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Megaerupção da caldeira Lauca cobriu uma área seis vezes maior que Santiago há 21,9 milhões de anos e preservou sob até 1 km de rocha um retrato de como os Andes ainda estavam nascendo
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 20/09/2026 às 10:33
Atualizado em 20/09/2026 às 10:34
Ciência e Tecnologia
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Erupção de 21,9 milhões de anos cobriu área seis vezes maior que Santiago no Chile até 1 km de ignimbrito, preservando pistas de que os Andes subiam menos de 0,26 km por milhão de anos.
Uma erupção gigantesca no norte do Chile cobriu uma paisagem inteira com cinzas, gases e fragmentos de rocha há 21,9 milhões de anos. O material vulcânico endureceu, permaneceu sobre o terreno por milhões de anos e acabou funcionando como uma espécie de molde geológico capaz de revelar como os Andes estavam crescendo antes de serem soterrados.
O depósito analisado é o ignimbrito de Cardones, associado à caldeira Lauca, na atual região de Arica e Parinacota. Segundo pesquisadores da University College London, o volume lançado pela erupção foi suficiente para recobrir uma área cerca de seis vezes maior que Santiago e formar camadas que chegaram a aproximadamente 1 quilômetro de espessura em alguns pontos.
A comparação com Pompeia surgiu porque o processo preservou informações sobre uma paisagem que normalmente teria sido apagada pela erosão e pela deformação tectônica. A diferença de escala é enorme: em vez de uma cidade romana, o material vulcânico cobriu vales, encostas e redes de drenagem de uma porção dos Andes ainda muito mais baixa que a cordilheira atual.
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Uma montanha de material vulcânico cobriu vales e encostas inteiras
Ignimbritos se formam quando correntes piroclásticas extremamente quentes avançam sobre o terreno durante grandes erupções explosivas. Essas correntes misturam cinza, gases e fragmentos de rocha e podem preencher depressões, atravessar vales e criar superfícies amplas quando o material finalmente se deposita e endurece.
No caso de Cardones, trabalhos anteriores já haviam mostrado que o episódio ocorreu no início do Mioceno, há cerca de 21,9 milhões de anos, e envolveu mais de mil quilômetros cúbicos de material vulcânico. O depósito cobriu grande parte da encosta ocidental dos Andes Centrais e, em setores preservados, manteve uma superfície surpreendentemente suave.
Essa superfície foi a chave do novo estudo. A equipe percebeu que o manto vulcânico funcionava como um limite geométrico para a paisagem antiga. Se montanhas altas e muito íngremes já existissem ali antes da erupção, seus picos e cristas provavelmente teriam atravessado o depósito ou deixado uma assinatura muito diferente na forma final do ignimbrito.
Os pesquisadores mediram uma inclinação original de aproximadamente 1,5 grau para a superfície do fluxo vulcânico. Isso indicou que o relevo enterrado precisava ser relativamente suave, mais parecido com colinas e sopés de montanhas do que com os picos abruptos que hoje caracterizam boa parte dos Andes.
Centenas de paisagens virtuais mostraram que a cordilheira crescia devagar
Para reconstruir algo que não pode ser simplesmente escavado, os cientistas recorreram a modelos de evolução da paisagem. Eles simularam centenas de terrenos possíveis, variando a velocidade com que a crosta era empurrada para cima e a capacidade dos rios de cortar e desgastar as rochas ao longo de milhões de anos.
O princípio é direto: quando o levantamento tectônico é rápido, rios e encostas tendem a desenvolver gradientes mais fortes e relevos mais acidentados. Quando o levantamento é lento, a erosão tem mais tempo para reduzir as diferenças de altitude, deixando formas mais suaves. A equipe então comparou essas paisagens virtuais com a geometria realmente preservada pelo ignimbrito de Cardones.
O resultado colocou um teto para a velocidade de crescimento naquela parte da cordilheira. Antes da erupção, as rochas estavam sendo levantadas a menos de 0,26 quilômetro por milhão de anos. Isso corresponde a cerca de 26 centímetros a cada mil anos, ou aproximadamente 2,5 centímetros por século.
O valor é pequeno quando comparado a setores de cadeias montanhosas muito ativas, onde levantamento e erosão podem ocorrer em ritmos de milímetros ou até centímetros por ano. O cenário chileno indica um processo tectônico longo e persistente, capaz de construir a cordilheira ao longo de dezenas de milhões de anos.
O achado pesa numa disputa antiga sobre quando os Andes realmente ganharam altura
Há décadas, geólogos discutem se os Andes cresceram de maneira relativamente constante ao longo de 40 ou 50 milhões de anos ou se permaneceram baixos durante boa parte desse intervalo e subiram muito mais rapidamente nos últimos 6 a 10 milhões de anos.
Os novos cálculos favorecem a primeira explicação para a região estudada. O relevo que existia antes da erupção de Lauca precisaria ter se desenvolvido lentamente durante milhões de anos para atingir a forma suave inferida pelos modelos. O resultado também é compatível com estudos que usam minerais como relógios térmicos para acompanhar a ascensão de rochas pela crosta.
O trabalho não afirma que toda a cordilheira tenha crescido exatamente na mesma velocidade. Os Andes se estendem por milhares de quilômetros, atravessam diferentes zonas tectônicas e registram fases distintas de deformação. A nova análise oferece um limite robusto para uma parte dos Andes Centrais durante uma etapa específica de sua formação.
A descoberta também ajuda a explicar por que uma erupção destrutiva pode se transformar em um arquivo científico. Ao sepultar rapidamente o terreno, o fluxo vulcânico isolou sinais da topografia anterior e criou uma superfície datada que pode ser comparada com modelos de erosão e levantamento tectônico.
O mesmo método pode revelar paisagens enterradas em outras regiões vulcânicas
Os pesquisadores acreditam que a técnica pode ser aplicada em outros lugares onde grandes depósitos de ignimbrito conservaram superfícies antigas. Em vez de depender apenas de minerais e datações pontuais, os cientistas podem usar a própria geometria de uma camada vulcânica para estimar como era o relevo e com que velocidade a crosta estava subindo antes da erupção.
O método abre uma nova janela para reconstruir capítulos desaparecidos da história geológica. Paisagens antigas quase sempre são modificadas pela chuva, pelos rios, por deslizamentos e pelo próprio movimento das placas tectônicas. Quando uma erupção cobre rapidamente uma área extensa, parte dessas informações pode sobreviver protegida no registro rochoso.
Isso também tem implicações climáticas. A elevação dos Andes interfere na circulação atmosférica, nas chuvas e na distribuição de ambientes em grande parte da América do Sul. Saber quando a cordilheira ganhou altura ajuda a entender como essas mudanças geológicas influenciaram a evolução do clima regional ao longo de milhões de anos.
No norte do Chile, uma catástrofe ocorrida quando os Andes ainda estavam em formação acabou preservando exatamente as pistas que hoje permitem medir esse crescimento. O que parecia apenas uma enorme camada de rocha vulcânica se tornou um registro de uma cordilheira jovem, levantando-se centímetro por centímetro ao longo do tempo geológico. Você imaginava que uma erupção pudesse preservar informações sobre a velocidade de crescimento de uma cadeia de montanhas? Comente e compartilhe a matéria.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

