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Colecionador paga cerca de R$ 260 por um quadro de pescador numa venda de garagem em 2016, manda a peça para análise e descobre que pode ter comprado um Van Gogh de R$ 78 milhões, enquanto o museu do pintor insiste que a obra não é dele
Escrito por Bruno Teles
Publicado em 11/09/2026 às 10:47
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A empresa LMI Group afirmou em janeiro de 2025 que Elimar, quadro de um pescador comprado por menos de US$ 50 numa venda de garagem em Minnesota, é um Van Gogh de 1889 potencialmente avaliado em US$ 15 milhões. O Museu Van Gogh analisou o relatório e manteve a rejeição.
Um quadro de um pescador fumando cachimbo, comprado por menos de US$ 50 (cerca de R$ 260) em uma venda de garagem em Minnesota, nos Estados Unidos, pode ser uma obra perdida de Vincent van Gogh, segundo a empresa de ciência de dados LMI Group. A tela, chamada Elimar, foi atribuída ao pintor pela empresa depois de uma análise científica e estilística, e teria valor potencial de US$ 15 milhões (cerca de R$ 78 milhões). O Museu Van Gogh, em Amsterdã, rejeita a atribuição.
As informações foram publicadas pela Artnet News em 29 de janeiro de 2025, em reportagem de Jo Lawson-Tancred atualizada em 31 de janeiro. O texto reúne o relatório da LMI Group, a resposta do museu e um dado do Wall Street Journal sobre o custo da investigação.
Comprador consultou o Museu Van Gogh em 2018, ouviu “não” em 2019 e vendeu o quadro à LMI Group
Em 2018, o comprador de Elimar enviou uma consulta ao Museu Van Gogh, em Amsterdã, na expectativa de ter nas mãos uma obra-prima. O museu respondeu em 2019: após examinar as informações enviadas, concluiu, “com base em características estilísticas”, que a obra não podia ser atribuída ao artista.
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Ainda em 2019, o proprietário vendeu a pintura, por valor não divulgado, à LMI Group. A empresa de ciência de dados tem sede em Nova York e havia sido fundada no ano anterior, em 2018.
LMI Group data Elimar em 1889 e vê releitura de um retrato do dinamarquês Michael Ancher
A LMI Group afirmou em janeiro de 2025 que a pintura “órfã” foi feita por Van Gogh em 1889, perto do fim da vida do artista, quando ele vivia no asilo de Saint-Paul, no sul da França. A palavra “Elimar”, rabiscada no canto inferior direito da tela, é o nome de uma personagem do romance As Duas Baronesas, de Hans Christian Andersen, publicado em 1848.
A empresa acredita, porém, que a cena seja a interpretação de Van Gogh para uma obra parecida: Retrato de Niels Gaihede, do artista dinamarquês Michael Ancher. “A análise realizada nesta pintura singular proporciona uma nova perspectiva sobre a obra de Van Gogh, particularmente no que diz respeito à sua prática de reinterpretar obras de outros artistas”, afirmou Maxwell L. Anderson, historiador de arte e diretor de operações da LMI Group.
Museu Van Gogh analisou o relatório e mantém que a pintura não é autêntica
O Museu Van Gogh, em Amsterdã, é a principal autoridade sobre a autenticidade de pinturas atribuídas ao artista. Um porta-voz da instituição disse que, depois de considerar as novas informações do relatório da LMI Group, “mantemos nossa opinião de que esta não é uma pintura autêntica de Vincent van Gogh”.
LMI Group reclama que museu gastou “menos de um dia útil” para rejeitar relatório de 456 páginas
Em comunicado de 31 de janeiro de 2025, a LMI Group disse estar perplexa com a resposta. Segundo a empresa, o museu “investiu menos de um dia útil para rejeitar sumariamente os fatos apresentados em nosso relatório de 456 páginas sem oferecer qualquer explicação, muito menos estudar a pintura diretamente em vez de analisá-la reproduzida em formato JPEG”.
A empresa também relatou tentativas dela e do antigo proprietário de contatar o museu sobre a obra, todas rejeitadas, e criticou as “opiniões frequentemente revisadas pelo museu sobre a autoria das obras de Van Gogh” diante das complexidades da autenticação.
Investigação custou mais de US$ 30 mil, segundo o Wall Street Journal
A LMI Group afirma ter reunido especialistas de diferentes áreas, de químicos a curadores, para desenvolver uma abordagem “baseada em dados” na análise do quadro. O trabalho custou mais de US$ 30 mil, de acordo com o Wall Street Journal, citado pela Artnet.
O método combinou a expertise tradicional, que considera análise formal, procedência e contexto histórico, com técnicas científicas mais recentes. O relatório completo, com as descobertas e um amplo contexto histórico para situar a pintura na obra de Van Gogh, foi publicado na internet.
Pescador em vista de três quartos lembra os quatro autorretratos de Van Gogh de 1889
Na análise visual tradicional, a tela foi comparada a pinturas autênticas conhecidas de Van Gogh e, segundo a empresa, apresenta semelhanças significativas. A principal é a escolha de mostrar o pescador em vista de três quartos, como nos quatro autorretratos que o artista fez em 1889.
A LMI Group sustenta que, no último ano de vida, Van Gogh, hospitalizado, deixou as cores vibrantes que o caracterizavam e adotou uma paleta mais sóbria, como a de Elimar. No mesmo período, ele fez diversas “traduções” de obras de outros artistas encontradas em livros, de acordo com a empresa.
Pigmento do século XIX, camada de clara de ovo e fio de cabelo ruivo: os testes físicos
Um teste do pigmento datou a pintura no século XIX. A mesma análise constatou que a superfície recebeu uma camada temporária de clara de ovo, recurso que Van Gogh costumava usar para proteger telas enroladas.
Um fio de cabelo humano encontrado incrustado na superfície passou por análise de DNA. O material pertencia a um homem, e os cientistas responsáveis “observaram” que parecia ser de cor vermelha, segundo o relatório.
Letras de “Elimar” tiveram até 94% de semelhança com “Emile Zola” em quadro de 1885
O método mais experimental fez uma comparação “matemática” minuciosa das letras de “Elimar”, no canto inferior direito, com palavras presentes em pinturas conhecidas de Van Gogh. A principal comparação foi com “Emile Zola”, escrito na obra Natureza Morta com Bíblia, de 1885.
A análise apontou semelhanças em características como comprimento e largura do traço, tamanho da borda e ângulo, com semelhança medida em 94% em alguns casos. Van Gogh não assinava todas as telas, o que, segundo a reportagem, explica a ausência de assinatura em Elimar.
Empresa vê em Elimar um “autorretrato espiritual” de Van Gogh
A LMI Group também sugeriu uma leitura autobiográfica do quadro. O comunicado de imprensa que anunciou a descoberta descreve o artista, que “reimagina a si mesmo como um homem mais velho e sábio, retratado contra o céu sereno esculpido com espátula e a extensão lisa da água, evocando o interesse pessoal de Van Gogh pela vida no mar ao longo de sua vida”.
Segundo o comunicado, a composição evoca O Pescador Pobre (1881), de Pierre Puvis de Chavannes, obra que Van Gogh supostamente admirava. “Por meio de Elimar, Van Gogh cria uma forma de autorretrato espiritual, permitindo que os espectadores vejam o pintor como ele desejava ser lembrado”, disse Anderson.
Fundadores da LMI Group incluem ex-diretor do Whitney Museum e ex-investidor de Wall Street
Maxwell L. Anderson dirigiu o Whitney Museum of American Art entre 1998 e 2003 antes de fundar a LMI Group. Os sócios são Lawrence M. Shindell, ex-advogado e presidente da empresa, e Steven P. Novak, diretor financeiro e ex-investidor de Wall Street.
“A abordagem baseada em dados do LMI Group para verificar a autoria desta pintura representa um novo padrão de confiança para trazer à luz obras desconhecidas ou esquecidas de artistas importantes”, disse Shindell. Ele acrescentou que a empresa pretende “expandir e adaptar os recursos disponíveis para autenticação de arte” ao integrar ciência e tecnologia com conhecimento especializado, contexto histórico, análise formal e pesquisa de proveniência.
Procedência de Elimar antes de 2016 é desconhecida
A LMI Group não informou como Elimar foi parar em uma venda de garagem em Minnesota. No relatório, a empresa alega que Van Gogh perdeu muitas obras em vida, ao doá-las a amigos ou por negligência.
A empresa não apresentou nenhuma informação sobre a procedência do quadro antes de 2016. Segundo a Artnet, isso indica que a suposta pintura de Van Gogh era completamente desconhecida dos estudiosos até então, já que os catálogos raisonnés costumam listar as obras perdidas de um artista, destruídas ou desaparecidas.
Museu já rejeitou desenhos autenticados em 2016 e hoje recebe cerca de 40 pedidos por ano
O Museu Van Gogh já rejeitou obras autenticadas por entidades independentes. Em 2016, a especialista Bogomila Welsh-Ovcharov autenticou desenhos que, segundo ela, pertenciam a um caderno de esboços do artista de 1888 e os publicou no livro Vincent van Gogh: O Caderno de Esboços Perdido de Arles. O museu contestou a autenticidade depois.
Como muitas fundações de artistas, o museu já foi ameaçado com ações judiciais por disputas passadas e deixou de aceitar pedidos de autenticação de pessoas do público. Os interessados precisam do apoio de especialistas renomados, exigência que reduziu o número de solicitações anuais de várias centenas para cerca de 40.
Exposição em Londres atraiu 334.589 visitantes, e startups apostam em autenticação baseada em dados
Se a pintura for autêntica, certamente despertará grande entusiasmo entre colecionadores e apreciadores de arte, segundo a Artnet. Uma exposição de obras do fim da vida de Van Gogh na National Gallery, em Londres, realizada pouco antes da reportagem, bateu o recorde de público do museu, com 334.589 visitantes.
Novas abordagens científicas de autenticação ganharam popularidade na última década, mas ainda não são comuns no mercado. No fim de 2024, a empresa suíça Art Recognition usou ferramentas baseadas em dados para autenticar três obras oferecidas pela casa de leilões Germann, em Zurique. Uma delas, aquarela sem título e sem data atribuída à expressionista alemã Marianne von Werefkin, tinha essa certificação como a única listada e foi vendida por CHF 15 mil (US$ 17 mil) em 25 de novembro, acima da estimativa máxima de US$ 9.300.
Museu mantém rejeição, e LMI Group convida especialistas a ver Elimar pessoalmente
Até a atualização da reportagem, em 31 de janeiro de 2025, o Museu Van Gogh mantinha a posição de que Elimar não é uma pintura autêntica de Vincent van Gogh, e a LMI Group sustentava a atribuição feita em seu relatório de 456 páginas. A empresa convidou especialistas e negociantes de obras de Van Gogh a agendar uma visita particular para examinar a tela pessoalmente.
Na sua opinião, uma análise baseada em dados como a da LMI Group deveria pesar tanto quanto a avaliação do Museu Van Gogh para decidir se Elimar é ou não um Van Gogh? Deixe sua opinião nos comentários.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Bruno Teles.

