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Pesquisador brasileiro provoca cobras cerca de 40 mil vezes, sofre quatro picadas e ganha Ig Nobel de Biologia
Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado em 26/09/2026 às 11:48
Atualizado em 26/09/2026 às 11:49
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Brasileiro conquista Ig Nobel de Biologia após estudar 117 cobras e investigar fatores que influenciam os botes defensivos das jararacas.
Um estudo brasileiro que envolveu 117 cobras, mais de 40 mil situações de resposta defensiva e quatro picadas sofridas pelo pesquisador principal conquistou o Ig Nobel de Biologia de 2026. O prêmio foi entregue em 3 de setembro, durante uma cerimônia realizada em Zurique, na Suíça, e reconheceu uma investigação sobre os fatores que levam jararacas a atacar quando se sentem ameaçadas.
O trabalho foi representado por João Miguel Alves-Nunes, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).
Apesar do reconhecimento internacional, a pesquisa também possui um histórico controverso. O artigo original foi formalmente retratado pela revista Scientific Reports devido a problemas relacionados à documentação das aprovações éticas de determinados procedimentos. A premiação não altera essa condição, mas recolocou em discussão os métodos utilizados para investigar o comportamento defensivo das serpentes.
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Pesquisador foi picado quatro vezes durante os experimentos
O que começou como uma investigação sobre acidentes envolvendo animais peçonhentos acabou levando João Miguel Alves-Nunes ao hospital em diferentes ocasiões. Segundo relato concedido ao Jornal da USP, ele sofreu quatro picadas ao longo da pesquisa, chegando a enfrentar uma situação de risco de vida.
O cientista também relatou ter desenvolvido reações alérgicas ao veneno e ao soro utilizado no tratamento. A exposição ocorreu durante procedimentos experimentais que procuravam observar a reação das serpentes diante de situações interpretadas como ameaças.
Diferentemente de pesquisas nas quais se procura evitar qualquer estímulo que provoque uma resposta agressiva, a investigação precisava registrar as circunstâncias em que as jararacas apresentavam comportamento defensivo.
O pesquisador contou ao Jornal da USP que o trabalho exigiu justamente provocar reações que profissionais acostumados a lidar com serpentes normalmente procuram evitar.
Por que algumas cobras dão o bote e outras não?
A investigação utilizou exemplares de Bothrops jararaca, espécie de grande importância médica no Brasil por sua participação nos acidentes ofídicos.
Para examinar possíveis diferenças de comportamento, a equipe trabalhou com animais de várias fases do desenvolvimento. O grupo experimental foi formado por:
- 29 jararacas recém-nascidas;
- 75 exemplares adultos;
- 13 indivíduos jovens.
Os pesquisadores analisaram como diferentes condições poderiam influenciar a resposta das cobras diante de uma ameaça. Entre os fatores considerados estavam sexo, tamanho corporal, estágio de desenvolvimento, temperatura e horário.
Um dos objetivos era compreender se a ocorrência do bote dependia apenas da presença de uma pessoa nas proximidades ou se outros aspectos do encontro poderiam modificar a reação do animal.
A análise também considerou diferentes partes do corpo das serpentes, pois uma aproximação na região da cauda poderia produzir respostas distintas daquelas observadas quando o contato acontecia próximo à cabeça.
Mais de 40 mil situações permitiram observar as reações das jararacas
Os experimentos foram organizados para reproduzir diferentes circunstâncias de aproximação entre uma pessoa e uma serpente. Parte dos testes envolveu apenas a presença próxima ao animal, enquanto outra incluiu estímulos físicos controlados.
Para realizar esses procedimentos, a equipe utilizou uma bota de segurança, encostando-a levemente em regiões previamente determinadas do corpo das jararacas.
Ao longo do trabalho, foram registradas mais de 40 mil situações de resposta defensiva. O volume de observações permitiu investigar quais variáveis estavam associadas às reações apresentadas pelos animais durante os experimentos.
A intenção era ampliar a compreensão sobre a ocorrência de mordidas defensivas e verificar como o comportamento observado poderia se relacionar com os acidentes registrados fora do ambiente experimental.
É importante destacar, entretanto, que o artigo foi posteriormente retratado, de modo que seus resultados não devem ser tratados como evidência científica validada para estabelecer conclusões sobre o comportamento das serpentes.
Pesquisa também analisou registros de acidentes em São Paulo
Além dos experimentos, os autores procuraram relacionar as observações comportamentais aos registros epidemiológicos disponíveis no Estado de São Paulo.
Foram considerados dados de acidentes envolvendo serpentes do gênero Bothrops entre 2009 e 2022, além de informações referentes a 422 jararacas associadas a ocorrências registradas entre 1969 e 2005.
A escolha da espécie também estava relacionada à gravidade dos acidentes envolvendo jararacas. Seu veneno possui ação proteolítica e pode provocar danos aos tecidos, hemorragias e necrose na região atingida.
A proposta dos pesquisadores era compreender melhor as circunstâncias dos encontros entre humanos e serpentes, considerando que um acidente pode envolver diferentes fatores ambientais e comportamentais.
No entanto, a retratação impede que as conclusões apresentadas no artigo sejam utilizadas como referência científica confiável sem que sua condição editorial seja explicitamente mencionada.
Artigo recebeu retratação por problemas na documentação ética
A revista Scientific Reports retirou formalmente o estudo da literatura científica após identificar problemas relacionados à documentação das aprovações éticas exigidas para determinados procedimentos.
O artigo continua disponível no site da publicação, mas identificado como “Retracted Article”, acompanhado de uma nota que explica a decisão editorial.
Em entrevista ao Jornal da USP, João Miguel afirmou que recebeu a notícia com surpresa, pois, segundo ele, o trabalho havia passado por comissões éticas antes da publicação. Essa é a versão apresentada pelo pesquisador e não modifica a decisão registrada pela revista.
A retratação não demonstra, por si só, que todos os dados apresentados sejam falsos. Significa, porém, que o artigo perdeu sua condição de publicação científica confiável para sustentar as conclusões originalmente divulgadas.
Ig Nobel premiou trabalhos de dez categorias em 2026
A cerimônia que reconheceu o estudo brasileiro marcou a primeira realização do Ig Nobel fora dos Estados Unidos. Tradicionalmente associado à Universidade Harvard, o evento chegou à sua 36ª edição em Zurique, reunindo pesquisas de dez categorias.
Criada pela revista Annals of Improbable Research, a premiação utiliza o humor para chamar a atenção para trabalhos científicos que despertam curiosidade e estimulam reflexões sobre temas pouco convencionais.
João Miguel contou ao Jornal da USP que já conhecia o prêmio e chegou a comentar informalmente com um amigo sobre a possibilidade de recebê-lo algum dia. A conquista, segundo ele, foi motivo de comemoração.
Atualmente, o pesquisador continua trabalhando com animais peçonhentos, mas concentra seu doutorado principalmente em aracnídeos. Sua investigação busca identificar possíveis indícios de estados emocionais nesses animais diante de situações de ameaça.
Fontes
Jornal da USP
Nature
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Ruth Rodrigues.

