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Cidade de 3 mil habitantes na Espanha estava prestes a ser engolida pelas dunas e desaparecer sob a areia, até engenheiro receber missão de salvá-la, plantar 600 mil árvores e transformar 846 hectares em uma floresta que ainda protege moradores mais de um século depois

Cidade de 3 mil habitantes na Espanha estava prestes a ser engolida pelas dunas e desaparecer sob a areia, até engenheiro receber missão de salvá-la, plantar 600 mil árvores e transformar 846 hectares em uma floresta que ainda protege moradores mais de um século depois

6 min de leitura

Cidade de 3 mil habitantes na Espanha estava prestes a ser engolida pelas dunas e desaparecer sob a areia, até engenheiro receber missão de salvá-la, plantar 600 mil árvores e transformar 846 hectares em uma floresta que ainda protege moradores mais de um século depois

Escrito por Ana Alice

Publicado em 13/09/2026 às 23:33

Atualizado em 13/09/2026 às 23:34

Curiosidades

Canal

Guardamar quase desapareceu sob as dunas, mas um projeto plantou 600 mil árvores e transformou 846 hectares em uma floresta protetora. – Imagem: Ilustrativa

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No fim do século 19, dunas avançavam sobre Guardamar del Segura, na Espanha; um projeto de reflorestamento transformou 846 hectares ameaçados pela areia em uma extensa faixa verde que permanece integrada à cidade.

No fim do século 19, Guardamar del Segura enfrentava um problema que parecia avançar literalmente pelas ruas. Dunas móveis empurradas pelos ventos do Mediterrâneo deslocavam-se em direção às casas e às áreas agrícolas, chegando a avançar entre 3 e 8 metros por ano em alguns pontos.

A ameaça levou o governo espanhol a aprovar, em 1897, um projeto para fixar a areia e impedir que a pequena cidade da província de Alicante fosse progressivamente soterrada.

O engenheiro florestal Francisco Mira y Botella ficou responsável por transformar um campo de dunas de 846 hectares em uma barreira vegetal permanente. Mais de um século depois, boa parte dessa área continua arborizada e protegida.

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O…

Paulo Nogueira

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A escala da intervenção impressiona até pelos padrões atuais.

Registros históricos e documentos municipais apontam o plantio de aproximadamente 600 mil pinheiros, 40 mil palmeiras e 5 mil eucaliptos, além de outras espécies usadas para estabilizar o solo.

Também foram construídos caminhos, viveiros e estruturas destinadas a controlar o deslocamento da areia.

Hoje, o turismo oficial de Guardamar descreve a pinada como uma área protegida de aproximadamente 800 hectares, integrada às praias e às dunas do município. Aquilo que começou como uma obra emergencial para impedir a invasão da areia tornou-se uma das principais paisagens verdes da cidade.

A areia já havia chegado às proximidades das casas

O problema de Guardamar não surgiu de uma única tempestade nem de um processo repentino. A formação das dunas estava relacionada ao enorme volume de sedimentos transportados pelo rio Segura até sua foz e posteriormente redistribuídos pelo mar e pelo vento.

A redução da cobertura florestal na bacia do Segura ao longo dos séculos anteriores agravou a erosão e aumentou o transporte de material até o litoral.

Na costa, os ventos de levante empurravam essa areia novamente para terra firme, formando dunas móveis que avançavam em direção ao povoado e às plantações.

Em 1896, Francisco Mira e o engenheiro José Jordana y Morera fizeram um reconhecimento do sistema dunar. No ano seguinte, Mira assinou o projeto de defesa e repovoamento florestal, aprovado pelo governo espanhol ainda em 1897.

Fotografias preservadas pelo Arquivo Geral da Região de Múrcia mostram como a areia já ocupava áreas próximas ao núcleo urbano no início do século 20. O próprio acervo conserva o projeto original, datado de 1897, com mapas, relatórios e registros das propriedades ameaçadas.

Dunas de Guardamar del Segura antes da consolidação do reflorestamento; no início do século 20, grandes áreas próximas à cidade ainda eram dominadas pela areia. – Crédito: Acervo histórico de Guardamar del Segura / Turisme Guardamar.

Antes das árvores, era preciso fazer a areia parar

Plantar árvores diretamente sobre dunas móveis não resolveria o problema. Antes disso, a equipe precisava reduzir o movimento da areia e criar condições para que a vegetação sobrevivesse.

Mira adotou e adaptou métodos europeus de estabilização de dunas, entre eles técnicas associadas ao engenheiro francês Nicolas Brémontier.

Barreiras de madeira, caniços e vegetação resistente eram instaladas para diminuir a força do vento junto ao solo e reter o material transportado.

Espécies pioneiras, como o barrón — Ammophila arenaria —, eram usadas em áreas onde árvores ainda dificilmente sobreviveriam.

O museu dedicado ao engenheiro em Guardamar registra que Mira testou diferentes métodos e dezenas de espécies antes de definir quais se adaptavam melhor às condições locais.

Depois que setores das dunas ficavam mais estáveis, começava o reflorestamento.

Barreiras instaladas nas dunas de Guardamar ajudam a reduzir a força do vento e reter a areia, etapa necessária antes do plantio e da consolidação da vegetação. – Crédito: Acervo histórico de Guardamar del Segura / Turisme Guardamar.

Cerca de 600 mil pinheiros mudaram a paisagem

A operação ganhou proporções enormes ao longo das décadas seguintes. Documentos do próprio município registram 600 mil pinheiros, sobretudo pinheiros-de-Alepo e pinheiros-mansos, além de 40 mil palmeiras e 5 mil eucaliptos utilizados no processo de reflorestamento.

Não bastava colocar mudas no chão.

Foram necessários oito quilômetros de caminhos, 14 quilômetros de estruturas de contenção, três viveiros e três casas florestais, além de instalações para guardar materiais e apoiar trabalhadores.

O Arquivo Geral da Região de Múrcia preserva inclusive uma fotografia feita pelo próprio Francisco Mira em dezembro de 1903. Ela mostra pinheiros jovens plantados naquele mesmo ano e protegidos por linhas de vegetação que ajudavam a reduzir a movimentação da areia.

A população local teve participação direta na execução das obras. A Casa-Museu Ingeniero Mira destaca que moradores e órgãos públicos trabalharam durante décadas na implantação e na manutenção da nova cobertura vegetal.

Engenheiro dizia ter evitado o desaparecimento da cidade

Quando o projeto já demonstrava resultados, Mira registrou que a fixação das dunas havia impedido a areia de continuar avançando sobre Guardamar.

Em um relato histórico atribuído ao engenheiro, ele estimava a população local em aproximadamente 3 mil habitantes e afirmava que os trabalhos haviam evitado que o povoado e os terrenos férteis de sua horta fossem soterrados.

Essa dimensão ajuda a explicar por que Francisco Mira passou a ocupar um lugar tão importante na memória de Guardamar.

Ele dedicou décadas ao projeto e continuou ligado à intervenção mesmo depois das fases iniciais de reflorestamento. A Real Academia de la Historia registra que o engenheiro apresentou o projeto em 1897 e passou boa parte das décadas seguintes publicando estudos sobre os trabalhos realizados nas dunas.

A intervenção se estendeu pelas primeiras décadas do século 20.

Embora diferentes fontes históricas apresentem pequenas variações sobre o início operacional exato e a duração de determinadas fases, o turismo oficial de Guardamar situa o grande processo de reflorestamento entre 1900 e a década de 1930.

Área de 846 hectares virou uma faixa verde junto ao Mediterrâneo

Os 846 hectares citados nos documentos históricos correspondem ao campo dunar que precisava ser estabilizado. Atualmente, o município costuma apresentar a pinada e o sistema dunar protegido como uma área de aproximadamente 800 hectares.

A transformação é especialmente visível no Parque Alfonso XIII, onde árvores crescem sobre terrenos que no início do século passado eram dominados por dunas móveis.

O plano local de prevenção de incêndios de Guardamar ainda identifica o parque como parte do monte público e de uma área protegida, além de destacar estruturas históricas relacionadas à restauração das dunas e ao trabalho de Mira.

A proteção, portanto, não terminou quando as árvores cresceram.

O ambiente continua exigindo manutenção, controle de incêndios, manejo da vegetação e cuidados com o grande número de visitantes que utiliza seus caminhos.

Paisagem atual de Guardamar del Segura mostra vegetação consolidada junto às dunas e ao Mediterrâneo, mais de um século após o início do projeto de estabilização e reflorestamento.

Floresta continua fazendo parte da defesa da cidade

Mais de um século depois, a função original da pinada permanece perceptível na paisagem de Guardamar.

O turismo municipal descreve a área como um extenso bosque dunar que acompanha o litoral, fornece sombra, ajuda a regular a umidade e mantém estabilizada uma região que anteriormente sofria com dunas móveis.

O espaço também se tornou um patrimônio histórico e recreativo. Caminhos atravessam a floresta, antigos viveiros ainda podem ser visitados e a Casa-Museu Ingeniero Mira preserva fotografias, mapas, documentos e equipamentos ligados à obra.

Até uma tradição iniciada durante o reflorestamento permanece ativa.

A Festa da Árvore, criada em Guardamar no início do século 20, continua reunindo moradores e estudantes em atividades de plantio. Em 2025, por exemplo, o município organizou novas plantações dentro do Parque Alfonso XIII.

O legado de Francisco Mira também aparece em monumentos e no próprio nome de ruas da cidade.


Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

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