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Cientistas “transformam” cavalos em zebras, vestem os animais com mantas listradas para desvendar o mistério das faixas que intriga há décadas e acabam vendo moscas passarem reto, errarem o pouso e até baterem no corpo
Escrito por Ana Alice
Publicado em 05/09/2026 às 04:33
Atualizado em 05/09/2026 às 04:34
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Experimento com cavalos e zebras mostrou que as listras não impedem as moscas de se aproximarem, mas parecem atrapalhar justamente os últimos instantes do voo, quando os insetos precisam desacelerar e pousar.
Por muito tempo, as listras pretas e brancas das zebras alimentaram explicações que iam de camuflagem contra predadores à regulação da temperatura.
Um experimento conduzido por pesquisadores ligados à Universidade da Califórnia em Davis e à Universidade de Bristol, porém, colocou cavalos usando diferentes “roupas” no caminho de moscas que picam e revelou um comportamento curioso.
Os insetos continuavam chegando perto dos animais, mas tinham muito mais dificuldade para completar o pouso quando encontravam uma superfície listrada.
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Paulo Nogueira
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Em uma fazenda no Reino Unido, cavalos receberam, em momentos diferentes, mantas pretas, brancas e com faixas semelhantes às de uma zebra.
As moscas conhecidas como tabanídeos, grupo que inclui as chamadas moscas-dos-cavalos, aproximavam-se normalmente.
Quando chegavam às listras, no entanto, os pousos despencavam.
As filmagens ajudaram a mostrar o que acontecia nos últimos instantes do voo.
Em vez de desacelerarem de forma controlada, muitas moscas passavam direto pela superfície ou chegavam a esbarrar nela, comportamento que os pesquisadores também observaram perto de zebras verdadeiras.
O estudo, publicado em fevereiro de 2019 na revista científica PLOS ONE, continua sendo uma das demonstrações experimentais mais conhecidas sobre a possível função das listras das zebras.
Pesquisas posteriores aprofundaram a questão e, até 2026, a hipótese de proteção contra moscas hematófagas permanece entre as explicações com maior apoio experimental, embora o mecanismo visual exato ainda seja discutido.
Cavalos trocaram de “roupa” diante das moscas
Os experimentos ocorreram na Hill Livery, em Dundry, no condado de North Somerset, na Inglaterra, durante períodos de 2016 e 2017.
O local tinha uma vantagem incomum para os cientistas: mantinha zebras-das-planícies e cavalos domésticos em campos próximos, permitindo comparar como os mesmos tipos de insetos se comportavam diante dos dois animais.
Em uma etapa, os pesquisadores acompanharam três zebras e nove cavalos para registrar quantas moscas circulavam, tocavam ou realmente pousavam sobre seus corpos.
Depois veio o teste que transformou o estudo em uma imagem fácil de entender.
Sete cavalos receberam sucessivamente três tipos de manta.
Uma era preta, outra branca e a terceira tinha um padrão irregular de listras pretas e brancas semelhante ao das zebras.
Cada cobertura permaneceu no animal por cerca de 30 minutos, e a ordem foi distribuída aleatoriamente para reduzir interferências no resultado.
As mantas cobriam grande parte do corpo e do pescoço, mas a cabeça dos cavalos permanecia descoberta.
Esse detalhe acabou funcionando quase como um controle natural dentro do próprio experimento.
Moscas continuavam chegando perto dos animais
Se as listras funcionassem simplesmente tornando o animal invisível ou pouco atraente à distância, seria esperado que as moscas deixassem de se aproximar.
Não foi isso que aconteceu.
Os pesquisadores não encontraram diferença significativa na frequência com que os tabanídeos circulavam ao redor de cavalos e zebras.
Em outras palavras, as faixas não pareciam impedir que o inseto encontrasse o animal de longe.
A diferença aparecia nos momentos finais.
Segundo a UC Davis, as moscas chegavam próximas às zebras, mas frequentemente ultrapassavam o corpo ou batiam contra sua superfície em vez de realizar um pouso estável.
O professor Tim Caro, que participou do trabalho, explicou na época que esse comportamento indicava uma possível interferência das listras na capacidade do inseto de controlar o pouso.
As imagens em vídeo permitiram analisar trajetórias em intervalos muito pequenos, acompanhando a posição das moscas durante a aproximação.
O resultado foi particularmente interessante: os tabanídeos não reduziam adequadamente a velocidade quando se aproximavam das zebras, algo necessário para aterrissar de forma controlada.
Mantas listradas receberam muito menos pousos
O teste com as roupas reforçou essa interpretação.
As mantas pretas e brancas uniformes receberam muito mais contatos e pousos do que a cobertura listrada.
Na descrição divulgada pela própria UC Davis, quase nenhuma mosca conseguiu pousar sobre a manta com padrão de zebra quando o resultado foi comparado às coberturas uniformes.
O mais revelador apareceu alguns centímetros adiante.
Como a cabeça dos cavalos continuava descoberta, os pesquisadores também contaram os pousos nessa região.
Ali, não houve diferença significativa relacionada à manta que o animal estava usando.
Ou seja, um cavalo vestido com listras continuava recebendo moscas na cabeça desprotegida, enquanto a região coberta pelo desenho preto e branco apresentava muito menos pousos.
Isso ajudou a afastar uma explicação baseada apenas em cheiro, identidade individual do cavalo ou alguma mudança geral no interesse dos insetos pelo animal.
O efeito estava concentrado justamente na superfície visual coberta pelas listras.
Assista o vídeo
Zebras verdadeiras mostraram o mesmo tipo de vantagem
A experiência não ficou limitada às mantas.
Ao comparar zebras e cavalos reais, os pesquisadores observaram que as moscas circulavam ao redor de ambos, mas um número significativamente menor conseguia pousar nas zebras.
O comportamento dos próprios animais também acrescentava uma segunda camada de proteção.
As zebras movimentavam a cauda com frequência e podiam interromper a alimentação ou até correr quando muito incomodadas pelos insetos.
Os cavalos, por outro lado, apresentavam com maior frequência movimentos da pele para tentar afastá-los.
Como resultado, mesmo entre as poucas moscas que chegavam efetivamente ao corpo das zebras, várias não permaneciam ali por muito tempo.
Isso é relevante porque os tabanídeos observados no experimento são insetos hematófagos.
As fêmeas precisam de sangue para produzir ovos e podem causar incômodo considerável aos animais que atacam.
Em regiões onde zebras evoluíram, diferentes espécies de insetos que se alimentam de sangue também podem participar da transmissão de doenças.
O que exatamente as listras fazem com a visão da mosca
Essa é a parte que continua sendo estudada.
Uma hipótese inicial era que o forte contraste entre preto e branco poderia criar algum tipo de ilusão visual no momento em que a mosca tenta calcular velocidade, distância e movimento antes do pouso.
Outra possibilidade envolvia a maneira como a luz polarizada é refletida pelas diferentes cores.
Em 2023, Tim Caro e colegas voltaram ao problema utilizando cavalos com coberturas de vários desenhos.
O estudo, publicado no Journal of Experimental Biology, indicou que padrões de alto contraste eram particularmente eficientes em reduzir os pousos.
Os pesquisadores não encontraram evidências convincentes de que a polarização da luz fosse a principal explicação.
A hipótese de trabalho apresentada pelo grupo passou a destacar outro detalhe: zebras possuem listras estreitas e muito contrastantes, evitando grandes superfícies escuras e uniformes, justamente áreas que parecem ser especialmente atraentes para as moscas quando elas já estão próximas.
Assim, a resposta pode não ser simplesmente “a mosca fica tonta ao olhar para as listras”.
O que os experimentos mostram com mais segurança é que o padrão interfere na etapa final necessária para que o inseto consiga chegar, desacelerar e permanecer sobre o corpo.
Estudos posteriores continuam tentando resolver a última parte do mistério
A discussão não parou em 2019 nem em 2023.
Um trabalho publicado em 2025 explorou novamente a possibilidade de que o padrão repetitivo das listras produza informações de movimento enganosas quando processado pelos olhos compostos dos insetos.
Essa pesquisa propôs um mecanismo baseado em aliasing, uma espécie de erro de amostragem visual capaz de gerar a percepção de movimentos que não correspondem exatamente ao estímulo real.
A proposta é compatível com o comportamento observado nos experimentos, mas não encerrou a questão sobre o mecanismo biológico.
Uma revisão científica publicada em 2025 no Biological Reviews avaliou diferentes explicações para a aparência das zebras e concluiu que a proteção contra moscas continua sendo a hipótese com maior suporte empírico, embora sozinha ainda não explique perfeitamente todas as diferenças de listras entre espécies, populações e partes do corpo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ana Alice.

