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Vizinhos acordavam às 2h da manhã com as casas tremendo e pensavam estar vivendo um terremoto, mas sob seus pés um homem passou 40 anos cavando escondido e abriu sozinho um labirinto subterrâneo de vários níveis, com quase 8 metros de profundidade, que avançou sob ruas e imóveis de Londres até crateras começarem a rasgar o asfalto
Escrito por Ana Alice
Publicado em 07/08/2026 às 23:33
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Durante décadas, um morador de Hackney ampliou silenciosamente o subsolo de sua casa até criar uma rede subterrânea que avançou além da propriedade e acabou exigindo intervenção judicial e uma operação de estabilização em grande escala.
Durante cerca de quatro décadas, William Lyttle escavou silenciosamente o terreno sob sua casa vitoriana de 20 cômodos em Hackney, no leste de Londres, até transformar o subsolo em uma rede de túneis e cavidades com vários níveis, pontos de até 8 metros de profundidade e ramificações que avançavam cerca de 20 metros a partir do imóvel.
A dimensão do que havia sob o número 121 da Mortimer Road só ficou clara para as autoridades em 2006, após problemas no pavimento e afundamentos na região levarem o Hackney Council a investigar o terreno com equipamentos de ultrassom.
Quando os técnicos mapearam o subsolo, descobriram que as escavações avançavam para além dos limites da propriedade e colocavam estruturas vizinhas em risco.
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Lyttle, irlandês e então com cerca de 75 anos, tornou-se conhecido como “Mole Man of Hackney”, o Homem-Toupeira de Hackney.
Ele dizia que tudo havia começado com a tentativa de construir uma adega, mas continuou escavando durante décadas.
“Primeiro tentei cavar uma adega, depois a adega dobrou, e assim por diante”, contou ao The Guardian em 2006.
Quando questionado sobre a extensão da obra, respondeu com uma frase que se tornaria associada ao caso: “Eu só tenho um porão grande”.
Uma adega virou um labirinto sob a casa
Lyttle vivia havia mais de 40 anos na grande residência de Mortimer Road, em De Beauvoir Town, quando o caso ganhou repercussão nacional.
A casa, avaliada na época em aproximadamente £1 milhão, havia sido transformada ao longo dos anos em uma construção cada vez mais deteriorada.
Parte dos cômodos também era alugada, principalmente a estudantes e artistas.
Enquanto a atividade na superfície chamava relativamente pouca atenção durante boa parte daquele período, abaixo dela Lyttle retirava terra, ampliava passagens e criava novas cavidades.
Segundo os levantamentos divulgados pelo Hackney Council, cerca de 100 metros cúbicos de terra haviam sido removidos.
Algumas galerias chegavam a aproximadamente 8 metros de profundidade e avançavam até 20 metros ao redor da residência, atingindo áreas situadas sob ruas e propriedades próximas.
As escavações não formavam um único túnel reto.
Relatos posteriores descrevem passagens estreitas, espaços maiores, diferentes níveis e estruturas sustentadas por pilares de concreto improvisados pelo próprio morador.
A consequência era uma espécie de labirinto artesanal aberto pouco a pouco sob uma região densamente ocupada de Londres.
Crateras e rachaduras aumentaram a preocupação dos vizinhos
O trabalho não permaneceu completamente sem sinais na superfície.
Moradores começaram a relatar ruídos, vibrações e problemas no pavimento.
Algumas seções da calçada chegaram a ceder, aumentando o temor de que partes da rua ou dos imóveis vizinhos também pudessem sofrer instabilidade.
Décadas depois, vizinhos ouvidos pelo The Sun recordaram que escutavam perfurações durante a madrugada.
Clifford Farley, que viveu na região nos anos 1990, afirmou que o barulho aparecia por volta de 1h ou 2h e fazia a casa tremer.
Ele disse que, em algumas ocasiões, acordava imaginando que estivesse ocorrendo um terremoto.
Os relatos mais recentes ajudam a reconstruir a percepção dos moradores, mas a existência do risco já aparecia nas reportagens de 2006.
Naquele ano, o Guardian registrou que vizinhos vinham apresentando reclamações ao conselho local e que o levantamento por ultrassom revelou a dimensão das cavidades.
Assim, o problema não surgiu de uma única cratera repentina que revelou tudo de uma vez.
Os afundamentos e danos no pavimento foram o ponto crítico que levou à investigação capaz de mostrar a verdadeira extensão do labirinto subterrâneo.
Assista o vídeo
Escavação atingiu um cabo elétrico de 450 volts
A atividade subterrânea chegou a afetar serviços públicos.
Uma moradora entrevistada pelo Guardian relatou que uma rua perdeu energia depois que Lyttle atingiu um cabo elétrico de 450 volts durante as escavações.
Esse tipo de ocorrência reforçou as preocupações sobre a falta de planejamento técnico e de controle externo.
Não se tratava apenas de alguém ampliando o próprio porão.
As escavações haviam avançado para áreas onde existiam fundações, vias públicas e redes de infraestrutura.
O risco também alcançava quem não tinha qualquer participação no projeto.
Foi justamente esse aspecto que mais tarde fundamentaria a atuação judicial do Hackney Council.
Um dos túneis teria alcançado uma estrutura ferroviária
Outra história associada ao labirinto ganhou força após a retirada de Lyttle da casa.
Relatos posteriores, incluindo um texto da British Vogue baseado em registros sobre a residência e no trabalho do escritor Iain Sinclair, afirmam que uma ramificação chegou ao túnel ferroviário de Dalston Lane.
A informação tornou-se parte recorrente da história do “Homem-Toupeira”.
No entanto, ela não aparece com o mesmo nível de documentação nas primeiras reportagens de 2006.
Por isso, o mais preciso é tratá-la como um relato posterior ligado às explorações do local, e não como uma conclusão técnica formal divulgada pelo conselho municipal na época da interdição.
O que foi confirmado pelo levantamento oficial já era suficientemente expressivo: cavidades com até 8 metros de profundidade e aproximadamente 20 metros de alcance ao redor da propriedade.
Hackney Council retirou Lyttle da casa em 2006
Em agosto de 2006, a situação chegou ao ponto em que as autoridades consideraram necessária a retirada do morador.
O Hackney Council conseguiu uma ordem para afastá-lo da propriedade enquanto equipes estabilizavam o terreno e a própria casa.
Segundo o órgão, as intervenções de Lyttle haviam criado perigo tanto para ele próprio quanto para o público.
A rota do ônibus 76 chegou a ser desviada como precaução, segundo registros posteriores sobre o episódio.
Depois da retirada, começou uma operação de proporções muito diferentes das escavações artesanais realizadas pelo morador.
O objetivo agora era impedir que aquilo que Lyttle havia removido durante décadas provocasse novos colapsos.
Dois mil toneladas de concreto estabilizaram o terreno
O conselho preencheu os túneis e cavidades com aproximadamente 2 mil toneladas de concreto aerado, segundo registros sobre a recuperação da propriedade.
Antes disso, empreiteiros retiraram mais de 30 toneladas de entulho e materiais acumulados no terreno e dentro da residência.
Entre os objetos encontrados estavam três carros e um barco.
O volume de material usado para estabilizar a casa mostra a diferença entre aquilo que era visível na superfície e o problema existente abaixo dela.
Durante décadas, o proprietário havia removido terra gradualmente.
Quando chegou a hora de tornar o imóvel seguro, foi necessário preencher em grande escala os espaços criados no subsolo.
As obras incluíram ainda reforço das fundações e outras medidas estruturais.
Justiça cobrou £293 mil do Homem-Toupeira
A disputa não terminou com a retirada de Lyttle.
Em abril de 2008, o Tribunal Superior britânico determinou que ele pagasse ao Hackney Council £293 mil pelos custos relacionados às obras de segurança e estabilização.
O conselho sustentou que as ações do proprietário haviam deixado a residência perigosa para ele e para outras pessoas.
Na época, Lyttle foi também impedido de retornar à propriedade enquanto permanecessem as restrições judiciais.
As despesas públicas continuaram aumentando nos anos seguintes.
Após sua morte, o Guardian informou que o conselho já havia gastado outras £70 mil com manutenção do edifício e cerca de £45 mil com acomodação temporária para o antigo morador.
A dívida total associada ao imóvel chegou posteriormente a superar £400 mil.
Mesmo longe da casa, Lyttle ainda tentou cavar
Depois da retirada de Mortimer Road, Lyttle passou um período em acomodação paga pelo poder público e depois foi transferido para um apartamento próximo.
Nem isso encerrou completamente sua relação com escavações e modificações improvisadas.
Relatos sobre os anos finais de sua vida registram que ele voltou a fazer alterações na nova moradia.
A British Vogue relata que, mesmo instalado em habitação social, ele tentou abrir passagem em uma parede do imóvel.
A motivação que o levou a passar tantas décadas escavando nunca foi estabelecida de maneira definitiva.
Ele próprio rejeitava interpretações grandiosas sobre algum objetivo oculto.
Ao Guardian, afirmou que as pessoas procuravam um “grande segredo”, mas que não havia nenhum.
Também dizia gostar de inventar coisas que não necessariamente funcionavam.
William Lyttle morreu aos 79 anos em 2010
Lyttle morreu em junho de 2010, aos 79 anos, de causas naturais, enquanto vivia em um apartamento em uma propriedade municipal no leste de Londres.
Sua morte abriu outro problema: encontrar eventuais herdeiros para uma casa valiosa, mas profundamente deteriorada e associada a uma grande dívida perante o poder público.
O imóvel ficou abandonado durante algum tempo.
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Ana Alice
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O telhado sofreu colapso, plantas começaram a crescer na estrutura e placas de perigo permaneceram ao redor da propriedade.
Ainda assim, a localização em De Beauvoir Town tornava o terreno extremamente valorizado.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

