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Entregador e motorista de aplicativo integram os 2 milhões de brasileiros que já trabalham por plataforma, com jornada maior e cobertura previdenciária mínima, mostra pesquisa do IBGE feita com MPT e Unicamp
Escrito por Douglas Avila
Publicado em 17/09/2026 às 20:57
Atualizado em 17/09/2026 às 21:10
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O trabalho por aplicativos chegou a cerca de 2 milhões de pessoas no Brasil em 2025, e o retrato estatístico que saiu do convênio entre o Ministério Público do Trabalho, a Unicamp e o IBGE mostra que esse contingente roda mais horas por semana para chegar ao mesmo dinheiro no fim do mês.
O número corresponde a 1,9% de todos os ocupados do país, segundo o módulo temático da PNAD Contínua divulgado em 15 de setembro.
Quando se contam apenas os que têm a plataforma como ocupação principal, o total fica em 1,8 milhão de trabalhadores.
Esse grupo cresceu 9,1% em um ano. Na comparação com 2022, o salto é de 36,8%.
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Ou seja, em três anos o contingente que vive principalmente de plataforma aumentou mais de um terço, enquanto o mercado formal caminhou em ritmo bem mais lento no mesmo período.
Cinco horas e meia a mais por semana pelo mesmo salário
Aqui está o dado que resume a pesquisa inteira. Os profissionais de aplicativos cumprem, em média, 5,4 horas a mais de jornada semanal para obter renda equivalente à de quem não trabalha por plataforma.
São quase um dia útil extra por mês, só para empatar.
Conforme a pesquisa, essa hora a mais não aparece no contracheque de ninguém, porque não existe contracheque: ela some dentro da corrida seguinte, do turno esticado, do domingo que virou expediente.
A diferença aparece também no rendimento por hora: R$ 16,20 para quem roda por aplicativo, contra R$ 18,40 no trabalho formal, uma distância de 12%.
Os entregadores são o grupo que mais cresce
Entre as ocupações pesquisadas, a de entregador por aplicativo teve a expansão mais acelerada, com alta de 18,6% entre 2024 e 2025.
Segundo o levantamento, o setor de transporte, armazenagem e correio concentra a maior fatia dessa mão de obra.
Nele, 75% dos profissionais operam por meio de plataformas digitais. Ou seja, três em cada quatro trabalhadores dessas atividades dependem do aplicativo para gerar renda.
Oito em cada dez são homens, e a maioria entrou por falta de opção
O perfil predominante combina atuação informal e ampla maioria masculina: 84,4% do grupo cuja atividade principal vem de plataformas.
Entre motoristas e entregadores, a motivação mais citada para aderir aos aplicativos foi a falta de alternativas no mercado de trabalho convencional.
A flexibilidade de horários aparece depois, em segundo lugar. A ordem dessas duas respostas desmonta boa parte do discurso publicitário do setor.
A informalidade é quase o dobro da média
Enquanto a informalidade atinge 42,7% dos trabalhadores fora das plataformas, o índice sobe para 72,1% entre os plataformizados.
Na prática, isso afasta essas pessoas de direitos como descanso semanal remunerado, férias e 13º salário.
Durante uma semana de gripe, portanto, quem está formalizado recebe e quem está no aplicativo simplesmente não fatura, e ainda perde posição nos indicadores internos da plataforma.
Não é um detalhe contratual. É o que separa uma semana de folga paga de uma semana sem faturamento nenhum.
Dois terços ficam fora da Previdência
Somente 34% dos profissionais de aplicativos contam com cobertura previdenciária, contra 63% no restante da iniciativa privada.
No entanto, quem está fora não tem auxílio por incapacidade temporária, pensão por morte nem aposentadoria vinculada àquele trabalho.
Na rua, isso significa que uma queda de moto com fratura vira zero de renda no dia seguinte, sem nenhuma rede embaixo.
A procuradora fala em falsa autonomia
Clarissa Ribeiro Schinestsck, procuradora responsável pela cooperação, avaliou o cenário na nota divulgada pelo órgão.
“A transformação digital e o uso de novas ferramentas tecnológicas não podem significar a desconstrução dos direitos sociais nem a normalização de jornadas exaustivas sob o manto de uma falsa autonomia”, disse.
Para ela, o estudo comprova a sobrecarga e o desamparo previdenciário enfrentados diariamente por esses trabalhadores, e serve de base fática para a regulação do setor.
O pesquisador da Unicamp aponta piora em relação a 2024
José Dari Krein, do CESIT da Unicamp, afirmou que os indicadores de proteção previdenciária, rendimento por hora e jornada pioraram na comparação com o ano anterior.
“As plataformas combinam baixa proteção social, jornadas extensas e menores rendimentos por hora, mantendo o controle sobre preços, clientes e organização da atividade”, declarou.
E acrescentou a frase que fecha o raciocínio: “A tecnologia não elimina a subordinação: modifica seus instrumentos, enquanto transfere custos e riscos aos trabalhadores”.
Por que essa pesquisa é diferente das anteriores
O levantamento não é enquete de aplicativo nem pesquisa de associação setorial. Ele entrou no módulo temático da PNAD Contínua, a mesma base que mede desemprego e renda no país.
Isso permite comparar plataformizados e não plataformizados com a mesma régua, no mesmo período, o que até agora praticamente não existia.
O convênio de cooperação técnica e científica foi firmado entre MPT, Unicamp e IBGE, conforme informa a procuradoria de Campinas.
O que esse número muda no debate da regulamentação
Toda discussão sobre regras para o setor esbarrava na falta de dado oficial. Agora existe um, produzido pelo instituto de estatística do país.
Dessa forma, argumentos sobre jornada, rendimento por hora e contribuição previdenciária passam a ter número de referência, e não estimativa de parte interessada.
Dois milhões de pessoas, vale lembrar, é população de capital média brasileira inteira trabalhando sob o mesmo arranjo.
E o crescimento continua puxado pela ponta mais frágil, a da entrega, que é também a que tem menos barreira de entrada: basta ter uma moto ou uma bicicleta, um celular e disposição para rodar.
A conta que o entregador faz no fim do dia
Quem está na rua já sabia do essencial: roda-se mais para ganhar o mesmo, e o que sobra não vira contribuição nem descanso.
A novidade é que agora isso está em nota oficial do Ministério Público do Trabalho, com percentual, hora e rendimento medidos.
Olhando assim, o dado mais duro talvez não seja nenhum dos percentuais, e sim a resposta sobre por que essas pessoas entraram: porque não havia outra porta aberta.
E você, o que você acha: 5,4 horas a mais por semana pelo mesmo dinheiro ainda pode ser chamado de flexibilidade?
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Fonte
Ministério Público do Trabalho
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Douglas Avila.

