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Soldados colocam cartas dentro de uma garrafa a caminho da Primeira Guerra em 1916, um deles morre em combate no ano seguinte e, 109 anos depois, as mensagens reaparecem em uma praia da Austrália com o papel ainda legível, permitindo que as famílias dos autores sejam encontradas mais de um século após o último adeus
Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 01/09/2026 às 11:27
Atualizado em 01/09/2026 às 11:28
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Cartas de dois soldados australianos escritas em 1916 reaparecem numa garrafa em 2025, 109 anos depois, e chegam aos descendentes.
Em 15 de agosto de 1916, os soldados australianos Malcolm Alexander Neville e William Kirk Harley estavam a bordo de um navio militar rumo à Europa quando escreveram duas mensagens, colocaram os papéis dentro de uma garrafa e a lançaram ao mar. Um século e nove anos depois, em 9 de outubro de 2025, o recipiente apareceu em Wharton Beach, perto de Esperance, na Austrália Ocidental, com os textos escritos a lápis ainda legíveis. Segundo a Associated Press, a descoberta permitiu identificar os dois autores e localizar seus descendentes.
A história ganhou um desfecho ainda mais forte porque os destinos dos dois homens foram completamente diferentes. Neville, que escreveu para a mãe enquanto seguia otimista para a guerra, morreu em combate na França em 11 de abril de 1917, aos 28 anos. Harley foi ferido durante o conflito, conseguiu voltar para casa e morreu em 1934. Em novembro de 2025, as cartas finalmente chegaram às famílias dos dois soldados, transformando uma garrafa recolhida durante uma simples limpeza de praia em uma conexão física com homens que partiram para a Primeira Guerra Mundial havia mais de um século.
A garrafa foi encontrada durante uma limpeza comum de praia
Não havia escavação arqueológica, detector de metais ou equipe de pesquisadores procurando vestígios históricos quando a garrafa reapareceu.
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Peter Brown e sua filha Felicity estavam em uma das excursões que a família costuma fazer de quadriciclo pela região de Wharton Beach para recolher lixo quando encontraram o objeto pouco acima da linha da água. A praia fica próxima de Esperance, no extremo sul da Austrália Ocidental.
A família tinha justamente o hábito de não ignorar objetos abandonados na areia. Foi por isso que aquela garrafa pequena e aparentemente comum acabou sendo recolhida.
Era um recipiente antigo da marca Schweppes, feito de vidro transparente e espesso. Dentro dele estavam pedaços de papel que haviam absorvido umidade, mas ainda preservavam algo decisivo: a escrita feita a lápis.
Depois que o material secou, os textos começaram a revelar nomes, lugares e uma data que transformaram imediatamente o achado.
Era 15 de agosto de 1916.
Dois soldados haviam escrito as mensagens apenas três dias depois de partir
Malcolm Neville e William Harley eram soldados da Australian Imperial Force. Quando escreveram suas mensagens, estavam viajando no HMAT A70 Ballarat, navio de transporte de tropas que havia deixado Adelaide em 12 de agosto de 1916.
Apenas três dias depois da partida, os homens já atravessavam a região da Grande Baía Australiana em direção a um destino muito mais distante: a Europa em guerra.
Eles seguiriam para reforçar o 48º Batalhão de Infantaria australiano na Frente Ocidental, onde algumas das batalhas mais destrutivas da Primeira Guerra Mundial estavam sendo travadas.
Naquele momento, porém, as mensagens não transmitiam a dimensão do que os esperava.
Os dois soldados aparecem nos textos otimistas e até bem-humorados.
É exatamente esse contraste entre a leveza das cartas e o que aconteceu depois que torna a descoberta especialmente marcante.
Malcolm Neville escreveu diretamente para a mãe
A mensagem de Malcolm Alexander Neville tinha um destinatário específico.
Ele pediu que quem encontrasse a garrafa encaminhasse sua carta para sua mãe, Robertina Neville, em Wilkawatt, no estado da Austrália Meridional.
Assista o vídeo
Neville contou que estava se divertindo durante a viagem e comentou sobre a comida servida a bordo. Disse que a alimentação estava boa, com exceção de uma refeição que os homens haviam descartado no mar.
Mesmo com o navio balançando durante a travessia, seu texto transmitia bom humor.
A carta terminava como uma mensagem simples de um filho tentando tranquilizar a mãe enquanto navegava para o outro lado do mundo.
Nenhum dos dois sabia que aquele pequeno pedaço de papel ficaria escondido durante 109 anos.
Meses depois, Malcolm Neville seria morto na França
Os registros preservados pelo Australian War Memorial confirmam o desfecho que Malcolm não poderia prever ao escrever a mensagem.
Seu número de serviço era 2214. Ele integrou o 48º Batalhão de Infantaria da Australian Imperial Force e morreu em combate na França em 11 de abril de 1917, aos 28 anos.
Neville havia enfrentado obstáculos até para conseguir ir à guerra.
Segundo informações recuperadas pela ABC a partir de seus registros militares, ele se alistou no início de 1916, mas inicialmente foi dispensado devido à visão deficiente. Cerca de uma semana depois, voltou a se apresentar e acabou incorporado.
A determinação o colocou justamente naquele navio em agosto de 1916. Sua sepultura fica no London Cemetery and Extension, em Longueval, na França.
A carta dirigida à mãe, porém, não seguiu para Wilkawatt naquela época. Permaneceu desaparecida até 2025.
William Harley também deixou sua própria mensagem dentro da garrafa
A segunda folha pertencia ao soldado William Kirk Harley, que tinha 37 anos quando embarcou.
Diferentemente de Neville, Harley não tinha mais a mãe viva. Por isso, sua mensagem não trazia o mesmo pedido de entrega a um familiar.
Ele escreveu que estavam em algum lugar da Grande Baía Australiana e desejou que a pessoa que encontrasse o recipiente estivesse tão bem quanto eles se sentiam naquele momento.
Harley estava viajando para a guerra também por uma razão familiar.
Ele seguia para encontrar seu irmão mais velho, Henry, que já estava na Europa. O que William ainda não sabia era que Henry havia sido morto em combate poucos dias depois de ele deixar Adelaide.
William, ao contrário de Malcolm, sobreviveria à Primeira Guerra Mundial.
Harley foi ferido, voltou para casa e morreu em 1934
A guerra também deixou marcas profundas em William Harley. Segundo a Associated Press, ele foi ferido duas vezes durante o conflito, mas conseguiu sobreviver e retornar à Austrália. Sua família relatou que ele havia sido atingido pelos efeitos de gás utilizado durante os combates nas trincheiras.
Depois da guerra, retomou a vida civil.
Harley trabalhava como modelista em uma fundição pertencente à família e participou da criação de moldes destinados a peças decorativas de ferro usadas em construções de Adelaide.
Ele morreu em 1934, antes do nascimento dos netos que, quase um século depois, receberiam sua mensagem.
Quando a família foi informada sobre a descoberta, cinco netos de William ainda estavam vivos.
Papel molhado continuou legível após 109 anos
Talvez o aspecto material mais surpreendente do caso seja o estado das mensagens.
Havia água dentro da garrafa quando ela foi encontrada. A família Brown inicialmente não tinha certeza de que seria possível retirar ou interpretar os papéis.
Depois de deixá-los secar durante alguns dias, Debra Brown conseguiu remover parte do material cuidadosamente com uma tesoura cirúrgica.
A escrita a lápis ainda podia ser lida.
Nomes e informações contidos nos documentos permitiram comparar o material com registros históricos e localizar os soldados.
O detalhe também produziu uma hipótese importante sobre o percurso da garrafa.
Ela provavelmente não passou 109 anos flutuando no oceano.
Garrafa pode ter ficado enterrada na areia durante aproximadamente um século
Deb Brown observou que o vidro estava em condições surpreendentemente boas, sem a quantidade de organismos marinhos que seria esperada após décadas no oceano. Além disso, uma exposição prolongada ao sol e à água provavelmente teria destruído os papéis.
O professor de oceanografia costeira Charitha Pattiaratchi, da University of Western Australia, explicou à ABC que correntes marítimas poderiam ter levado o recipiente da região da Grande Baía Australiana até Wharton Beach em apenas algumas semanas ou aproximadamente um mês.
Depois disso, ele pode ter sido soterrado pelas dunas.
Grandes ondas e a erosão registrada na região antes da descoberta de 2025 podem ter removido parte da areia que o protegia e exposto novamente a garrafa.
Assim, os 109 anos representam o intervalo entre o envio e a descoberta, não necessariamente o tempo que o recipiente permaneceu navegando em mar aberto.
A carta também revelou informações esquecidas sobre a família Harley
A descoberta não serviu apenas como lembrança emocional. Quando a mensagem de William Harley foi finalmente entregue aos descendentes, um endereço até então desconhecido presente no documento ajudou a família a reconstruir parte de sua história.
Segundo a ABC, a informação contribuiu para rastrear os Harley até sua chegada à Austrália, em 1881.
Para Michele Patterson, neta do soldado, o pedaço de papel funcionou como uma pista capaz de preencher lacunas na genealogia familiar.
Houve ainda uma coincidência particularmente incomum.
Na mesma época em que a carta centenária chegou à família, um trineto de William, então com 14 anos, participava de um acampamento escolar sem tecnologia e navegava justamente pela Grande Baía Australiana.
Ele também escreveu uma carta.
Assim, um dos descendentes recebeu praticamente na mesma semana duas mensagens produzidas naquela região, uma escrita pelo jovem da geração atual e outra pelo avô da família 109 anos antes.
As cartas finalmente chegaram às famílias em novembro de 2025
A história iniciada no convés de um navio em agosto de 1916 teve outro capítulo em novembro de 2025.
Depois de encontrar os descendentes, a família Brown enviou as cartas de Neville e Harley às respectivas famílias em Adelaide e Alice Springs.
Assista o vídeo
A família Harley passou então a discutir como preservar adequadamente o documento, que estava extremamente frágil depois de permanecer escondido por mais de um século.
Herbie Neville recebeu o material relacionado ao tio-avô cuja vida terminou na França em 1917.
Malcolm tinha escrito aquela folha esperando que um desconhecido pudesse entregá-la à mãe. Robertina nunca recebeu a mensagem naquele contexto.
Mas o pedido não desapareceu completamente.
A carta atravessou a Primeira Guerra Mundial, a morte de seu autor, várias gerações da família e mais de um século de mudanças até reaparecer numa praia australiana em 2025.
Uma garrafa recolhida como lixo acabou conectando duas famílias à Primeira Guerra Mundial
O extraordinário da descoberta não está apenas nos 109 anos que separam a escrita da leitura. Está na sucessão de circunstâncias necessárias para que os documentos sobrevivessem.
Uma garrafa lançada de um transporte militar em 1916 aparentemente chegou à costa, ficou protegida na areia durante décadas, resistiu à umidade e voltou à superfície exatamente em uma praia onde uma família tinha o hábito de recolher objetos descartados.
Dentro dela permaneciam duas vozes registradas antes de seus autores conhecerem o verdadeiro custo da guerra.
William Harley voltaria para a Austrália. Malcolm Neville morreria na França meses depois.
Em 2025, os dois voltaram simbolicamente para suas famílias da mesma maneira como haviam partido 109 anos antes: por meio de algumas linhas escritas à mão e colocadas dentro de uma pequena garrafa.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Valdemar Medeiros.

