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Arqueólogos escavam tumba de 4.300 anos e encontram o “guardião dos segredos” do faraó cercado por mais de 100 pequenas figuras destinadas a trabalhar por ele na vida após a morte
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 10/09/2026 às 17:36
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Arqueólogos encontram em Saqqara a tumba de Sekhentio-Ptah, poderoso funcionário do Antigo Império e “Guardião dos Segredos dos Decretos Reais”, sepultado há cerca de 4.350 anos.
Arqueólogos egípcios encontraram na necrópole de Saqqara a tumba de Sekhentio-Ptah, um poderoso funcionário do Antigo Império cujos títulos incluíam camareiro real, supervisor de todas as obras do rei, supervisor dos documentos reais e “Guardião dos Segredos dos Decretos Reais”. Segundo o Ahram Online, inscrições hieroglíficas preservadas na sepultura permitiram reconstruir parte da carreira de um homem que ocupava uma posição excepcionalmente próxima da administração faraônica há aproximadamente 4.350 anos.
Ao redor da tumba, a missão também abriu um complexo interligado de poços funerários contendo restos humanos, três sarcófagos de pedra ainda selados, fragmentos de cartonnage pintado, uma estátua de madeira em forma de falcão e mais de 100 pequenas figuras de faiança conhecidas como ushabtis, criadas para executar simbolicamente trabalhos em nome dos mortos na vida após a morte.
Há, porém, uma reviravolta arqueológica importante: especialistas consideram provável que parte dessas figuras pertença a sepultamentos posteriores que reutilizaram o local, e a própria múmia de Sekhentio-Ptah ainda não foi identificada.
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Paulo Nogueira
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Tumba apareceu na primeira temporada de escavações em um novo setor de Saqqara
A descoberta foi anunciada pelo Egito no fim de agosto de 2026 e ocorreu no chamado Setor A, a oeste da necrópole de Bubasteion, em Saqqara. A missão é egípcia e trabalha sob o Conselho Supremo de Antiguidades, instituição responsável pela pesquisa e proteção do patrimônio arqueológico do país.
A escavação não revelou apenas uma sepultura isolada. Os pesquisadores identificaram a tumba de Sekhentio-Ptah conectada a uma área muito mais complexa, com diversos poços funerários utilizados em diferentes períodos.
Essa sucessão de enterros é particularmente valiosa porque demonstra que a região permaneceu importante para os egípcios muito depois da construção original da tumba.
Algumas partes acabaram saqueadas ainda na Antiguidade, enquanto outras permaneceram suficientemente preservadas para chegar ao século XXI com sarcófagos ainda fechados.
Hieróglifos funcionaram como um currículo de 4.350 anos
Sekhentio-Ptah não precisou deixar documentos modernos para que sua posição fosse conhecida. Os próprios hieróglifos gravados na tumba registraram uma lista extensa de funções exercidas durante o Antigo Império.
Ele aparece como Camareiro Real, Supervisor de Todas as Obras do Rei, Supervisor dos Documentos Reais, Guardião dos Segredos dos Decretos Reais, Sacerdote da deusa Maat e Supervisor dos Escribas.
A concentração desses títulos sugere que Sekhentio-Ptah não era apenas um escriba comum. Ele transitava entre documentação, burocracia, religião e grandes trabalhos executados para a Coroa.
A expressão “guardião dos segredos”, entretanto, precisa ser entendida dentro desse contexto. Não significa necessariamente que ele conhecesse mistérios pessoais do faraó.
A egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, explicou à Live Science que o título provavelmente indicava acesso a informações confidenciais associado à responsabilidade sobre documentos reais e sobre os escribas que os produziam.
Duas portas falsas ajudam a colocar a construção por volta de 4.350 anos atrás
A descoberta foi inicialmente apresentada de maneira ampla como uma tumba do Antigo Império, período situado aproximadamente entre 2649 e 2150 a.C. Análises estilísticas permitem estreitar essa janela.
Roth observou que as duas chamadas portas falsas encontradas no monumento apresentam características típicas do final da Quinta Dinastia ou início da Sexta Dinastia. Isso posicionaria a construção por volta de 4.350 anos atrás, aproximadamente no século XXIV a.C.
As portas falsas eram elementos fundamentais das tumbas egípcias. Elas não davam acesso físico a outro cômodo. Representavam uma passagem simbólica através da qual o espírito do morto poderia transitar e receber oferendas dos vivos.
Objetos de alabastro continuavam diante da porta falsa em sua posição original
Um dos aspectos mais valiosos da escavação não é apenas o que foi encontrado, mas onde cada objeto estava.
Diretamente diante da porta falsa, os arqueólogos encontraram um conjunto completo de instrumentos funerários de alabastro. Havia uma mesa de oferendas, uma placa destinada às oferendas, uma bacia de purificação e outro recipiente ritual.
Hisham El-Leithy, responsável pelo setor de registro e documentação arqueológica do Conselho Supremo de Antiguidades, destacou que encontrar esse conjunto preservado em sua posição original fornece informações raras sobre como os rituais funerários eram efetivamente organizados durante o Antigo Império.
Em outras palavras, os arqueólogos não encontraram apenas peças antigas dispersas. Encontraram elementos de uma cerimônia ainda posicionados em relação à arquitetura para a qual haviam sido produzidos.
Mais de 100 pequenas figuras surgiram nos poços funerários
Nos poços ligados ao complexo apareceram mais de 100 figuras de faiança conhecidas como ushabtis ou shabtis.
Essas pequenas estatuetas tinham uma função extraordinariamente específica na religião funerária egípcia.
Esperava-se que o morto continuasse sujeito a determinadas obrigações no além. Os ushabtis funcionavam simbolicamente como substitutos: quando uma tarefa fosse exigida do falecido, a figura deveria responder e executar o trabalho por ele.
Em épocas posteriores, conjuntos funerários podiam conter dezenas ou mesmo centenas dessas peças, formando verdadeiros grupos de trabalhadores destinados ao outro mundo.
Figuras podem ter chegado à tumba muitos séculos depois de Sekhentio-Ptah
Ann Macy Roth observou que as mais de 100 figuras, assim como parte do cartonnage recuperado, parecem estar associadas à reutilização posterior dos poços funerários.
Esse tipo de reaproveitamento era frequente no Egito. Uma tumba construída para determinada pessoa podia receber novos enterramentos centenas ou até milhares de anos depois, especialmente em uma necrópole tão importante quanto Saqqara.
A observação muda a leitura literal da descoberta. As figuras realmente estavam no complexo funerário de Sekhentio-Ptah e realmente foram criadas para servir mortos na vida após a morte, mas ainda não há base para afirmar que todas tenham sido confeccionadas especificamente para ele.
Essa distinção também explica por que objetos de estilos e épocas diferentes podem aparecer concentrados dentro de um mesmo conjunto arqueológico.
Três sarcófagos de pedra permaneciam fechados desde a Antiguidade
Entre os objetos mais extraordinários encontrados nos poços estavam três sarcófagos de pedra selados e aparentemente intactos em sua posição original.
A existência de sepultamentos fechados oferece aos arqueólogos a oportunidade de estudar contextos menos perturbados por saques, movimentações antigas ou escavações anteriores.
Os trabalhos também recuperaram restos humanos, grande quantidade de cartonnage funerário pintado, cerâmicas e outros objetos associados aos mortos.
Falcão de madeira pode estar ligado ao universo religioso de Hórus
Outro objeto encontrado é uma estátua de madeira em forma de falcão.
O falcão possui uma associação fortíssima com Hórus, uma das principais divindades do Egito Antigo, embora os pesquisadores ainda precisem estudar a peça para determinar precisamente seu significado e datação dentro daquele contexto funerário.
A presença de objetos religiosos também combina com outro título de Sekhentio-Ptah: sacerdote da deusa Maat, divindade associada à ordem, verdade, equilíbrio e justiça.
A função mostra como cargos administrativos e religiosos podiam se sobrepor na elite egípcia. Um homem responsável por documentos e obras do rei também podia ocupar uma posição formal dentro do sistema religioso.
Ser supervisor das obras do rei colocava Sekhentio-Ptah perto do poder central
Entre os títulos, “Supervisor de Todas as Obras do Rei” talvez seja um dos mais importantes para dimensionar a posição do funcionário.
O Antigo Império foi justamente a era em que o Estado egípcio mobilizou enormes contingentes, materiais e recursos para templos, complexos funerários e monumentos de grande escala.
Não há evidência divulgada de que Sekhentio-Ptah tenha comandado especificamente a construção de uma pirâmide conhecida, portanto essa ligação não pode ser feita.
Seu título, entretanto, demonstra que supervisionava trabalhos executados em nome do rei. Combinado ao controle de documentos e escribas, isso sugere uma função elevada dentro da máquina administrativa que permitia ao poder faraônico coordenar recursos por todo o território.
A tumba, portanto, preserva não apenas uma história funerária, mas parte da estrutura burocrática que sustentava o Estado egípcio há mais de quatro milênios.
Saqqara continua revelando tumbas de épocas separadas por mais de mil anos
A descoberta ocorreu na necrópole de Bubasteion, dentro do gigantesco sítio arqueológico de Saqqara, ao sul do Cairo.
A área é especialmente conhecida por enterramentos associados à deusa Bastet e por catacumbas contendo animais mumificados, mas as escavações vêm demonstrando que o terreno foi utilizado por pessoas e instituições de períodos muito diferentes.
Somente em 2026, missões arqueológicas anunciaram outros conjuntos funerários em Saqqara, incluindo tumbas escavadas na rocha relacionadas ao Novo Império.
O novo setor confirma exatamente essa longa continuidade. A tumba de Sekhentio-Ptah pertence ao Antigo Império, enquanto poços ao redor foram utilizados ou reutilizados posteriormente.
Cada nova camada transforma o local numa espécie de arquivo vertical da história egípcia.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

