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Amazônia: aldeia que percorria até 20 km em busca de água instala bombas solares para abastecer 36 famílias e recebe 70 kits de energia enquanto se prepara para outra seca
Escrito por Flavia Marinho
Publicado em 13/10/2026 às 07:40
Atualizado em 13/10/2026 às 08:18
Energia Renovável
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Na seca de 2024, moradores de Nova Sociedade, no Pará, percorreram até 20 km para buscar água. Agora, bombas solares abastecem 36 famílias; 70 kits de energia também foram destinados à aldeia para iluminar casas.
Na seca de 2024, moradores de Nova Sociedade, no oeste do Pará, chegaram a percorrer 20 quilômetros em busca de água. Dois anos depois, bombas movidas a energia solar passaram a abastecer reservatórios para as 36 famílias da aldeia indígena Arapium. O sistema entrou em funcionamento em junho de 2026, numa região em que até a compra de combustível depende de horas de viagem de barco.
O rio Arapiuns, que desemboca no Tapajós, é a única ligação da comunidade com outras localidades. Quando as águas baixaram, buscar água se tornou uma tarefa exaustiva. O líder Tiago Silva contou à Associated Press que crianças e idosos carregaram recipientes desde o amanhecer durante a estiagem histórica.
Bombas solares passaram a levar água dos poços aos reservatórios da aldeia
O sistema instalado com apoio do Projeto Saúde e Alegria usa painéis fotovoltaicos para acionar bombas que retiram água de poços e enchem caixas de armazenamento. A água fica disponível para abastecer as famílias, sem a necessidade de manter um gerador a diesel ligado durante todo o bombeamento. À Associated Press, a organização informou ter levado tecnologia semelhante a outras 29 comunidadesamazônicas.
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O reservatório permite guardar parte da água captada quando há sol. Em uma região onde a seca prejudica o transporte fluvial e o acesso a serviços, ter água perto de casa poupa deslocamentos que antes tomavam horas do dia. A instalação também exige cuidados locais com operação, distribuição e manutenção.
Moradores carregaram areia e madeira para receber 34 estruturas de água e saneamento
As melhorias começaram antes da entrega dos kits domésticos de energia. Em 10 de junho, o Projeto Saúde e Alegria anunciou 34 tecnologias sociais do Programa Cisternas na aldeia, com atendimento direto a 34 famílias: 29 estruturas classificadas como comunitárias e cinco como autônomas. A execução reuniu a organização Somecdh e entidades comunitárias, com apoio de parceiros regionais.
Os moradores ajudaram a carregar materiais, preparar estruturas e instalar equipamentos de abastecimento e banheiros. Uma das lideranças relatou o esforço necessário para conseguir madeira e areia e levantar as caixas de água. O programa contabilizou 34 famílias alcançadas por suas entregas de água e saneamento em junho; a reportagem da Associated Press identificou 36 famílias abastecidas pelo bombeamento solar em setembro.
Em setembro, 70 kits solares ampliaram a iluminação das casas e o carregamento de celulares
Outra etapa levou eletricidade às residências. Em comunicado de 18 de setembro, a Schneider Electric anunciou a doação de 70 sistemas solares portáteis para Nova Sociedade, com potencial de atender cerca de 360 moradores. A mobilização foi realizada com o Projeto Saúde e Alegria e as empresas Bain & Company, Deloitte, Nord Electric e UKS. A Associated Press acompanhou a distribuição de kits às famílias no início daquele mês.
O Homaya S02, modelo apresentado pela fabricante, reúne painel, bateria, tomadas de baixa potência e portas USB. Pode alimentar até três lâmpadas LED e permitir o carregamento de celulares e outros aparelhos pequenos. Para mulheres que produzem cestos e adornos artesanais, a iluminação depois do pôr do sol abre mais tempo para o trabalho sem depender do horário de funcionamento do gerador.
A parceria já tinha histórico na região. Em 2025, a Schneider Electric informou a distribuição de 520 dispositivos solares em comunidades da Tapajós-Arapiuns, entre soluções domésticas e lanternas, alcançando aproximadamente 2,6 mil pessoas. Os 70 kits de 2026 constituem uma nova etapa, concentrada em Nova Sociedade.
Comprar diesel exigia quase três horas de barco, e a luz acabava pouco depois das 22h
Em Nova Sociedade, comprar combustível significava viajar quase três horas de barco até Santarém. Os geradores, caros de abastecer e ruidosos, costumavam ser desligados pouco depois das 22h. A falta de energia constante também dificultava a conservação de alimentos em uma região onde as temperaturas frequentemente ultrapassam 35 °C.
Os kits solares fornecem eletricidade para iluminação e aparelhos de baixo consumo; o bombeamento comunitário utiliza uma instalação própria para mover a água. Essa separação ajuda a explicar por que as duas iniciativas chegaram à aldeia em momentos e formatos diferentes. Equipamentos maiores continuam exigindo soluções de energia dimensionadas para outras cargas.
Em escola de 116 alunos no Tapajós, a energia solar mudou até a merenda
A transformação também pode ser vista em Surucuá, outra comunidade da região de Santarém. A Escola São Benedito, que atende 116 estudantes, dependia de um gerador a diesel barulhento. Depois de uma reforma da prefeitura e da instalação de painéis fotovoltaicos, passou a dispor de energia durante todo o dia.
A diretora Rosenilce Cruz contou à Associated Press que o fornecimento contínuo permitiu conservar alimentos frescos, incluindo fontes de proteína, em vez de depender de produtos enlatados. O fim do ruído constante do motor também melhorou as aulas ao ar livre. Na comunidade de Anã, às margens do Arapiuns, a energia solar passou a sustentar a refrigeração de vacinas, atendimentos de telemedicina e equipamentos como nebulizadores.
Amazônia ultrapassou 100 mil sistemas isolados de energia, mas ainda há cerca de 1 milhão de pessoas sem luz
Os sistemas independentes da rede elétrica se multiplicaram na região. Dados oficiais citados pela Associated Press apontam crescimento de 105 instalações em 2020 para mais de 100 mil em 2026. O pesquisador Fabio Galdino dos Santos, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), avalia que a quase totalidade desse conjunto utiliza energia solar.
O IEMA estima que aproximadamente 1 milhão de pessoas ainda vivam sem acesso à eletricidade na Amazônia. Para ampliar o atendimento, o Ministério de Minas e Energia aprovou um orçamento da ordem de R$ 6 bilhões para o Luz para Todos em 2026, incluindo recursos destinados a até 122 mil novas unidades consumidoras. A iniciativa federal tem escala e financiamento próprios, distintos das doações e obras comunitárias realizadas em Nova Sociedade.
Com previsão de nova estiagem, comunidades do Tapajós pedem mais poços, reservatórios e painéis solares
A ameaça de seca associada ao El Niño mantém a mobilização na região. Em agosto, 20 organizações levaram ao governo federal, em Santarém, propostas para reforçar o abastecimento e a segurança alimentar. Entre os pedidos estão poços, reservatórios e bombeamento solar em cerca de 2 mil comunidades que podem sofrer com a baixa dos rios.
Em Nova Sociedade, bombas, caixas de água e kits domésticos já passaram a fazer parte da rotina. A manutenção dos equipamentos e a gestão comunitária serão decisivas para atravessar novos períodos de estiagem sem repetir as caminhadas de 20 quilômetros de 2024.
Você conhece outra comunidade que passou a ter água ou eletricidade com energia solar? Conte sua experiência nos comentários e compartilhe esta reportagem com quem acompanha a vida e as soluções de energia limpa na Amazônia.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Flavia Marinho.

