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Cearenses começam a gravar tarefas domésticas para treinar robôs e sistemas de IA, desde lavar louça até passear com cães, e enfermeira relata renda de cerca de R$ 1 mil por semana produzindo vídeos nos dias de folga
Escrito por Ana Alice
Publicado em 19/09/2026 às 21:33
Atualizado em 19/09/2026 às 21:35
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Plataformas estão pagando por vídeos de tarefas domésticas usados no treinamento de inteligência artificial e robótica. No Ceará, a atividade já atrai milhares de pessoas, mas envolve renda variável, regras de aprovação e riscos de privacidade.
Gravar a própria rotina enquanto lava louça, organiza uma gaveta ou prepara comida começou a render dinheiro para brasileiros que fornecem vídeos destinados ao treinamento de sistemas de inteligência artificial e robótica.
No Ceará, uma das plataformas que atuam nesse mercado afirma já ter cerca de 3 mil participantes, enquanto usuários relatam ganhos que podem chegar à faixa de R$ 1 mil por semana.
A oportunidade, porém, vem acompanhada de condições para pagamento e de cuidados importantes com privacidade e uso das imagens.
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A Flambra, uma das empresas desse segmento, informa ter mais de 20 mil pessoas cadastradas, das quais pelo menos 3 mil estão no Ceará.
Na prática, o participante prende o celular em um suporte, executa tarefas do cotidiano e envia as gravações seguindo regras de enquadramento e qualidade.
O dinheiro não é pago simplesmente pelo tempo dedicado à atividade.
Na Flambra, a remuneração anunciada é de R$ 25 por hora de vídeo aprovada, e materiais rejeitados não geram pagamento.
A própria plataforma divulga uma referência de R$ 4.500 mensais, mas esse valor não representa salário garantido nem rendimento mínimo.
Enfermeira relata renda próxima de R$ 1 mil por semana
Entre as pessoas que aderiram à atividade está a enfermeira Sintia Monteiro.
Ela contou que utiliza os dias de folga para produzir vídeos para duas plataformas e costuma gravar pelo menos cinco horas de atividades domésticas.
Segundo seu relato ao Diário do Nordeste, a atividade rende, em média, R$ 1 mil por semana.
Para Sintia, o dinheiro passou a representar uma fonte relevante de renda complementar. Ela afirmou ter usado parte dos ganhos para comprar um iPhone 17.
A experiência individual, entretanto, não significa que todos os participantes consigam obter a mesma remuneração.
Os valores dependem das condições oferecidas por cada empresa, do número de gravações realizadas, da aprovação do material e de eventuais bônus.
Algumas plataformas também podem pagar em dólar.
Uma segunda participante, identificada pelo nome fictício Fernanda, afirmou receber em uma delas cerca de US$ 3 por hora de vídeo.
Por que empresas de IA querem vídeos de tarefas domésticas
Uma tarefa aparentemente simples para uma pessoa pode representar uma sequência complexa para um robô.
Ao lavar um prato, por exemplo, alguém precisa reconhecer objetos, calcular distâncias, segurar peças com diferentes formatos, controlar a força aplicada, abrir uma torneira e adaptar os movimentos continuamente.
Vídeos captados do ponto de vista de quem executa essas atividades ajudam a formar os chamados datasets, conjuntos de dados utilizados no treinamento e na avaliação de sistemas de inteligência artificial.
A Flambra descreve seu negócio como uma operação de coleta de vídeos em primeira pessoa e dados do mundo real voltados para empresas que trabalham com robótica, IA incorporada a máquinas e modelos capazes de interpretar ambientes físicos.
Essas gravações podem mostrar cozinhas diferentes, objetos variados, ferramentas e várias maneiras de executar uma mesma ação.
Para empresas que desenvolvem sistemas capazes de interagir com o mundo físico, essa diversidade pode ser útil no treinamento e na avaliação dos modelos.
Cozinhar, limpar e organizar podem virar dados de treinamento
Entre as tarefas divulgadas estão atividades domésticas e profissionais relativamente comuns.
Cozinhar, lavar louça, organizar objetos, cuidar de animais, fazer pequenos reparos, repor produtos e executar rotinas de trabalho aparecem entre os exemplos apresentados pelas plataformas.
O participante recebe orientações e precisa seguir o padrão determinado para que o material seja aceito.
Na Flambra, os vídeos geralmente são gravados em perspectiva de primeira pessoa, com o celular fixado em um suporte na cabeça.
Dessa maneira, a câmera registra aproximadamente aquilo que a pessoa está vendo e fazendo.
Um detalhe importante é que o participante precisa possuir ou comprar um suporte compatível com o celular, enquanto o cadastro na plataforma é gratuito.
Depois do envio, a gravação passa por análise.
Problemas de enquadramento, iluminação ou execução podem provocar rejeição, e somente as horas consideradas válidas entram no saldo para pagamento.
Assista o vídeo
Ganhos de R$ 4 mil não são garantidos
O economista Pedro Henrique Arruda, conselheiro do Conselho Regional de Economia do Ceará, chama atenção para a diferença entre os valores usados na divulgação dessas plataformas e aquilo que cada pessoa conseguirá efetivamente receber.
Segundo ele, pagamentos na faixa de R$ 20 a R$ 25 por hora de vídeo aprovado exigiriam grande volume de tarefas para produzir renda mensal elevada.
Outro fator é que nem todo vídeo gravado necessariamente será aceito.
Também não existe garantia de que sempre haverá quantidade suficiente de tarefas disponíveis para determinada pessoa, cidade ou ambiente.
Por isso, rendimentos como os R$ 1 mil semanais relatados por Sintia ou os R$ 4.500 divulgados pela Flambra devem ser entendidos como relato individual e referência promocional da empresa, respectivamente.
Nenhum desses valores representa promessa de pagamento para qualquer usuário.
A tendência também pode mudar com o tempo.
Segundo Arruda, atividades muito comuns podem perder valor à medida que as empresas acumulam grandes quantidades de registros semelhantes.
Vídeos podem revelar muito mais do que as mãos do participante
A privacidade é um dos principais pontos de atenção nesse tipo de atividade.
Uma gravação feita dentro de casa pode registrar involuntariamente fotografias, correspondências, documentos, telas de computador, placas, endereços, hábitos de consumo, medicamentos ou outras pessoas.
Quanto maior a frequência dos vídeos, maior também pode ser a quantidade de informações sobre a rotina daquele ambiente.
Luiz Alexandre Reali Costa, gerente do Observatório Brasileiro de Inteligência Artificial, o OBIA, explica que diferentes características podem fazer o material ser considerado dado pessoal.
Nesses casos, o tratamento pode ficar sujeito às regras da Lei Geral de Proteção de Dados.
A LGPD estabelece direitos e obrigações relacionados a finalidade, transparência, segurança e uso de informações pessoais.
Plataforma proíbe menores e documentos nas gravações
Os termos da Flambra apresentam regras específicas para reduzir alguns desses riscos.
A participação é limitada a maiores de 18 anos, e menores não podem ser cadastrados nem mesmo com autorização dos responsáveis.
Também é proibido registrar crianças ou adolescentes, inclusive de maneira incidental.
A lista de restrições inclui ainda documentos, crachás, placas de veículos, dados financeiros de terceiros, ambientes de atendimento à saúde e locais com expectativa elevada de privacidade.
Nos vídeos comuns, a plataforma informa que a gravação é feita sem áudio.
Há tarefas específicas que podem incluir som, mas elas possuem regras adicionais e precisam ser identificadas dessa maneira antes da gravação.
Essas exigências tornam importante observar o ambiente antes de começar.
Mesmo que a câmera esteja apontada principalmente para as mãos do participante, o campo de visão pode incluir pessoas ou informações que não deveriam fazer parte do material.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

