7 min de leitura
Nova teoria abre caminho para motores movidos pela própria luz: conceito científico permite pensar em sistemas de propulsão fotônica projetados para gerar impulso a partir da radiação, oferecendo uma alternativa aos motores convencionais usados atualmente em espaçonaves
Escrito por Hilton Libório
Publicado em 09/09/2026 às 12:42
Atualizado em 09/09/2026 às 12:45
Ciência e Tecnologia
Canal
Seja o primeiro a reagir!
Prefira o CPG no Google
Nova pesquisa explica como a luz pode gerar trabalho útil em sistemas quânticos e aponta novas possibilidades para propulsão e tecnologia espacial.
De acordo com uma matéria publicada pelo site Inovações Tecnológicas, uma pesquisa divulgada em 11 de agosto de 2026 na revista Physical Review Letters apresenta uma nova abordagem para explicar como energia, calor e trabalho podem ser tratados em sistemas quânticos formados por matéria e luz. O estudo foi desenvolvido por Marcelo Janovitch, Sander Stammbach, Matteo Brunelli e Patrick P. Potts, ligados a instituições da Suíça, Alemanha e França.
O trabalho não criou um propulsor espacial pronto. Seu avanço é teórico: os pesquisadores mostraram como uma descrição da termodinâmica pode funcionar tanto no regime quântico quanto no chamado limite semiclássico. Nesse cenário, parte da luz que deixa uma cavidade pode ser considerada uma fonte de potência, e não apenas calor perdido.
A descoberta chama atenção porque oferece uma nova maneira de compreender máquinas microscópicas acionadas pela radiação. No futuro, conceitos semelhantes poderão ajudar a estudar sistemas de conversão de energia e, de forma mais distante, novas possibilidades para motores de luz.
ARTIGO CONTINUA ABAIXO
Veja também
Recomendado para você
Economia
Sine de Congonhas reúne 391 vagas em lista oficial, com oportunidades na indústria, mineração, construção e serviços em Minas Gerais
O Sine de Congonhas reúne 391 vagas na listagem oficial, com oportunidades ligadas à mineração, indústria, construção, transporte e serviços, um retrato da demanda por mão de obra numa das…
Paulo Nogueira
0
O que a nova teoria da luz realmente propõe
A questão central está em entender o que acontece quando conceitos tradicionais da termodinâmica são aplicados a sistemas extremamente pequenos.
A termodinâmica foi desenvolvida principalmente no século XIX para explicar máquinas macroscópicas, como motores térmicos. Já a física quântica surgiu no início do século XX para descrever átomos, partículas e fenômenos em escalas microscópicas.
Com o avanço da nanociência e das tecnologias quânticas, essas duas áreas passaram a se encontrar. É justamente nessa fronteira que a nova teoria da luz apresentada pelos pesquisadores ganha importância.
Assista o vídeo
O estudo demonstra que a maneira de contabilizar a energia da radiação pode alterar a interpretação termodinâmica do sistema. Quando os fótons que deixam uma cavidade podem ser aproveitados, parte deles pode carregar energia considerada útil. Isso muda uma ideia aparentemente simples: nem toda energia que abandona um sistema precisa ser tratada automaticamente como desperdício.
Uma máquina formada por um átomo e fótons
Para investigar essa questão, os pesquisadores utilizaram um modelo no qual um átomo fica dentro de uma cavidade localizada entre dois espelhos. Um laser fornece continuamente fótons ao sistema. Ao mesmo tempo, os espelhos são parcialmente refletores, permitindo que parte da luz escape.
O funcionamento reúne três elementos importantes:
- um átomo com níveis de energia quânticos;
- uma cavidade óptica formada por dois espelhos;
- uma fonte externa que injeta luz continuamente.
Esse conjunto representa um sistema acionado dissipativamente. Ele recebe energia de maneira constante e também perde energia para o ambiente. Nesse contexto, o átomo pode assumir um comportamento semelhante ao de uma máquina térmica microscópica.
É nesse ponto que entram os chamados motores de luz. O termo descreve, neste caso, um modelo teórico de máquina quântica capaz de receber e transformar energia luminosa. Não se trata de um motor espacial convencional em miniatura.
Como a luz pode carregar trabalho útil
Um dos resultados mais importantes do estudo é a distinção entre a energia que simplesmente se perde e aquela que ainda pode ser aproveitada. Em uma descrição convencional, toda a energia que escapa da cavidade poderia ser considerada calor. O problema é que essa interpretação não produz corretamente o limite semiclássico do sistema analisado.
A abordagem desenvolvida pela equipe considera que parte do fluxo de fótons pode ser tratada como potência disponível. Segundo os autores, essa formulação permite chegar de maneira consistente ao regime em que o átomo continua sendo descrito pela mecânica quântica, enquanto a luz passa a ser tratada como uma onda eletromagnética clássica.
Essa transição é importante porque conecta dois modos de descrever a natureza sem abandonar a coerência termodinâmica.
O que isso tem a ver com propulsão fotônica
A ligação com propulsão fotônica existe, mas precisa ser feita com cuidado. A luz transporta energia e também momento. Por isso, a radiação pode produzir força quando sua quantidade de movimento é transferida para um objeto. Esse princípio já é estudado em sistemas de propulsão espacial, como velas solares.
O novo estudo, entretanto, não apresenta uma nave impulsionada pelo sistema quântico. Seu objetivo é compreender a conversão de energia em uma escala microscópica.
A possível conexão com propulsão fotônica está no princípio mais amplo de utilizar a radiação como participante ativo de um processo de conversão energética. Para transformar isso em um sistema de propulsão, seriam necessários muitos outros avanços.
Da física quântica à tecnologia espacial
A tecnologia espacial poderia, em princípio, se beneficiar de novos conhecimentos sobre interação entre luz e matéria. Mas ainda existe uma distância considerável entre um modelo quântico e um equipamento capaz de operar no espaço.
Um sistema de propulsão funcional precisaria apresentar:
- geração de impulso mensurável e controlável;
- estabilidade durante a operação;
- fonte de energia compatível com a missão;
- controle eficiente da radiação;
- desempenho adequado para determinada aplicação espacial.
Por isso, é mais correto dizer que o estudo amplia a base teórica que pode alimentar pesquisas futuras do que afirmar que ele criou uma nova classe de propulsor.
Flutuações da luz podem abrir outra frente
O trabalho também encontrou um resultado relevante relacionado às flutuações dos fótons. Os cálculos mostram que os efeitos quânticos podem reduzir as flutuações da luz quando apenas o átomo é tratado quanticamente e a radiação é considerada no limite semiclássico. A própria Universidade da Basileia destaca que essa característica pode ser interessante para aplicações em tecnologias quânticas e metrologia.
A redução das flutuações é importante porque o ruído pode atrapalhar medições e operações extremamente precisas. Em determinadas condições, porém, propriedades específicas da luz podem ser exploradas como recurso.
Isso significa que a pesquisa não precisa resultar necessariamente em um propulsor. Seus efeitos podem aparecer primeiro em áreas como óptica quântica, sensores e instrumentos de medição.
Por que a termodinâmica quântica importa
A termodinâmica quântica tenta responder a uma pergunta cada vez mais relevante: como conceitos como calor, trabalho, eficiência e energia se comportam quando uma máquina é composta por poucos átomos ou partículas? Essa questão se torna especialmente importante à medida que dispositivos tecnológicos diminuem de tamanho.
Em sistemas macroscópicos, a diferença entre energia útil e calor residual pode ser relativamente intuitiva. Em uma escala quântica, porém, as flutuações e a possibilidade de acessar diferentes componentes do sistema tornam essa separação mais complexa.
O estudo de Janovitch e seus colegas contribui justamente para essa discussão. A publicação mostra que duas formas de fazer a contabilidade termodinâmica podem levar a resultados diferentes no limite semiclássico, e que a formulação que considera parte do fluxo de fótons como potência consegue recuperar as relações esperadas nesse regime.
O futuro dos motores de luz ainda depende de pesquisas
É importante separar a descoberta teórica das aplicações que ainda estão no campo das hipóteses. A pesquisa não demonstra que seja possível substituir foguetes convencionais por motores baseados exclusivamente no modelo estudado. Também não apresenta um protótipo de motores espaciais alimentado diretamente pela luz.
O que ela oferece é uma ferramenta para estudar sistemas nos quais radiação e matéria trocam energia de maneira controlada. Para a tecnologia espacial, esse conhecimento pode ser relevante no longo prazo, especialmente se futuras pesquisas conseguirem transformar fenômenos quânticos em dispositivos maiores e mais eficientes.
A propulsão fotônica continua sendo uma área própria da engenharia espacial. Já os motores de luz estudados no trabalho pertencem principalmente ao campo da termodinâmica quântica. A aproximação entre essas áreas dependerá de novos experimentos e de avanços tecnológicos.
Uma nova perspectiva para máquinas movidas pela luz
O estudo publicado em 2026 mostra que a fronteira entre física quântica e termodinâmica está ficando cada vez mais importante. Ao tratar parte da radiação emitida como potência disponível, os pesquisadores encontraram uma descrição capaz de conectar o comportamento quântico ao limite semiclássico.
A ideia pode parecer distante dos motores espaciais atuais, mas ela ajuda a responder uma questão fundamental: como transformar energia luminosa em trabalho quando o sistema responsável por essa conversão tem dimensões microscópicas?
A resposta ainda está sendo construída. O avanço atual está na teoria, não em um novo foguete. Ainda assim, compreender como fótons podem participar de processos termodinâmicos de maneira mais precisa pode influenciar pesquisas futuras em motores de luz, tecnologia espacial e sistemas quânticos.
Para a propulsão fotônica, o resultado representa uma possível peça de um quebra-cabeça muito maior. Para a física, representa uma maneira mais consistente de aproximar dois mundos que durante muito tempo foram estudados separadamente: a termodinâmica e a mecânica quântica. É essa conexão que pode determinar os próximos passos das pesquisas sobre máquinas microscópicas movidas pela luz.
Fonte
Inovação Tecnológica
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Hilton Libório.

