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Em 1871, uma família desistiu de viver em uma ilha vulcânica remota e abandonou somente cinco bovinos; mais de um século depois, cientistas encontraram quase 2 mil descendentes selvagens, descobriram um dos maiores níveis de consanguinidade já registrados em uma população próspera de mamíferos e tentaram entender como o pequeno rebanho contrariou previsões da genética, sobreviveu sem ajuda humana e escapou de um colapso considerado praticamente inevitável
Escrito por Caio Aviz
Publicado em 17/09/2026 às 12:46
Atualizado em 17/09/2026 às 13:30
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Abandonados em uma ilha vulcânica e condenados pela genética a desaparecer, cinco bovinos desafiaram o isolamento, originaram quase 2 mil descendentes selvagens e obrigaram pesquisadores a investigar como o rebanho suportou níveis extremos de consanguinidade, adaptou-se sem qualquer ajuda humana e ainda provocou uma transformação ambiental que ameaçou espécies raras durante mais de um século
Em janeiro de 1871, o agricultor francês Heurtin desembarcou com a família na Ilha de Amsterdã, um território vulcânico praticamente isolado no sul do Oceano Índico. Ele pretendia transformar aquele ambiente hostil em uma pequena propriedade rural.
A tentativa, porém, fracassou rapidamente. O clima, o isolamento e as dificuldades para produzir alimentos obrigaram a família a abandonar a ilha em agosto daquele mesmo ano. Antes de partir, o grupo deixou alguns animais, incluindo somente cinco bovinos.
Tudo indicava que o pequeno rebanho desapareceria. Afinal, uma população formada por tão poucos indivíduos enfrentaria falta de diversidade genética, cruzamentos entre parentes próximos e maior risco de doenças hereditárias.
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Entretanto, aconteceu justamente o contrário.
Ao longo das décadas seguintes, os bovinos sobreviveram sem qualquer intervenção humana. Mais do que isso: eles se multiplicaram até formar uma população de aproximadamente 2 mil animais, ocupando cerca de 3 mil hectares da ilha.
O caso, recuperado em reportagem do Olhar Digital sobre os bovinos abandonados em 1871, transformou-se em uma rara experiência natural sobre adaptação, isolamento e consanguinidade.
Agora, análises genômicas ajudam a explicar como aqueles cinco animais originaram um rebanho numeroso em um dos ambientes mais isolados do planeta.
Família abandonou a ilha após sete meses, mas cinco bovinos permaneceram
A Ilha de Amsterdã fica a milhares de quilômetros das áreas continentais mais próximas. Apesar do nome, ela não está perto da capital dos Países Baixos.
O território pertence à França e integra as Terras Austrais e Antárticas Francesas. A própria administração oficial das TAAF classifica as ilhas de Saint-Paul e Amsterdã entre seus distritos austrais, onde mantém pesquisas e projetos de preservação.
Com aproximadamente 55 quilômetros quadrados, a ilha apresenta relevo vulcânico, ventos fortes e condições meteorológicas instáveis. Sua localização também dificultava qualquer tentativa de abastecimento regular no século XIX.
Heurtin chegou ao local em 18 de janeiro de 1871. Contudo, a experiência agrícola durou somente sete meses. Em 19 de agosto, a família deixou definitivamente o território.
Os bovinos abandonados encontraram vegetação suficiente para sobreviver. Sem cercas, predadores ou manejo humano, passaram a ocupar áreas cada vez maiores.
Com o tempo, os animais perderam características comportamentais associadas ao gado doméstico. Eles se tornaram ariscos, independentes e adaptados à vida selvagem.
O aumento populacional surpreende porque todos os descendentes vieram de um grupo fundador extremamente pequeno. Em condições normais, isso provocaria um intenso gargalo genético.
Rebanho chegou perto de 2 mil animais apesar da consanguinidade extrema
Quando poucos indivíduos originam uma população inteira, parentes próximos inevitavelmente se reproduzem. Esse processo aumenta a consanguinidade e reduz a variedade de genes disponíveis.
Além disso, mutações prejudiciais podem aparecer com maior frequência. Entre as possíveis consequências estão baixa fertilidade, problemas imunológicos, deformações, menor resistência ambiental e dificuldade de sobrevivência.
Esse fenômeno recebe o nome de depressão endogâmica. Durante muito tempo, pesquisadores consideraram que populações iniciadas por poucos animais dificilmente cresceriam sem apresentar perdas biológicas graves.
Os bovinos da Ilha de Amsterdã, entretanto, alcançaram um dos maiores níveis conhecidos de consanguinidade em uma população próspera de mamíferos. O coeficiente chegou perto de 0,30.
Mesmo assim, o rebanho continuou crescendo e não apresentou sinais evidentes de colapso reprodutivo. A população alcançou aproximadamente 2 mil animais antes da adoção de medidas de controle.
O caso não significa que a consanguinidade seja inofensiva. Na verdade, mostra que seus efeitos dependem de vários fatores. Entre eles estão a composição genética dos fundadores, as pressões ambientais e a seleção natural ocorrida durante as gerações.
A genética também pode mudar populações humanas ao longo do tempo. Em outro exemplo, o CPG mostrou como povos indígenas dos Andes desenvolveram uma adaptação genética relacionada ao consumo de batatas, após milhares de anos de pressão ambiental e alimentar.
Mistura genética pode ter favorecido os sobreviventes
Uma equipe internacional reconstruiu a história do rebanho por meio de dados genéticos. O estudo foi publicado em 2024 na revista científica Molecular Biology and Evolution.
Na pesquisa intitulada “Genomic Reconstruction of the Successful Establishment of a Feralized Bovine Population”, os cientistas compararam amostras dos bovinos da ilha com diferentes raças.
Os resultados indicaram que os animais fundadores não pertenciam a uma única linhagem homogênea. Eles carregavam uma combinação de ancestralidade de bovinos europeus e zebus do Oceano Índico.
Cerca de 73% da ancestralidade estava associada a bovinos taurinos europeus, próximos da raça Jersey. Os outros 27% apresentavam relação com zebus de Madagascar e Mayotte.
Essa mistura pode ter oferecido uma diversidade inicial maior do que o número de cinco animais sugere. Embora a população fundadora fosse pequena, seu patrimônio genético reunia características provenientes de grupos distintos.
Os pesquisadores também não encontraram evidências fortes de que o isolamento tenha provocado um grande aumento da carga de mutações prejudiciais. Ao mesmo tempo, os resultados não sustentam uma explicação baseada na eliminação completa dessas variantes.
Portanto, a sobrevivência provavelmente resultou de vários mecanismos combinados. A diversidade presente nos fundadores, a seleção natural e características previamente favoráveis ao ambiente contribuíram para o crescimento.
A análise também encontrou sinais de seleção em regiões genéticas relacionadas ao sistema nervoso e à resposta comportamental. Essas mudanças podem ter ajudado animais originalmente domésticos a enfrentar ameaças, alterações climáticas e a ausência de cuidados humanos.
Os dados sugerem uma transformação rápida de bovinos domesticados em uma população selvagem. Contudo, essas associações genéticas não comprovam, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito.
Hipótese de nanismo insular não foi confirmada
Durante anos, o tamanho relativamente pequeno dos bovinos levantou uma possibilidade intrigante. Alguns pesquisadores consideraram que os animais teriam passado por um rápido processo de nanismo insular.
Esse fenômeno ocorre quando espécies de grande porte ficam isoladas em ambientes com território e alimentos limitados. Ao longo das gerações, indivíduos menores podem obter vantagens porque precisam de menos energia para sobreviver.
Entretanto, a análise genética não confirmou que os bovinos tenham diminuído rapidamente após chegar à Ilha de Amsterdã.
Os dados indicaram que os fundadores provavelmente já descendiam de linhagens com menor estatura. Portanto, o porte dos animais pode ter sido herdado, em vez de representar uma transformação causada exclusivamente pela ilha.
Além disso, as alterações mais expressivas apareceram em regiões ligadas ao sistema nervoso, ao comportamento e à cognição. Isso reforça a possibilidade de que a adaptação comportamental tenha exercido papel mais importante do que uma grande mudança física.
Crescimento do rebanho criou um grave problema ambiental
A impressionante expansão dos bovinos teve um preço elevado para a biodiversidade. Os animais consumiam a vegetação, pisoteavam áreas sensíveis e impediam a regeneração da floresta nativa.
A presença do rebanho também afetou locais utilizados por aves marinhas. Entre as espécies ameaçadas estava o albatroz-de-amsterdã, considerado uma das aves marinhas mais raras do planeta.
O Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis identifica a ilha como o único local de reprodução conhecido dessa espécie criticamente ameaçada.
Em 1987, autoridades construíram uma cerca para restringir os bovinos a uma parte da ilha. A medida reduziu a área ocupada e permitiu o início da recuperação da vegetação em outros pontos.
O rebanho caiu de aproximadamente 2 mil para cerca de 600 indivíduos. Posteriormente, o governo francês decidiu eliminar os animais restantes para restaurar o ecossistema original. A erradicação terminou em 2010.
Outras ilhas também sofreram consequências profundas após a introdução de animais estrangeiros. O CPG relatou como uma espécie invasora provocou o desaparecimento de mais de 90% das aves de Guam, alterando florestas e transformando a ilha em um alerta mundial.
Assim, uma das populações bovinas selvagens mais incomuns do planeta deixou de existir. Entretanto, amostras biológicas preservadas permitiram que os pesquisadores reconstruíssem sua história genética anos depois.
O episódio oferece lições importantes para programas de conservação. Ele mostra que uma população pequena não está automaticamente condenada, embora o risco genético continue elevado.
Também revela como espécies introduzidas podem prosperar e, ao mesmo tempo, causar danos profundos a ambientes insulares.
Para os cientistas, aqueles cinco bovinos deixados em 1871 provaram que a capacidade de adaptação pode superar expectativas. Para a ilha, porém, o sucesso dos animais representou mais de um século de pressão ecológica.
Você imaginava que somente cinco bovinos poderiam originar quase 2 mil descendentes e sobreviver durante tantas gerações em completo isolamento? Deixe nos comentários.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Caio Aviz.

