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Inscrição em bloco de arenito de 3.200 anos achado em Tell Abu Seifi traz os títulos de Ramsés II e cita Hórus como ‘Senhor da Cidade de Mesen’, reforçando uma busca arqueológica que já dura quase 140 anos perto do Canal de Suez
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 20/09/2026 às 09:18
Atualizado em 20/09/2026 às 10:59
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Inscrição de 3.200 anos com títulos de Ramsés II surge perto do Canal de Suez e reforça hipótese de que Tell Abu Seifi esconda a cidade perdida de Mesen na antiga rota militar do Egito
Um bloco de arenito quebrado em duas partes pode ter colocado os arqueólogos diante de uma das pistas mais fortes já encontradas para localizar Mesen, uma cidade do Egito antigo conhecida em textos, mas cuja posição exata permaneceu incerta por gerações. A peça surgiu em Tell Abu Seifi, perto do Canal de Suez, e foi gravada há cerca de 3.200 anos com os títulos de Ramsés II e uma referência direta a Hórus como senhor da cidade.
O achado foi anunciado pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito após novas escavações em Qantara East, na província de Ismailia. A inscrição ocupa um grande lintel de arenito, elemento que originalmente ficava sobre uma entrada, e registra também a restauração de uma estátua de Hórus de Mesen. Para a equipe egípcia, essa combinação reforça fortemente a ligação do sítio com a cidade procurada.
A descoberta não fecha o caso. Pesquisadores envolvidos e especialistas externos ainda pedem mais evidências antes de tratar Tell Abu Seifi e Mesen como o mesmo lugar. Mesmo assim, a nova inscrição muda o peso da discussão porque foi encontrada dentro de um conjunto arqueológico que inclui templo, muralhas, estradas e objetos associados a diferentes fases de ocupação.
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Pedra com Ramsés II reacende uma busca que começou em 1887
A dúvida sobre Mesen não nasceu agora. Em 1887, pedras encontradas em Tell Abu Seifi já traziam o nome de Ramsés II e referências a Hórus de Mesen. O problema é que escavações antigas não haviam identificado, de forma convincente, uma ocupação do local no período de Ramsés II, que governou no século XIII a.C.
Essa lacuna alimentou uma hipótese alternativa: os blocos poderiam ter sido transportados de outro sítio, especialmente Tell Hebua, identificado com a antiga fortaleza de Tjaru. Um estudo publicado em 2013 por James Hoffmeier e Stephen Moshier discutiu justamente essa possibilidade, mantendo aberta a disputa sobre a localização real de Mesen.
O novo lintel muda a conversa porque surgiu durante uma campanha arqueológica que está redefinindo a própria planta de Tell Abu Seifi. A equipe escavou uma grande parede de tijolos de barro, com portões, salas internas e várias fases de construção. O que antes era interpretado como parte do templo passou a ser entendido como uma muralha que cercava todo o complexo religioso.
Dentro dessa área, arqueólogos encontraram depósitos, salas de serviço e vestígios do santuário. A peça de Ramsés II apareceu nessa área escavada e traz, em três lados, títulos reais e a menção à restauração de uma imagem de Hórus, divindade intimamente associada a Mesen.
Mesen ficava numa rota militar usada pelos exércitos do Egito rumo ao Oriente
Tell Abu Seifi está próximo da antiga Via de Hórus, uma rota estratégica que conectava o delta oriental do Nilo ao Sinai e ao sul do Levante. Ao longo desse caminho, o Egito mantinha fortificações e pontos de apoio que permitiam controlar a fronteira e sustentar movimentos de tropas em direção a Canaã, Líbano e Síria.
Essa localização ajuda a explicar por que a identificação de Mesen importa tanto. O historiador Peter Brand, da Universidade de Memphis, considera forte a hipótese de que Tell Abu Seifi seja a cidade procurada e aponta Mesen como um dos pontos de partida de campanhas egípcias para o Oriente. Ramsés II percorreu essa região durante suas operações militares, incluindo a campanha que culminou na célebre Batalha de Kadesh contra os hititas.
O próprio culto de Hórus reforça o caráter de fronteira do lugar. A inscrição chama a divindade de “Senhor da Cidade de Mesen”, e um pedestal de estátua relacionado ao mesmo culto já havia sido encontrado no sítio. Para Brand, a combinação entre o novo texto e esse pedestal cria uma ligação arqueológica difícil de ignorar.
Há ainda evidências de continuidade religiosa. Um selo de bronze do período ptolomaico, séculos mais tarde, traz novamente a fórmula “Hórus, Senhor de Mesen”, e caixões descobertos anteriormente no local apresentam inscrições semelhantes. Isso sugere que o nome e o culto permaneceram ligados à área por um longo período.
Templo virou quartel romano e depois foi desmontado para produzir cal
As escavações também revelam que Tell Abu Seifi passou por transformações profundas ao longo dos séculos. A equipe identificou duas estradas de pedra que conduziam ao templo: uma construída durante o período ptolomaico e outra, mais estreita, colocada acima dela já sob domínio romano.
O templo atingiu uma de suas fases mais importantes durante a dinastia ptolomaica. Depois, no século III d.C., partes do complexo foram reutilizadas como quartel militar romano. Mais tarde, durante o período romano tardio, a área sofreu uma transformação ainda mais radical: o santuário foi parcialmente desmontado e o local passou a ser usado para produzir cal.
Dois grandes fornos circulares foram construídos sobre partes da área sagrada, e arqueólogos encontraram restos de calcário queimado. A reutilização ajuda a explicar por que grande parte do templo original desapareceu e por que reconstruir a história de Mesen depende de fragmentos espalhados por diferentes fases do sítio.
Entre os objetos recuperados estão partes de estátuas de militares, fragmentos de falcões em pedra, um torso real de basalto e peças que atravessam séculos de ocupação. Esse conjunto mostra que o lugar teve funções religiosas, administrativas e militares sucessivas, exatamente o tipo de perfil esperado para uma cidade situada numa fronteira estratégica do Egito.
Especialistas ainda querem cerâmica e mais inscrições antes de declarar a cidade encontrada
Apesar do entusiasmo, a identificação continua aberta. James Hoffmeier afirmou que o caso é forte, mas quer ver evidências adicionais, como cerâmica datada do período de Ramsés II. Gregory Mumford, da Universidade do Alabama em Birmingham, lembrou que inscrições mencionando Mesen também apareceram em outros sítios da região.
Uma possibilidade levantada por Mumford é que Mesen não tenha sido apenas uma cidade com limites rígidos, mas um nome aplicado a uma área mais ampla que incluía diferentes fortificações e centros religiosos. Essa hipótese explicaria por que referências ao mesmo nome aparecem em pontos distintos da fronteira oriental egípcia.
A própria missão egípcia mantém a conclusão em aberto. As escavações e análises vão continuar em temporadas futuras, e novas camadas do sítio podem revelar cerâmica, estruturas ou inscrições capazes de resolver uma discussão que atravessa quase 140 anos.
Por enquanto, Tell Abu Seifi reúne uma combinação rara: um lintel de Ramsés II, o nome de Hórus de Mesen, restos de templo, fortificações e uma posição diretamente ligada à antiga Via de Hórus. Se novas evidências confirmarem a identificação, os arqueólogos terão finalmente colocado no mapa uma cidade ligada às campanhas, à religião e à defesa da fronteira de um dos faraós mais famosos da história. Você acha que essa nova inscrição é suficiente para considerar Mesen praticamente localizada ou a cautela dos especialistas ainda é necessária? Comente e compartilhe a matéria.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

