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Enquanto o mundo estava mergulhado na Segunda Guerra Mundial, fome devastou Ruanda, matou até um terço da população e obrigou multidões a abandonar suas casas entre 1943 e 1944
Escrito por Débora Araújo
Publicado em 08/09/2026 às 14:54
Atualizado em 08/09/2026 às 14:55
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Entre 1943 e 1944, seca, doenças nas plantações e exigências impostas pelo esforço de guerra agravaram uma crise devastadora em Ruanda; dezenas de milhares morreram e multidões abandonaram suas casas.
Enquanto os grandes exércitos da Segunda Guerra Mundial disputavam territórios na Europa, Ásia e norte da África, outra tragédia avançava silenciosamente sobre uma população submetida ao domínio colonial belga. Não eram bombas que destruíam as comunidades. Era a fome. Entre 1943 e 1944, uma grave crise alimentar conhecida como Ruzagayura atingiu Ruanda, então parte do território colonial de Ruanda-Urundi, administrado pela Bélgica. A combinação de períodos de seca, doenças agrícolas e pressões relacionadas ao esforço de guerra provocou uma catástrofe cuja mortalidade é estimada em dezenas de milhares de pessoas.
Algumas estimativas históricas apontam entre 36 mil e 50 mil mortos, números associados em determinadas reconstruções a algo entre um quinto e um terço da população da área considerada. A dimensão exata permanece sujeita a diferenças entre estimativas e recortes históricos, por isso a proporção máxima não deve ser tratada como um consenso absoluto. A tragédia começou por volta de outubro de 1943 e se prolongou durante boa parte de 1944. Um estudo do historiador Dantès Singiza, apresentado à Universidade de Liège em 2011, aponta que a fome se espalhou por quase todo o território de Ruanda.
Ruanda estava sob domínio da Bélgica
Para compreender a tragédia é necessário voltar algumas décadas. Ruanda e Burundi faziam parte anteriormente da África Oriental Alemã. Após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, a Bélgica assumiu a administração do território que ficou conhecido como Ruanda-Urundi. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região continuava sob administração belga. Embora estivesse distante dos principais campos de batalha, a população local não ficou isolada das consequências econômicas do conflito.
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O esforço de guerra aumentou a pressão sobre trabalhadores, plantações e produção de alimentos. Produtos agrícolas e animais eram requisitados ou direcionados para atender demandas relacionadas ao Congo Belga e ao esforço aliado. Esse contexto se tornaria particularmente perigoso quando as condições ambientais começaram a piorar.
A chuva desapareceu e as plantações começaram a fracassar
A Ruzagayura não teve apenas uma causa. O trabalho de Dantès Singiza, baseado inclusive em documentos dos arquivos coloniais belgas e registros de missionários, aponta uma combinação de fatores. Um dos mais importantes foi a seca.
Períodos sucessivos de baixa precipitação afetaram a produção agrícola. A situação foi agravada por agentes destrutivos que atingiram plantações, incluindo míldio e rizoctonia. Com uma população fortemente dependente da agricultura para sobreviver, a perda das colheitas rapidamente se transformou em falta de comida. Mas a natureza explica apenas parte da história.
O esforço de guerra tornou a situação ainda pior
Enquanto as famílias precisavam preservar cada vez mais alimentos, as exigências relacionadas à Segunda Guerra Mundial continuavam. O estudo de Singiza identifica os trabalhos ligados ao esforço de guerra entre os fatores que contribuíram para a crise. Também destaca que a fome foi agravada pelas requisições de alimentos e de gado.
Uma síntese educacional da Open University sobre a Ruzagayura registra que produtos agrícolas e animais eram demandados para abastecer necessidades relacionadas ao Congo Belga, trabalhadores das minas e forças britânicas estacionadas na região.
Alimentos saíam justamente de uma região que começava a enfrentar dificuldades para alimentar seus próprios habitantes. Seca, pragas agrícolas e pressões econômicas acabaram se sobrepondo. Por volta de outubro de 1943, a crise assumiu proporções dramáticas.
Pessoas passaram a procurar qualquer coisa que pudesse ser comida
À medida que os estoques desapareceram, as alternativas também diminuíram. Registros históricos descrevem pessoas enfraquecidas percorrendo regiões afetadas procurando alimento e recorrendo a plantas silvestres e outras fontes de nutrição disponíveis. Famílias começaram a trocar seus próprios bens por comida. O cenário se deteriorava rapidamente.
A Open University, ao recuperar pesquisas históricas sobre o episódio, descreve corpos encontrados pelas estradas e habitantes extremamente debilitados vagando em busca de alguma coisa para comer. A fome já não era apenas escassez. Era uma crise de sobrevivência.
Autoridades demoraram a reconhecer a dimensão da tragédia
Um dos aspectos mais graves revelados pela pesquisa histórica envolve a reação inicial das autoridades. Segundo Singiza, a administração colonial soube da existência da fome algum tempo depois de seu início. Alguns funcionários belgas e ruandeses chegaram a ocultar a existência da crise, enquanto outros negavam sua gravidade.
A circulação deficiente das informações provocou conflitos dentro da própria administração colonial. O residente Jean Paradis, por exemplo, foi acusado de não transmitir adequadamente as informações que possuía ao vice-governador-geral Eugène Jungers. O episódio acabou contribuindo para sua destituição e transferência para o Congo. Enquanto autoridades discutiam responsabilidades, a população continuava enfrentando a escassez.
Missionários e autoridades começaram a distribuir alimentos
Quando a dimensão da Ruzagayura finalmente foi reconhecida, medidas emergenciais começaram a ser adotadas. A administração colonial organizou o fornecimento de alimentos e confiou parte de sua distribuição a missionários cristãos. Centros de acolhimento passaram a receber pessoas atingidas pela fome. Chefes e subchefes forneceram vacas leiteiras e animais destinados ao abate para alimentar a população.
Também foram distribuídas enxadas, sementes, mudas de mandioca e batata-doce, numa tentativa de reconstruir a capacidade agrícola das comunidades. A partir de janeiro de 1944, parte da população voltou a cultivar campos e áreas de várzea. E finalmente aconteceu aquilo de que todos dependiam. A chuva retornou com maior regularidade.
As colheitas voltaram, mas milhares já haviam morrido
Com a recuperação das chuvas e a retomada da agricultura, as colheitas começaram gradualmente a melhorar. Durante a segunda metade de 1944, centros criados para atender as vítimas puderam começar a fechar. Mas a recuperação chegou tarde demais para dezenas de milhares de pessoas.
As estimativas históricas mais frequentemente reproduzidas apontam aproximadamente 36 mil a 50 mil mortes associadas à fome. Outros estudos apresentam números diferentes, mostrando como é difícil determinar com precisão a mortalidade em uma população colonial da década de 1940.
Por isso, a afirmação de que “até um terço da população” morreu precisa ser entendida como uma estimativa histórica máxima, e não como uma contagem definitiva. Independentemente do número exato, a escala humana da tragédia foi enorme. E as mortes foram apenas uma de suas consequências.
Multidões deixaram suas casas para tentar sobreviver
A fome desencadeou intensos deslocamentos populacionais. Pessoas abandonaram as regiões afetadas e seguiram principalmente em direção ao Congo Belga, além de outros territórios vizinhos, como Uganda. A própria administração chegou a transferir populações ainda vulneráveis para áreas de Gishari e Mokoto, no território de Masisi, no Congo Belga.
O estudo de Singiza conclui que a Ruzagayura provocou importantes movimentos populacionais e também aumento de crimes relacionados à sobrevivência, incluindo furtos de alimentos. Para muitas famílias, atravessar a fronteira não era simplesmente uma escolha migratória. Era uma tentativa de continuar vivas.
A fome também aumentou a revolta contra o sistema colonial
As consequências da Ruzagayura ultrapassaram a mortalidade e a migração. O sofrimento alimentou ressentimentos contra diferentes estruturas de autoridade. Segundo a pesquisa histórica, a combinação da fome com trabalhos obrigatórios, requisições e outras imposições fez crescer a oposição contra chefes locais, a monarquia, a administração colonial e até missionários.
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Singiza observa que algumas pessoas teriam começado inclusive a imaginar a emancipação do país diante daquele contexto. A catástrofe alimentar, portanto, também deixou consequências políticas. A população não enfrentava apenas uma seca excepcional. Enfrentava uma crise que ocorria dentro de um sistema colonial capaz de determinar como trabalho, animais e produção agrícola seriam utilizados.
Uma tragédia praticamente escondida pela guerra
Enquanto Ruanda enfrentava a fome, o restante do mundo acompanhava acontecimentos que definiriam o século XX. Em 1943 e 1944, a Segunda Guerra Mundial avançava em várias frentes. A Alemanha nazista ainda ocupava a própria Bélgica, enquanto o governo belga funcionava no exílio. A atenção internacional estava voltada para batalhas, invasões e para a tentativa dos Aliados de derrotar as potências do Eixo.
A crise africana recebeu comparativamente pouca atenção fora da região. A Open University observa que, embora autoridades no Congo e integrantes do governo belga no exílio tivessem conhecimento da situação, a população da Bélgica ocupada não acompanhava da mesma maneira a catástrofe que ocorria no território administrado pelo país. A fome acabou ficando durante décadas à margem das narrativas internacionais mais conhecidas sobre a Segunda Guerra Mundial.
Ruanda nunca esqueceria a Ruzagayura
Quando 1944 terminou, a situação alimentar havia melhorado. Mas comunidades tinham perdido parentes, propriedades e plantações. Muitas pessoas haviam deixado definitivamente suas regiões de origem. A experiência também provocou mudanças destinadas a reduzir o risco de uma nova catástrofe.
Registros históricos apontam a distribuição de novas sementes e culturas, além da criação de estruturas para armazenamento de alimentos. Estudos posteriores sobre o patrimônio de Ruanda identificam ainda obras construídas no período seguinte por iniciativa do rei Mutara III Rudahigwa como respostas à fome de 1943–1944.
Ruanda e Burundi alcançariam a independência apenas em 1962. A Ruzagayura permaneceria como uma das lembranças mais duras do período colonial. Mais de oito décadas depois, a tragédia mostra por que grandes fomes raramente podem ser explicadas apenas pela ausência de chuva.
Fonte
Estudo de Dantès Singiza
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Débora Araújo.

