumir a casa aos reservatórios seria deixar de fora a maior parte da estratégia.
A água chama atenção pelo volume, mas sua função depende de uma construção projetada para evitar que o calor externo entre rapidamente e para administrar melhor a energia que já está dentro do imóvel.
Orientação solar e posição das janelas fazem parte do projeto
Em uma residência convencional, escolher onde instalar uma janela pode parecer principalmente uma decisão estética.
Na Edgar House, a posição das aberturas está diretamente relacionada ao percurso do Sol ao longo das estações.
A casa possui seu eixo mais comprido no sentido leste-oeste e concentra uma grande área envidraçada voltada para o norte.
Como a Austrália está no Hemisfério Sul, essa face recebe uma exposição solar especialmente útil durante os meses mais frios.
Os beirais foram dimensionados para interferir nessa relação.
No inverno, quando o Sol percorre uma trajetória mais baixa no céu, sua luz consegue entrar; no verão, com o Sol mais alto, a própria cobertura bloqueia uma parcela maior da radiação direta.
Uma varanda profunda na face leste e uma estrutura de proteção no lado oeste aumentam o sombreamento em pontos que poderiam receber calor nas primeiras ou últimas horas do dia.
Com isso, parte do trabalho de resfriamento ocorre antes que a radiação solar consiga aquecer diretamente o interior.
Vidro duplo e isolamento reduzem a transferência de calor
As janelas também receberam atenção.
O projeto utiliza vidros duplos e esquadrias com ruptura térmica, recurso destinado a diminuir a passagem de calor através da estrutura que envolve o vidro.
Paredes e teto contam com isolamento, enquanto os cômodos que possuem tetos inclinados receberam uma quantidade maior desse material.
A ficha do Sustainable House Day informa níveis equivalentes a R2,7 nas paredes e R5 no teto, com duplicação do isolamento nos ambientes de teto inclinado.
Para o morador, a lógica pode ser entendida sem recorrer aos números técnicos.
No verão, a casa tenta dificultar a entrada do calor; no inverno, procura reduzir a velocidade com que o calor interno escapa.
A massa térmica trabalha no meio desse processo, ajudando a suavizar as variações que ainda acontecem.
Essa combinação é justamente o que diferencia uma estratégia passiva de depender apenas de aparelhos elétricos.
A construção participa do controle da temperatura antes de qualquer equipamento de climatização ser acionado.
Sensores monitoram 24 parâmetros da Edgar House
O proprietário não depende apenas da sensação de conforto para saber se a estratégia está funcionando.
Um sistema eletrônico de monitoramento registra 24 parâmetros, incluindo temperatura externa, temperatura interna, umidade e temperaturas dos elementos usados como massa térmica.
Em abril de 2026, o responsável pelo projeto, Julian Edgar, detalhou na revista Silicon Chip o sistema criado para acompanhar o comportamento térmico da casa.
Edgar, jornalista especializado em tecnologia automotiva e autor de trabalhos técnicos, afirmou que havia se interessado por energia solar e arquitetura passiva durante décadas antes de incorporar essas ideias à própria residência.
Os registros permitem observar não apenas se determinado cômodo está quente ou frio, mas como o concreto e outros elementos respondem às mudanças do ambiente.
Dessa maneira, é possível acompanhar se a massa térmica está absorvendo energia e como a temperatura se comporta durante sequências de dias quentes ou frios.
É desse monitoramento que vieram os números usados para mostrar o desempenho da casa.
Em vez de uma estimativa feita pelos moradores, as diferenças de temperatura foram registradas eletronicamente ao longo da operação do sistema.
Casa também manteve temperatura interna durante frio de 0ºC
O teste de calor não foi o único extremo registrado.
Na primavera de 2024, a temperatura externa chegou a 0ºC enquanto o interior da residência estava em 18,5ºC, sem sistema de aquecimento funcionando naquele momento.
Novamente, o número deve ser entendido como um registro específico, e não como a promessa de que sempre haverá uma diferença de 18,5ºC entre a casa e o ambiente externo.
Ainda assim, o episódio mostra que o projeto foi pensado para atuar nos dois sentidos.
Durante períodos frios, a entrada controlada da luz solar e a capacidade de armazenar calor passam a ser importantes.
Nos dias quentes, sombreamento, isolamento, ventilação e massa térmica ajudam a limitar a elevação da temperatura interna.
Essa dupla função é uma característica da chamada arquitetura solar passiva: o objetivo é fazer o próprio edifício responder melhor às condições climáticas antes de recorrer intensamente a aquecimento ou refrigeração mecânicos.
Assista o vídeo
Casa de 274 m² combina energia solar e eficiência térmica
A Edgar House tem 274 m², quatro quartos e dois banheiros e aparece com classificação energética 8 na ficha do Sustainable House Day.
O projeto foi desenvolvido pelo próprio proprietário, que também assumiu a construção da residência.
A lista de recursos inclui painéis solares fotovoltaicos no telhado, monitoramento de energia, iluminação eficiente e carregador de parede para veículo elétrico.
Na parte relacionada à água, aparecem captação de chuva e equipamentos destinados a reduzir o consumo.
Apesar da quantidade de recursos, a proposta declarada pelos responsáveis não era criar uma construção experimental repleta de componentes difíceis de encontrar.
O objetivo informado era combinar princípios tradicionais de arquitetura solar passiva com métodos e materiais convencionais de construção, tentando evitar um aumento expressivo de custo em comparação com uma casa australiana comum.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

