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Família se muda para nova casa e conhece vizinho idoso que morava sozinho, começa a levá-lo à igreja e incluí-lo em aniversários e feriados até transformá-lo em parte da família; uma década depois, aos 87 anos, ele ganha aparelhos auditivos pagos, ajuda financeira e até convite para morar com eles se precisar
Escrito por Carla Teles
Publicado em 08/09/2026 às 11:56
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Aos 87 anos, Delmar Harter ainda vivia sozinho em Los Angeles, mas parte crescente de sua rotina já contava com uma rede informal construída ao longo de mais de uma década com os vizinhos Julissa Gomez e sua família. O apoio passou de companhia em igreja e refeições para verificação de compras e medicamentos, transporte a consultas, ajuda com despesas, pagamento de aparelhos auditivos e planejamento para uma eventual perda de autonomia.
O caso começou em 2015, quando Julissa tinha 18 anos e se mudou com os pais para uma casa ao lado da residência de Delmar. Mas a principal transformação ocorrida nos anos seguintes não foi apenas o aprofundamento de uma relação entre vizinhos. Foi a formação gradual de uma rede capaz de sustentar parte das necessidades instrumentais de uma pessoa idosa que deseja continuar vivendo em sua própria casa.
Nos Estados Unidos, esse modelo é conhecido como aging in place, expressão usada para descrever o envelhecimento na própria residência pelo maior tempo possível. O National Institute on Aging, ligado aos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, destaca que permanecer em casa pode exigir planejamento antecipado e uma combinação de parentes, amigos, vizinhos, profissionais e serviços comunitários conforme as necessidades mudam.
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Aos 87 anos, Delmar ainda vive sozinho, mas já conta com apoio em tarefas da rotina
Os relatos publicados em 2026 deixam uma distinção importante: Delmar não havia deixado de morar sozinho nem havia sido descrito como incapaz de administrar a própria vida. Julissa afirmou que ele continuava independente e que uma eventual mudança de residência era apenas uma possibilidade para o futuro.
Ao mesmo tempo, Julissa e o marido, Anthony, já faziam verificações frequentes sobre necessidades práticas. Perguntavam se Delmar precisava de mantimentos, se havia prescrições a buscar ou se precisava de transporte para consultas médicas. A renda e as despesas também entraram posteriormente nessa rede, principalmente com recursos obtidos pelo livro escrito pelos dois e por uma campanha privada criada para ajudar nos custos.
Essa combinação ajuda a explicar por que independência não significa necessariamente fazer todas as tarefas sem ajuda. O NIA inclui compras, preparação de refeições, transporte, administração doméstica, cuidados pessoais e suporte relacionado à saúde entre os serviços que podem permitir que alguém continue vivendo em casa.
No caso de Delmar, não há relato de que ele precise de auxílio para atividades básicas como banho, alimentação ou mobilidade dentro de casa. O apoio documentado está concentrado principalmente em atividades instrumentais da vida cotidiana, como compras, obtenção de medicamentos, deslocamentos e administração de algumas despesas.
Rede de apoio começou depois que nova família chegou ao bairro em 2015
A estrutura que hoje funciona como rede informal começou sem qualquer planejamento assistencial. Em 2015, Julissa e os pais chegaram à nova casa em Los Angeles e Delmar foi até os vizinhos se apresentar, levando recortes de tirinhas de jornal como forma de boas-vindas. Julissa tinha 18 anos.
Pouco depois, os pais passaram a levá-lo à igreja aos domingos e a almoçar com ele. Delmar também começou a participar de aniversários e feriados da família. Segundo Julissa, ele nunca se casou e seus parentes viviam em outros estados, o que fazia dos vizinhos sua rede geograficamente mais próxima.
Essa primeira fase era predominantemente social. Ainda não envolvia uma rotina ampla de acompanhamento prático.
Sua importância para o envelhecimento aparece justamente no que aconteceu depois: uma relação comunitária preexistente estava disponível quando surgiram necessidades mais concretas, evitando que todo o suporte precisasse ser organizado somente após uma emergência ou perda súbita de independência.
Convivência passou de companhia para ajuda com saúde, transporte e despesas
A dinâmica mudou especialmente depois de 2020, quando o pai de Julissa morreu. Até então, os pais dela haviam iniciado grande parte dos encontros. Depois da perda, Julissa e Anthony assumiram uma participação maior na rotina de Delmar.
Além de manterem algumas atividades sociais, passaram a perguntar regularmente se ele precisava de compras, prescrições ou transporte para consultas médicas. Não se trata de assistência clínica prestada pelos vizinhos, mas de suporte logístico que pode ser determinante para uma pessoa continuar acessando alimentação, medicamentos e atendimento de saúde sem abandonar a própria residência.
O National Institute on Aging descreve exatamente esse tipo de combinação na assistência domiciliar: familiares e amigos podem assumir algumas tarefas, enquanto outras exigem serviços comunitários ou profissionais. Conforme as necessidades aumentam, suporte pago ou especializado pode se tornar necessário.
Esse é também o ponto em que o caso deixa de ser apenas convivência entre vizinhos. A rede passa a exercer funções típicas do cuidado informal, ainda que Delmar continue morando de forma independente.
Perda auditiva colocou custo de saúde entre as necessidades apoiadas pela rede
Outro passo ocorreu quando uma despesa relacionada à audição entrou na rede de suporte. Julissa e Delmar publicaram em 2025 o livro infantil The Friendship Next Door with Delmar. Parte dos recursos obtidos começou a ser direcionada às despesas de vida e saúde de Delmar.
Segundo Julissa, o dinheiro permitiu quitar o custo dos aparelhos auditivos de Delmar. Ela lhe comunicou que a despesa havia sido paga, e a reação do idoso foi registrada em vídeo. O momento emocional permaneceu como parte da história, mas o episódio também expõe uma questão objetiva: equipamentos capazes de manter comunicação e participação cotidiana podem representar uma despesa adicional durante o envelhecimento.
A perda auditiva relacionada à idade é comum. O National Institute on Deafness and Other Communication Disorders informa que quase metade das pessoas acima de 75 anos apresenta dificuldade para ouvir. O problema pode dificultar conversas, compreensão das orientações dadas por médicos e percepção de telefones, campainhas, alarmes e outros avisos.
Por isso, audição não é apenas uma questão de conforto. Aparelhos auditivos e outras tecnologias assistivas podem melhorar a capacidade de comunicação e participação nas atividades diárias. O NIDCD ressalta ainda que dificuldades auditivas podem reduzir a comunicação com familiares e amigos e contribuir para isolamento.
No caso de Delmar, não há informação pública suficiente para estabelecer o grau de sua perda auditiva ou afirmar quais limitações ela provocava. O que está documentado é que os aparelhos passaram a integrar as despesas de saúde cobertas pela rede construída ao redor dele.
Campanha privada passou a complementar despesas que surgiram com o envelhecimento
O apoio financeiro não ficou limitado ao livro. Em 13 de fevereiro de 2025, Julissa criou uma campanha no GoFundMe destinada a Delmar. A página menciona despesas, consultas médicas futuras e a intenção de reduzir preocupações financeiras, mantendo privados os detalhes relacionados à saúde.
Essa iniciativa pode ser entendida como mais uma camada de financiamento informal. Segundo o relato de Julissa ao Upworthy, Delmar anteriormente dependia de seu benefício da Previdência Social americana, enquanto posteriormente a receita do projeto editorial começou a contribuir para despesas de vida e saúde.
Nos Estados Unidos, o financiamento de cuidados de longa duração pode reunir várias fontes. O NIA explica que idosos podem utilizar renda própria, poupança, aposentadoria, programas governamentais, seguros ou financiamento privado, enquanto familiares e amigos frequentemente começam oferecendo gratuitamente transporte ou cuidados pessoais. À medida que as necessidades aumentam, serviços pagos podem ser necessários.
Uma campanha de financiamento coletivo não equivale a benefício público, seguro ou programa assistencial. Ela depende de doações privadas e não oferece a previsibilidade de uma política permanente. Por isso, o GoFundMe de Delmar funciona como complemento da rede existente, não como substituto de renda previdenciária, cobertura de saúde ou planejamento formal de longo prazo.
Morar sozinho não significa abandono, mas pode aumentar necessidade de planejamento
O fato de Delmar viver sozinho também precisa ser separado da ideia de abandono. Morar sozinho pode representar uma escolha de autonomia, e milhões de americanos com mais de 65 anos permanecem em suas próprias residências sem viver com parentes.
Dados do 2023 Profile of Older Americans, produzido pela Administration for Community Living com base em informações do Census Bureau, mostram que aproximadamente 28% dos americanos com 65 anos ou mais que viviam na comunidade moravam sozinhos em 2023, cerca de 16,2 milhões de pessoas. Entre os homens idosos, eram 22%; entre as mulheres, 33%. A proporção aumenta nas idades mais avançadas e chegava a 42% entre mulheres com 75 anos ou mais.
Ao mesmo tempo, a população idosa americana está aumentando. O mesmo levantamento mostra que o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 34% entre 2012 e 2022, de 43,1 milhões para 57,8 milhões, e está projetado para continuar crescendo nas próximas décadas.
Isso amplia a relevância de redes capazes de apoiar pessoas que permanecem em casa. Não porque viver sozinho seja necessariamente um problema, mas porque mudanças na mobilidade, audição, saúde, renda ou capacidade de realizar tarefas podem alterar rapidamente o volume de assistência necessário.
O próprio NIA recomenda que famílias e idosos não esperem uma crise para discutir essas possibilidades. O planejamento pode começar enquanto a pessoa ainda toma suas próprias decisões e permanece funcionalmente independente.
Envelhecer na própria casa exige combinar autonomia com rede de suporte
O conceito de aging in place descreve justamente essa tentativa de permanecer na própria casa durante o envelhecimento. Para o National Institute on Aging, muitas pessoas querem continuar no ambiente em que vivem e manter a independência pelo maior tempo possível, recorrendo a familiares e amigos quando necessário.
Mas permanecer no mesmo endereço não significa que a estrutura de cuidado permaneça igual. O NIA recomenda avaliar antecipadamente quais tarefas a pessoa consegue executar, quais serviços já precisa e quais poderá precisar no futuro, além de considerar segurança da residência, deslocamentos, condições de saúde e custos.
O suporte pode evoluir em camadas. No início, pode bastar uma carona ou ajuda com compras. Em outra etapa, podem surgir entrega de refeições, administração de medicamentos, cuidados pessoais, fisioterapia, enfermagem domiciliar ou gerenciamento profissional de cuidados.
Delmar apresenta uma versão inicial desse modelo. Ele permanece em sua casa, enquanto tarefas que poderiam dificultar a permanência no domicílio são parcialmente absorvidas por pessoas próximas.
É importante, porém, não concluir que esse arranjo será suficiente indefinidamente. O princípio do aging in place não é manter alguém em casa a qualquer custo, mas equilibrar preferência pessoal, independência e segurança à medida que as condições mudam.
Vizinhos e familiares podem formar rede informal, mas não substituem cuidado profissional
O cuidado exercido por Julissa e Anthony se aproxima do que instituições especializadas definem como cuidado informal. O NIA afirma que cuidados de longa duração em casa são frequentemente fornecidos por familiares, amigos e vizinhos.
A Family Caregiver Alliance utiliza uma definição ainda mais direta: cuidador familiar ou informal pode ser um parente, companheiro, amigo ou vizinho que mantém relação pessoal significativa e presta diferentes formas de auxílio a uma pessoa idosa ou adulta com condição incapacitante.
Esse modelo tem grande peso no sistema americano. Dados divulgados pela AARP e pela National Alliance for Caregiving em 2026 estimam que mais de 51 milhões de americanos cuidavam de alguém com 50 anos ou mais, com média de cinco anos de cuidado e cerca de 26 horas semanais dedicadas às tarefas entre os participantes analisados.
Entretanto, uma rede informal tem limites. Uma pessoa próxima pode verificar mantimentos, oferecer transporte, ajudar na organização cotidiana ou perceber mudanças de comportamento, mas necessidades clínicas, cuidados pessoais intensivos, reabilitação e determinadas condições funcionais podem exigir trabalhadores treinados e serviços especializados.
É justamente por isso que o modelo mais sustentável não coloca família, vizinhos e profissionais como alternativas excludentes. Eles podem compor níveis diferentes de uma mesma rede.
No caso de Delmar, não há evidência pública de necessidade atual de enfermagem domiciliar ou de cuidado profissional permanente. O planejamento descrito por Julissa é preventivo: reconhecer que o nível de assistência poderá mudar antes que essa mudança aconteça.
Possibilidade de morar com Julissa antecipa discussão sobre perda de autonomia
A questão de longo prazo aparece de maneira mais clara na moradia. Em junho de 2026, Julissa relatou que ela e Anthony ainda moravam com sua mãe e procuravam uma casa na mesma região justamente para permanecer próximos das pessoas a quem davam suporte.
Ela também afirmou que Delmar poderia morar com o casal se algum dia deixasse de conseguir viver de forma independente. A mudança não ocorreu. A oferta funciona como um plano possível para uma etapa futura, não como descrição da situação atual.
Essa antecipação é compatível com as recomendações do NIA para cuidados de longa duração. A instituição orienta que decisões sobre residência sejam discutidas antes de uma necessidade intensa de ajuda, porque isso permite pesquisar custos, serviços e alternativas enquanto o próprio idoso ainda pode participar plenamente das decisões.
As opções não se resumem a “morar sozinho” ou “ir para uma instituição”. Dependendo da capacidade funcional, renda, condições da casa e disponibilidade de suporte, podem incluir permanecer na residência com ajuda externa, morar com parentes, utilizar moradia assistida ou recorrer a estruturas de cuidados de longa duração.
No caso de Delmar, a oferta de Julissa cria uma alternativa antecipada caso o equilíbrio atual — morar sozinho com ajuda externa — deixe de funcionar.
Serviços públicos e comunitários podem complementar redes familiares de cuidado
O contexto de Los Angeles também mostra que vizinhos e familiares não são as únicas fontes possíveis de apoio. O condado mantém uma rede de serviços voltados a permitir que pessoas idosas permaneçam com segurança e independência em suas casas e comunidades, embora não exista informação de que Delmar utilize qualquer um deles.
Um exemplo é o Supportive Services Program, voltado a moradores com 60 anos ou mais em áreas atendidas do Condado de Los Angeles que apresentam limitações funcionais ou precisam de suporte para permanecer independentes. O programa pode envolver gestão de caso, ajuda pessoal, preparação de refeições, tarefas domésticas e compras.
Na Califórnia, o In-Home Supportive Services, conhecido como IHSS, oferece assistência domiciliar a pessoas idosas, cegas ou com deficiência que cumpram os critérios de elegibilidade, com a finalidade explícita de evitar cuidados fora de casa e permitir permanência segura no próprio domicílio.
A alimentação também possui estrutura específica. O Elderly Nutrition Program do Condado de Los Angeles oferece refeições em espaços comunitários e entrega de alimentos a determinados idosos que não conseguem sair de casa, com foco em nutrição, independência e redução da insegurança alimentar.
O deslocamento é outra frente. O condado reúne informações sobre transporte público com tarifa reduzida, serviços de paratrânsito e mecanismos de encaminhamento para alternativas disponíveis em cada região. A oferta e os requisitos variam conforme o programa.
Há ainda o sistema Aging and Disability Resource Connection, que oferece informação, encaminhamento, aconselhamento sobre opções de cuidado e coordenação de serviços de curto prazo para pessoas que precisam navegar entre diferentes formas de assistência.
Esses programas demonstram uma diferença essencial entre rede informal e rede formal. Uma pode começar espontaneamente entre parentes, amigos ou vizinhos; a outra reúne profissionais, critérios de elegibilidade, financiamento e serviços organizados. Para permitir aging in place por períodos prolongados, as duas podem precisar funcionar de maneira complementar.
Caso mostra como envelhecer sozinho pode exigir rede crescente de suporte
Delmar continuava independente e vivendo sozinho aos 87 anos nos relatos publicados em 2026. Não há base para descrevê-lo como abandonado, incapaz ou dependente de cuidado permanente.
O que mudou foi a estrutura existente ao redor dele.
Uma convivência iniciada em 2015 passou gradualmente a abranger compras, obtenção de medicamentos, transporte para consultas, apoio financeiro, equipamentos para audição e discussão antecipada sobre onde Delmar poderá morar caso algum dia não consiga manter sua independência.
Essa progressão transforma o caso em exemplo concreto de um problema maior. À medida que uma pessoa envelhece, permanecer no próprio domicílio pode depender não apenas de sua condição clínica, mas também de transporte, alimentação, audição, renda, acessibilidade, disponibilidade de pessoas próximas e acesso a serviços profissionais.
O modelo adotado ao redor de Delmar começou de maneira informal, mas já reúne algumas das funções que políticas de aging in place tentam organizar em escala maior: preservar autonomia enquanto existe capacidade para viver sozinho e preparar alternativas antes que uma necessidade mais intensa de cuidados obrigue decisões emergenciais.
Na sua opinião, cidades deveriam ampliar serviços de transporte, assistência domiciliar e apoio comunitário para permitir que mais idosos continuem vivendo com autonomia em suas próprias casas? Conte nos comentários.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Carla Teles.

