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Água a 10 cm da crista e 5 barragens em emergência sem laudo: garimpo Bom Futuro, maior lavra de cassiterita do mundo, corre risco de colapso em cadeia rumo ao Rio Madeira
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges
Publicado em 06/10/2026 às 15:02
Atualizado em 06/10/2026 às 17:00
Mineração
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Dados do SIGBM, o sistema de barragens da ANM, mostram que o garimpo Bom Futuro, em Ariquemes, tem cinco barragens de rejeito em nível de emergência 1 e sem a declaração de estabilidade do 2º semestre de 2026.
O garimpo Bom Futuro, em Ariquemes (RO), tem cinco de suas sete barragens de rejeito de cassiterita em nível de emergência 1. Nenhuma das cinco tem o laudo de estabilidade exigido para o 2º semestre de 2026. Os números vêm do Sistema Integrado de Gestão de Segurança de Barragens de Mineração (SIGBM), da Agência Nacional de Mineração (ANM), e foram levantados pelo jornal O Globo nesta terça-feira (6).
O garimpo é considerado a maior lavra de cassiterita a céu aberto do mundo. As barragens guardam a lama que sobra da lavagem do minério. E ficam todas na mesma bacia, que deságua no Rio Madeira.
O que o SIGBM mostra em cada barragem
Segundo o levantamento, as estruturas com problema são estas:
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Veja também
- Jacaré Superior e Jacaré Inferior: categoria de risco (CRI) e dano potencial associado (DPA) altos, status de embargadas e declaração de estabilidade da “2º Campanha 2026” como “Não Enviado”.
- Jacaré Médio: CRI e DPA altos, nível de emergência 1 e status de embargada.
- Igarapé Mutum e Belíssima: CRI alta, nível de emergência 1 e status de embargo.
As barragens do garimpo Bom Futuro pertencem às cooperativas Coopersanta e Coopermetal, que têm a mesma diretoria. No caso da Igarapé Mutum, novos estudos geotécnicos atestaram a estabilidade da estrutura, segundo o jornal.
O que significa o nível de emergência 1 da ANM
A regra está na Resolução ANM nº 95, de 2022, que organiza a segurança das barragens de mineração. Ela prevê três degraus de emergência.
O nível 1 é o primeiro. Uma das situações que o disparam é justamente a barragem estar com categoria de risco alta. Também entra nele a barragem com fator de segurança drenado entre 1,30 e 1,50.
O nível 2 vale quando o fator de segurança drenado cai para a faixa entre 1,10 e 1,30. Aí a empresa precisa acionar a Defesa Civil para a retirada preventiva de quem mora na zona de autossalvamento, a área logo abaixo da barragem. O nível 3 é o mais grave: fator abaixo de 1,10, ou ruptura inevitável ou em andamento. Nesse caso, a regra manda alertar a população, inclusive com sirenes, para a evacuação.
Em qualquer nível, a obrigação é imediata. A dona da barragem precisa parar de lançar rejeito no reservatório e manter monitoramento, manutenção e conservação da estrutura. Se não fizer, cabe embargo ou suspensão.
Em resumo, nível 1 não quer dizer rompimento à vista. Quer dizer que a barragem saiu da normalidade e que a lei já exige medidas imediatas.
A DCE, o laudo que não foi enviado
A declaração de condição de estabilidade (DCE) é o documento que atesta, com assinatura de um responsável técnico, que a barragem está estável. Pela resolução da ANM, ela vai pelo SIGBM duas vezes por ano: entre 1º e 31 de março e entre 1º e 30 de setembro.
O prazo do 2º semestre de 2026, portanto, terminou em 30 de setembro. A norma é direta sobre quem não entrega: a falta da DCE, ou uma DCE que não ateste a estabilidade, leva à aplicação imediata de embargo ou suspensão da barragem.
As barragens do garimpo Bom Futuro já aparecem como embargadas no painel. Para sair dessa situação, a ANM precisa ver o laudo.
Uma mudança está a caminho. A Resolução ANM nº 220, de 2025, troca os três níveis por cinco (normal, atenção, alerta, crítico e emergência). Segundo análise do escritório Cescon Barrieu, ela só entra em vigor em 2 de agosto de 2027. Até lá, vale a regra de 2022.
Por que se fala em efeito dominó no Rio Madeira
Como as barragens do garimpo Bom Futuro estão na mesma bacia, a erosão ou o transbordamento de uma poderia atingir as que ficam rio abaixo. Esse cenário aparece em documentos técnicos de processos que correm no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), movidos pelo Ministério Público Federal.
Os impactos citados são contaminação da água por metais pesados, dano aos peixes e às comunidades ribeirinhas. Os processos cobram garantias e planos de ação para as barragens Jacaré (Inferior, Médio e Superior Sul), Belíssima e Rio Santa Cruz.
A barragem Santa Cruz é o caso mais delicado. Em vistoria da Secretaria de Desenvolvimento Ambiental de Rondônia (Sedam), a água chegou a 10 centímetros da crista da barragem. Os estudos de engenharia recomendam folga mínima de 90 centímetros a 1,5 metro. Ou seja, a sobra medida era cerca de um nono do mínimo recomendado.
O alerta não é novo. Em setembro de 2025, o MPF e a ANM inspecionaram as barragens Jacaré e apontaram fragilidade no talude da Jacaré Superior, com risco de desmoronamento em chuvas fortes. A inspeção também registrou falta de videomonitoramento nas duas estruturas.
Cassiterita: o minério de onde sai o estanho
A cassiterita é o principal minério de estanho. Quimicamente, é dióxido de estanho (SnO2). Pela conta das massas atômicas, cerca de 79% do peso do mineral puro é estanho.
Em Rondônia, a exploração no garimpo Bom Futuro começou em meados de 1987. O minério sai da terra misturado com areia e argila. Para separar o que vale, a lavra usa muita água, e essa água com sedimento vai para os reservatórios. É por isso que um garimpo de cassiterita precisa de tantas barragens de rejeito.
O que dizem as cooperativas e a ANM
Em nota ao jornal, Coopersanta e Coopermetal disseram que as classificações de risco seguem “critérios dinâmicos” da Política Nacional de Segurança de Barragens. Também afirmaram que análises de laboratório feitas em 2026 classificaram todos os resíduos como não perigosos. As cooperativas dizem estar enviando documentação técnica à ANM para pedir a redução do DPA.
O MPF já havia dito, em 2025, que o pedido de redução do dano potencial ainda não tinha sido aprovado. E que ele não justificava descumprir as obrigações de segurança.
A Sedam, órgão ambiental de Rondônia, afirmou que a fiscalização das barragens de rejeito cabe à ANM e que mandou ofício pedindo informações. A ANM não respondeu ao jornal. O próximo passo do garimpo Bom Futuro em Rondônia depende de dois papéis: o laudo de estabilidade e a decisão da Justiça Federal.
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ANM
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Maria Heloisa Barbosa Borges.

