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O Porto do Açu projeta R$ 22 bilhões em investimentos nos próximos dez anos, com hidrogênio verde, data centers e um hub de descomissionamento de plataformas no mesmo complexo que já movimenta 26,5 milhões de toneladas de minério por ano
Escrito por Paulo Nogueira
Publicado em 05/09/2026 às 11:47
Atualizado em 05/09/2026 às 11:55
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O Porto do Açu, em São João da Barra, projeta atrair cerca de R$ 22 bilhões em investimentos ao longo dos próximos dez anos, com hidrogênio verde, data centers e um hub de descomissionamento de plataformas dividindo espaço no mesmo complexo que já movimenta minério e petróleo.
O número foi apresentado em 2 de setembro por Eugenio Figueiredo, presidente do porto. Ele fez questão de esclarecer a origem do dinheiro: a grande maioria são investimentos dos clientes, as empresas instaladas dentro do complexo.
Essa é a lógica do modelo. O Porto do Açu não é apenas um cais, e sim um distrito industrial com acesso ao mar, onde a operadora vende terreno, infraestrutura e conexão logística, enquanto o inquilino constrói a planta.
O que o porto já move hoje
Antes de olhar para os R$ 22 bilhões futuros, vale medir a base instalada. Conforme os dados apresentados, o terminal de minério tem capacidade de 26,5 milhões de toneladas por ano e opera hoje em torno de 24 milhões.
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Paulo Nogueira
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O terminal de petróleo movimenta até 1,8 milhão de barris por dia. Já o Terminal Multicargas trabalha na faixa de 2,7 a 2,8 milhões de toneladas anuais.
Há um dado que costuma passar despercebido e que explica muito da geografia econômica brasileira: cerca de 50% das cargas do Terminal Multicargas têm origem ou destino em Minas Gerais. Um estado sem litoral, portanto, é metade do movimento daquele terminal fluminense.
Isso posiciona o Açu como saída atlântica do quadrilátero mineiro, disputando carga com Vitória e com Santos. Por isso o porto aparece com tanta frequência nas discussões sobre logística de minério e de aço.
Três apostas bem diferentes no mesmo terreno
A carteira dos próximos dez anos não é a continuação do que existe. Ela aponta para setores que ainda não são a espinha dorsal do complexo.
A primeira aposta é a de combustíveis verdes, com produção de hidrogênio, amônia verde, combustível sustentável de aviação e e-metanol. São produtos que exigem energia renovável barata e abundante, além de um porto capaz de exportar o que for produzido.
A segunda é data center. Parece deslocado num porto, mas não é: essas instalações precisam de energia firme em grande volume, terreno amplo e conectividade, e o Açu tem geração térmica dentro do próprio complexo.
A terceira é a que mais dialoga com a indústria de petróleo brasileira: um hub de descomissionamento e reciclagem de unidades offshore. O país tem dezenas de plataformas chegando ao fim da vida útil, e hoje boa parte desse serviço é feita fora do Brasil ou de forma improvisada.
Somam-se a isso as expansões em mineração, óleo e gás e projetos de energia renovável, além do que a operadora chama de industrialização de baixo carbono.
O que separa a carteira do concreto
Cada um desses projetos tem sua própria trava. Hidrogênio verde depende de contrato de compra no exterior e de custo de energia competitivo. Data center depende de garantia de suprimento elétrico e de regime tributário, tema que só agora começou a ser resolvido no Congresso.
O descomissionamento depende de contratos com as operadoras e de licenciamento ambiental específico, já que desmontar plataforma envolve resíduo perigoso e estrutura contaminada.
Olhando assim, o valor cheio funciona menos como previsão e mais como sinalização de mercado. É a operadora dizendo em que setores pretende vender terreno na próxima década.
Ainda assim, o Açu tem algo que a maioria dos projetos brasileiros de infraestrutura não tem: ele já existe, já opera e já movimenta volume relevante. A conversa não é sobre construir um porto do zero, e sim sobre o que instalar ao lado do que já funciona.
Para a região Norte Fluminense, que viu a atividade de petróleo migrar para outras bases nos últimos anos, esse desenho tem peso. Descomissionamento e combustível verde são cadeias que empregam em terra, no pátio industrial, e não apenas embarcadas.
O número a acompanhar não é o R$ 22 bilhões. É quantas decisões finais de investimento saem do papel nos próximos vinte e quatro meses, porque é isso que separa carteira anunciada de canteiro em obra.
Vale entender como o Açu chegou até aqui, porque a trajetória explica o modelo. O complexo nasceu de um projeto privado concebido na década passada, atravessou a crise do grupo que o idealizou e foi reorganizado sob novo controle acionário.
O que sobreviveu a essa travessia foi o ativo físico: um porto de águas profundas em terreno amplo, com licenciamento já vencido e infraestrutura instalada. Em infraestrutura brasileira, isso é raro.
Justamente por isso a operadora consegue vender velocidade. Uma empresa que decide instalar planta ali não recomeça o licenciamento do zero nem constrói acesso marítimo, e esse encurtamento de prazo é parte do produto.
Há também a questão energética, que sustenta boa parte da carteira. O complexo abriga geração térmica a gás em operação, e energia firme no próprio terreno é pré-requisito tanto para data center quanto para eletrólise de hidrogênio.
Sem isso, nenhuma das duas apostas fecha a conta.
Por outro lado, concentrar setores tão distintos no mesmo espaço cria competição interna por energia, por área e por conexão logística. Definir quem entra primeiro, e com que garantia de suprimento, é uma decisão que a operadora terá de tomar nos próximos anos.
Além disso, vale medir o anúncio pelo que já foi entregue antes. Conforme a operadora, o complexo saiu do papel e chegou à escala atual em pouco mais de uma década, o que dá alguma credibilidade ao cronograma proposto.
No entanto, os setores da nova carteira são bem mais dependentes de política pública do que minério e petróleo. Combustível verde precisa de mercado regulado no exterior; data center precisa de regime tributário definido; descomissionamento precisa de regra ambiental clara.
Dessa forma, o cronograma de dez anos depende menos do porto e mais de decisões tomadas em Brasília e em Bruxelas. Durante esse período, portanto, o indicador a seguir não é o valor anunciado, e sim o número de contratos de arrendamento efetivamente assinados dentro do complexo.
Você apostaria em hidrogênio verde, data center ou descomissionamento como o negócio que vai realmente decolar no Açu?
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Fonte
O Tempo
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Paulo Nogueira.

