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Jovem passa mais de 40 horas à deriva no mar, percorre mais de 100 km, sofreu com desidratação e queimaduras até ser resgatado por família em iate: Rafie Nadi usava apenas boia e nadadeiras quando foi separado do amigo pelas ondas e tentou pedir ajuda a vários barcos até ser encontrado a 13 milhas da costa espanhola
Escrito por Andriely Medeiros de Araújo
Publicado em 05/09/2026 às 07:15
Atualizado em 05/09/2026 às 07:16
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Jovem de 23 anos passou mais de 40 horas no Mediterrâneo, percorreu mais de 100 km e foi resgatado por uma família perto da costa espanhola.
Quando os ocupantes de um iate perceberam um pequeno ponto no meio do Mediterrâneo e recorreram a binóculos para entender o que estavam vendo, Rafie Nadi, um jovem de 23 anos, já havia passado mais de 40 horas no mar. Sem terra à vista, desidratado, exausto e com a pele castigada pela exposição prolongada ao sol e à água salgada, ele tentava apenas permanecer à tona.
O resgate ocorreu em julho, cerca de 13 milhas náuticas ao sul de Benalmádena, na Costa del Sol, na Espanha. A posição surpreendeu até quem o encontrou: Nadi havia partido do norte do Marrocos e acabou carregado pelas correntes por mais de 100 quilômetros. Quando finalmente conseguiu agarrar uma corda lançada pelo barco, não sabia por quanto tempo ainda conseguiria resistir.
Família percebeu um pequeno ponto no mar e decidiu se aproximar
Os ocupantes do iate estavam navegando em direção às Ilhas Baleares quando avistaram algo muito distante da embarcação. À medida que se aproximaram, perceberam que se tratava de uma pessoa sozinha no mar.
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Nadi começou a acenar com os braços. Do outro lado, os tripulantes passaram a observá-lo com binóculos antes de conduzir o barco até uma distância que permitisse o resgate.
Uma corda foi lançada, e o jovem conseguiu segurá-la. Depois de puxá-lo para bordo, a família lhe ofereceu água, comida, roupas e proteção após o longo período de exposição.
O momento ficou registrado em vídeo. Nas imagens feitas durante a aproximação, Nadi aparece minúsculo diante da extensão de água ao redor. Mais tarde, já no convés, seu estado físico revelava o impacto das dezenas de horas passadas no Mediterrâneo.
Jovem tentou pedir ajuda a cerca de cinco embarcações
O iate que interrompeu a viagem não foi o primeiro barco avistado por Nadi.
Durante o período em que ficou à deriva, ele contou ter tentado chamar a atenção de aproximadamente cinco embarcações. Em uma delas, segundo seu relato, havia muitas pessoas a bordo, e o barco passou relativamente perto.
Ele acenou e gritou por socorro repetidas vezes, mas não conseguiu ser resgatado.
A cada tentativa frustrada, aumentava a sensação de que talvez não conseguisse sair do mar. Nadi procurou conservar energia, deixando-se levar pelas correntes e reservando forças para sinalizar caso outra embarcação aparecesse no horizonte.
O medo também vinha acompanhado de um pensamento recorrente: a mãe, que ele não via havia cinco anos.
Plano que deveria durar poucas horas se transformou em dois dias no Mediterrâneo
Nadi havia entrado no mar acompanhado de um amigo de 17 anos. Os dois esperavam chegar a Ceuta, território espanhol localizado no norte da África, depois de algumas horas de travessia.
A expectativa era completar o percurso em aproximadamente cinco ou seis horas.
O cenário começou a mudar quando amanheceu e eles ainda estavam longe do destino. As condições do mar os empurraram para uma região cada vez mais distante da rota imaginada.
Depois de mais de oito horas na água, os dois amigos acabaram separados pelas ondas e pelas correntes.
Sem conseguir encontrar o adolescente e cercado apenas pelo mar, Nadi passou a enfrentar sozinho o restante da travessia. Ele não conseguia ver terra e não sabia exatamente para onde estava sendo levado.
Jovem havia deixado o Egito cinco anos antes para ajudar a família
A tentativa de chegar à Europa fazia parte de uma trajetória iniciada muito antes daquela noite.
Nadi nasceu em Minya, cidade localizada na margem oeste do rio Nilo, no Egito, e deixou o país cinco anos antes. O objetivo era encontrar uma forma de trabalhar e ajudar financeiramente os pais e os oito irmãos mais novos.
Antes disso, tinha o desejo de estudar Medicina, plano que acabou deixado para trás diante das necessidades familiares.
Quando entrou no Mediterrâneo, carregava também a esperança de reencontrar a mãe depois de anos de separação. Durante os momentos em que acreditou que poderia morrer, contou ter pensado repetidamente nela e rezado para que conseguisse sobreviver.
Sua família sabia que ele tentava chegar ao território espanhol, mas desconhecia a decisão de fazer parte do percurso pelo mar.
Falta de dinheiro havia limitado as opções consideradas pelos dois amigos
Antes da tentativa, Nadi e o adolescente haviam buscado outras formas de chegar a Ceuta, sem sucesso.
Segundo ele, os dois não tinham os 3 mil a 4 mil euros cobrados por contrabandistas para realizar a travessia. Diante da falta de recursos, decidiram tentar o mar por conta própria.
Eles se prepararam fisicamente durante semanas e acreditavam que a experiência como bons nadadores seria suficiente para um percurso que imaginavam relativamente curto.
A realidade mostrou outra dimensão do risco. A força do mar alterou completamente o trajeto, separou os dois e transformou as poucas horas previstas em mais de 40 horas de sobrevivência.
Amigo de 17 anos também conseguiu sobreviver
Depois que Nadi foi retirado da água, o iate encontrou uma embarcação do serviço de salvamento marítimo espanhol.
O jovem foi transferido e levado ao porto de Málaga, onde ficou sob os cuidados da Cruz Vermelha e das autoridades.
Pouco depois veio uma notícia que ele já não sabia se receberia: o amigo de 17 anos também havia sobrevivido. O adolescente havia sido encontrado na costa próxima a Málaga.
Nadi conseguiu falar com ele por telefone e ouviu sua voz pela primeira vez desde que o mar os havia separado.
O telefonema seguinte foi para a família. Emocionado, contou aos parentes que estava vivo e havia conseguido chegar à Europa, mas evitou revelar naquele primeiro momento todos os detalhes das dezenas de horas que passara no Mediterrâneo.
Sobrevivência ocorreu em uma rota marcada por centenas de mortes
A experiência de Nadi ocorreu em meio aos riscos enfrentados por migrantes que tentam alcançar o território europeu pelo Mediterrâneo.
Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), pelo menos 572 pessoas morreram no ano anterior tentando chegar à Espanha a partir do norte da África.
O caso ganhou repercussão justamente pela combinação incomum entre distância percorrida, tempo de exposição e sobrevivência. Nadi não estava em uma embarcação e dependia basicamente da capacidade de permanecer à tona enquanto as correntes o afastavam do ponto de origem.
Quando foi encontrado, apresentava sinais claros do desgaste provocado pelo período no mar. Vídeos posteriores ao resgate mostram o egípcio praticamente sem conseguir se mover ou falar.
Chegada à Europa não trouxe a realidade que o jovem imaginava
Depois do resgate, Nadi permaneceu cerca de duas semanas em um centro administrado pela Cruz Vermelha. Mais tarde, foi liberado diante da inexistência de um acordo de repatriação entre Espanha e Egito.
A sobrevivência encerrou o perigo imediato, mas abriu outro período de incerteza.
Ele acreditava que poderia começar a trabalhar logo após chegar à Espanha. Sem documentação regularizada, porém, encontrou dificuldades muito maiores do que havia imaginado.
O jovem passou então a concentrar seus esforços na tentativa de conseguir documentos e encontrar emprego, afirmando estar disposto a trabalhar no que fosse possível.
Ao refletir sobre o caminho percorrido, ele próprio passou a questionar se todo o sofrimento havia valido a pena. A Europa que imaginava antes da travessia parecia diferente depois que chegou.
Vídeo do próprio resgate tornou-se lembrança do limite entre sobreviver e desaparecer
As imagens gravadas pela família que o encontrou continuam tendo impacto sobre Nadi.
Toda vez que assiste ao vídeo, ele vê de fora aquilo que viveu no mar: um homem praticamente invisível na imensidão do Mediterrâneo, distante da costa e dependente de que alguém percebesse seus movimentos.
A localização final ajuda a dimensionar como a tentativa saiu completamente do controle. O jovem percorreu mais de 100 quilômetros desde o ponto de partida e terminou nas proximidades da costa espanhola depois de duas noites e mais de um dia inteiro à deriva.
O encontro com o iate aconteceu quando sua resistência física já estava no limite. Meses depois, ao recordar a experiência, Nadi passou a resumir o episódio menos pela conquista de ter chegado à Europa e mais pelo fato de ainda estar vivo.
Depois de sobreviver ao Mediterrâneo e rever nas imagens a distância que o separava de qualquer ajuda, ele passou a expressar um desejo diferente daquele que tinha antes de entrar no mar: que ninguém precise repetir o caminho que quase lhe custou a vida.
Fonte
The Guardian
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Andriely Medeiros de Araújo.

