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China constrói em Xangai o que pode ser o 1º navio-mãe do mundo para drones submarinos gigantes, aponta a Naval News: hangar deve levar quatro robôs de 35 a 45 metros, e um berço desce pelo fundo do casco para soltá-los no mar
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 26/09/2026 às 13:43
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Em obra no estaleiro Hudong-Zhonghua, o provável navio-mãe tem doca sem fundo na popa e hangar à frente dela, segundo o analista H I Sutton. Um precursor é brasileiro: o Ceará, que levava submarino dentro do casco e serviu à Marinha do Brasil de 1917 a 1946
A China está montando em Xangai um navio com hangar de uns 95 metros e doca aberta no fundo, mostram análises de imagens de satélite. Pode ser o primeiro navio-mãe do mundo para drones submarinos de até 45 metros.
A ideia tem precedente brasileiro, lembrado pelo próprio analista que apontou a função do navio. De 1917 a 1946, o Brasil operou o Ceará, feito para receber, transportar e testar submarinos num casco interno, segundo a Marinha do Brasil.
O analista é H I Sutton. Em 15 de setembro, a reportagem dele na Naval News apontou o navio chinês como provavelmente o primeiro do mundo feito para lançar drones submarinos.
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As imagens de satélite são da empresa Vantor e foram divulgadas no X pelo perfil KAROTASU, registra Sutton em seu site. Em 23 de setembro, uma foto do navio passou a circular na internet, e o analista a juntou à página com um alerta: cuidado com as versões retocadas.
Só o hangar chinês tem quase o tamanho do Ceará, o navio brasileiro que levava submarino dentro
A obra ocorre no estaleiro Hudong-Zhonghua, em Xangai, registra a Naval News, que analisou várias imagens de satélite para chegar à função provável do navio.
Por fora, o casco lembra um navio de desembarque anfíbio, com doca na popa, compara a publicação. Sutton descreve um navio em forma de caixa, com a superestrutura bem à frente, parecido com um ferry ro-ro muito grande, o tipo em que carros e caminhões embarcam rodando.
Na régua brasileira, só o hangar, de uns 95 metros pela conta de Sutton, tem quase o comprimento do Ceará inteiro, que media 101 metros, segundo a Marinha (95 ÷ 101 = 0,94). É quase um campo de futebol de 105 metros (95 ÷ 105 = 0,9).
Um berço que desce pelo fundo do casco em 12 braços
Na popa fica uma doca parecida com a dos navios de desembarque, mas sem fundo. A Naval News afirma que ali entra um berço grande e que o berço desce sob o navio por 12 braços verticais.
São braços do tipo jack up, o mesmo nome que o setor de petróleo dá às plataformas autoelevatórias. Elas sobem e descem o casco apoiadas em pernas. No navio chinês, a lógica se inverte, e quem desce é o berço.
Segundo a Naval News, o drone vai no berço, que desce pelo vão do casco, e o robô sai direto no mar.
Quatro robôs guardados no seco, à frente da doca
Na frente da doca fica um hangar grande, “presumivelmente para abrigar os submersíveis”, afirma a Naval News. Pelo tamanho da doca e dos drones já observados em imagens de satélite, o navio provavelmente leva quatro no hangar, ou mais modelos menores.
Em seu site, Sutton detalha as medidas: o hangar seco tem cerca de 95 por 17 metros. Fica acima da linha d’água e ocupa vários conveses. O poço da popa, onde o berço trabalha, mede uns 55 metros.
Ali caberiam de 2 a 4 XXLUUVs, e o berço levaria um por vez, calcula o analista. Em fila, dois drones de 45 metros ocupariam 90 dos 95 metros do hangar (2 × 45 = 90). O resto do navio foi desenhado em volta desses espaços.
O papel mais provável, afirma a Naval News, é o de um tênder móvel. O hangar mantém os drones fora da água, onde recebem manutenção, e o berço vira plataforma de lançamento e recolhimento para missões de combate.
Os robôs de 35 e 45 metros testados em Hainan
Os inquilinos do hangar seriam os XXLUUVs, sigla em inglês para veículo submarino não tripulado extra-extragrande. A Naval News registra dois modelos em testes na ilha de Hainan, no Mar do Sul da China. Um tem 35 metros, e o outro, 45.
Pequim não apresentou oficialmente nenhum dos dois, relatou a Naval News em 2025. Os testes se concentravam no porto de Gangmen, a oeste da base de Sanya, da Marinha chinesa, e em Yinggezui, também na ilha.
Segundo a Naval News, os dois têm de 6 a 8 vezes o tamanho do Orca, o drone submarino extragrande dos Estados Unidos. Em 2025, a publicação foi mais direta: perto deles, o Orca parece brinquedo de banheira.
Os cascos parecem não ter a torre típica dos submarinos e usam lemes em X na popa, mostrou a publicação. Ela viu indícios de ligação com o Instituto 705, da estatal chinesa CSSC, e nenhuma prova de propulsão nuclear.
Do tamanho de quatro ônibus, com porte de submarino de verdade
O maior XXLUUV, de 45 metros, equivale a quase quatro ônibus urbanos de 12 metros em fila (45 ÷ 12 = 3,75). O menor, de 35 metros, chega a quase três ônibus (35 ÷ 12 = 2,9).
Um submarino tripulado desse tamanho costuma levar 8 torpedos pesados, afirma a Naval News. A comparação dá a medida da carga possível num casco desse porte, com uma diferença: sem ninguém a bordo.
Por que as docas flutuantes deixaram de bastar
Até aqui, os dois protótipos vivem em docas flutuantes, explicou a Naval News em 2025. A doca vai ao mar e solta ou recolhe o drone longe do tráfego de navios, longe também dos curiosos que fotografam embarcações.
Uma delas, a Doca Flutuante Especial 001, foi lançada ao mar pelo estaleiro CSSC Guangxi em outubro de 2024, contou a publicação.
O problema, explica Sutton, é que cada doca flutuante leva um só XXLUUV. Como a doca inteira alaga, não dá para manter um drone em manutenção enquanto outro é lançado ou recolhido.
Drones de até 20 metros andam de carreta, e guindastes montados em caminhão dão conta deles, disse Sutton. Os XXLUUVs exigem estrutura de porto, e o navio-mãe deve levar esse porto junto, com hangar seco e berço na popa.
Um alcance estimado de quase meia volta ao mundo
Segundo estimativa da Naval News de dezembro de 2025, os XXLUUVs chineses terão alcance de cerca de 10 mil milhas náuticas. A base foi a ficha de um projeto conceitual de porte parecido, exposto numa feira.
Aquele projeto anunciava 7 mil milhas com motor a diesel e mais 3 mil submerso, com baterias de lítio-ferro-fosfato, detalhou a publicação. Somadas, dão as 10 mil milhas da estimativa (7.000 + 3.000).
Em quilômetros, a conta dá 18.520 km (10.000 × 1,852). A volta da Terra pela linha do Equador tem 40.075 km. Em tese, o drone percorreria sozinho quase metade dela, 46% (18.520 ÷ 40.075).
Com esse alcance, os drones poderiam ameaçar a costa oeste dos Estados Unidos, afirma a Naval News no título daquela análise. O Pacífico tem mais de 5 mil milhas náuticas de largura.
O AJX002 e o HSU100, os drones que desfilaram em Pequim
O que a China exibe em público é menor. No desfile militar de 3 de setembro de 2025, em Pequim, passaram sobre carretas o AJX002 e o HSU100, drones submarinos de até 20 metros.
A narração oficial do desfile apresentou o AJX002 como sistema não tripulado de lançamento de minas, relatou a Naval News. A publicação calcula para ele um alcance de cerca de 1.800 km, talvez bem mais.
Perto dos gigantes de Hainan, o AJX002 é o caçula. O maior XXLUUV tem mais que o dobro do comprimento dele (45 ÷ 20 = 2,25). E a logística muda: um cabe numa carreta, o outro pede navio.
Um programa que a China não declara
A Naval News chama de esforço não declarado o programa chinês de drones submarinos gigantes. O que se sabe do navio vem de imagens de satélite e de fotos que circulam na internet.
O desenho lembra um navio de pesquisa científica proposto na China em 2025, registra a Naval News. Aquele projeto era um pouco menor e deixava o submersível num convés aberto, entre o berço e a superestrutura.
O casco de Xangai é muito maior e tem hangar fechado, dois detalhes que tornam pouco convincente a explicação civil. A única explicação plausível, afirma o texto de Sutton, é um navio-mãe de drones submarinos.
O que já existe em outras marinhas
Navio feito para carregar submarino existe desde o começo do século 20, lembra Sutton em seu site. Ele destaca o SS Kanguroo, cargueiro francês de 1912 feito para entregar submarinos a clientes estrangeiros.
Mais perto de hoje, a Coreia do Sul opera o ROKS Dadohae, doca flutuante para os minissubmarinos das suas forças especiais, cita o analista. O navio chinês junta hangar, oficina e berço num casco de superfície e parece único, afirma a Naval News.
No Ocidente, a regra ainda são drones submarinos bem menores. O Orca, que a Boeing fabrica para a Marinha dos Estados Unidos, é o drone extragrande dos americanos. Mesmo assim, os XXLUUVs chineses o superam de longe.
Há 25 anos, a Marinha chinesa era uma força costeira defasada. Hoje, a China constrói mais navios de guerra do que qualquer outro país, destaca a Naval News ao contextualizar o achado.
A China já é o primeiro e único país a construir submarinos de tamanho completo sem tripulação, afirma a publicação. Tende a ser também o único a operá-los.
O Ceará, o navio-mãe de submarinos da Marinha do Brasil
O tênder de submersíveis Ceará teve a quilha batida em 15 de julho de 1913 no estaleiro Fiat-San Giorgio, em La Spezia, na Itália. Foi lançado ao mar em 7 de setembro de 1915, registra o histórico oficial da Marinha do Brasil.
Tinha 101 metros de comprimento, 15,75 metros de boca e velocidade de 12 nós. O casco interno, de aço e em forma de cilindro, era apropriado para receber os submarinos, transportá-los ou experimentá-los, detalha o documento.
A conta do deslocamento mostra o tamanho da ideia. Com a doca vazia e fechada, o Ceará deslocava 3.530 toneladas. Com a doca cheia e um submarino dentro, eram 5.740 toneladas, ou 2.210 a mais (5.740 menos 3.530).
Em seu site, Sutton destaca que a câmara da popa do Ceará era pressurizada. Os submarinos entravam flutuando para manutenção, e a pressão na câmara servia para testar o casco deles.
Era um tênder, o papel que a Naval News vê como o mais provável para o navio chinês. O Ceará dava aos submarinos reparos, torpedos, ar comprimido e combustível, relata a Marinha. A Flotilha de Submersíveis, a Base e a Escola passaram a funcionar a bordo.
Antes de chegar ao Brasil, em 15 de fevereiro de 1917, o navio socorreu o submarino italiano F8. Ele tinha sumido durante testes a três milhas de La Spezia, a 35 braças, uns 64 metros de profundidade (35 × 1,83).
O resgate durou 24 horas e foi feito por militares brasileiros. O Ceará chegou ao Rio de Janeiro em 19 de abril de 1917 e foi incorporado à Marinha no dia 28. Deu baixa em 25 de março de 1946.
A régua, do Ceará aos drones de Hainan
Lado a lado, as medidas mostram a escala do projeto chinês perto do navio que a Marinha do Brasil usou por 29 anos.
A diferença está no que vai dentro. O Ceará recebia submarinos com tripulação. O navio chinês, pela avaliação de Sutton, abrigaria drones submarinos capazes de rodar milhares de quilômetros sem ninguém a bordo.
De uma doca secreta em Hainan ao estaleiro de Xangai
A sequência começa em janeiro de 2025, quando a Naval News revelou o primeiro dos drones gigantes. Em setembro daquele ano, a publicação mostrou os dois modelos em testes em Hainan, dentro de docas flutuantes.
No mesmo mês, o desfile de Pequim exibiu o AJX002 e o HSU100 sobre carretas. Em dezembro, saiu a estimativa de 10 mil milhas náuticas de alcance para os XXLUUVs.
Em 15 de setembro de 2026, a Naval News apontou o navio em obra em Xangai como provável primeiro navio-mãe de drones submarinos do mundo. Três dias depois, Sutton detalhou em seu site o hangar de uns 95 metros e o poço de 55.
A próxima pergunta, escreveu o analista, é se o casco será da Marinha chinesa ou um navio comercial quase militar, operado pelo próprio estaleiro. Para ele, a construção já é um forte indício da evolução da capacidade de guerra da China.
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drones submarinos
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

