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Após dois meses de queda, economia brasileira volta a crescer 0,5%, mas um detalhe nos números da FGV revela por que a recuperação ainda não chegou com a mesma força ao bolso das famílias brasileiras
Escrito por Felipe Alves da Silva
Publicado em 19/10/2026 às 23:40
Atualizado em 19/10/2026 às 23:45
Economia
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Levantamento da Fundação Getulio Vargas mostra que a indústria extrativa, os serviços e as exportações ajudaram a reverter a retração econômica em agosto, enquanto o consumo das famílias avançou apenas 0,4% no trimestre móvel, a menor expansão desde outubro de 2025.
A economia brasileira voltou a crescer em agosto de 2026, interrompendo uma sequência de dois meses consecutivos de retração. O avanço de 0,5% em relação a julho, divulgado nesta segunda-feira, 19 de outubro, pela Fundação Getulio Vargas (FGV), trouxe um sinal de recuperação para a atividade econômica nacional.
O resultado, porém, esconde uma diferença importante entre o crescimento da produção e o comportamento do consumo dos brasileiros.
Enquanto a indústria extrativa e o setor de serviços ajudaram a impulsionar a economia, o consumo das famílias avançou apenas 0,4% no trimestre móvel encerrado em agosto, na comparação com o mesmo período do ano anterior.
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Foi o menor ritmo de expansão desse componente desde o trimestre encerrado em outubro de 2025.
Os números constam do Monitor do PIB-FGV, elaborado pelo Instituto Brasileiro de Economia (FGV IBRE), que acompanha mensalmente o desempenho da atividade econômica brasileira.
A recuperação, portanto, aconteceu. Mas os dados mostram que ela não foi acompanhada por uma aceleração generalizada das compras das famílias.
Economia brasileira cresce 0,5% e interrompe sequência de resultados negativos
O crescimento de agosto representa uma reversão importante depois das retrações registradas nos dois meses anteriores.
Na comparação com agosto de 2025, a atividade econômica apresentou expansão de 1,5%. Já no trimestre móvel encerrado em agosto, o crescimento chegou a 1,7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O avanço acumulado em 12 meses alcançou 1,8%.
Monitor do PIB-FGV — agosto de 2026
+0,5%
Agosto ante julho
+1,5%
Agosto ante agosto de 2025
+1,7%
Trimestre móvel, comparação anual
+1,8%
Acumulado em 12 meses
Fonte: Monitor do PIB-FGV, divulgado em 19/10/2026. As taxas representam períodos de comparação diferentes.
O levantamento também estima que o Produto Interno Bruto brasileiro acumulado de janeiro a agosto atingiu R$ 9,020 trilhões em valores correntes.
Esse valor representa a produção econômica estimada ao longo dos oito primeiros meses do ano, não o PIB anual completo.
A recuperação ocorreu mesmo em um ambiente de inflação persistente e política monetária restritiva.
Para Claudio Considera, pesquisador associado do IBRE, o resultado demonstra capacidade de reação da economia brasileira, apesar das pressões que continuam limitando a atividade.
Há, entretanto, uma diferença fundamental entre recuperar crescimento após meses negativos e iniciar um período prolongado de expansão. Um resultado mensal positivo ainda não permite concluir que a desaceleração econômica tenha terminado.
Indústria extrativa e serviços sustentaram a recuperação brasileira
O desempenho de agosto teve participação relevante da indústria extrativa e da continuidade da expansão dos serviços.
A indústria extrativa reúne atividades como a produção de petróleo, gás natural e a extração de minérios. São setores capazes de movimentar volumes expressivos de produção, investimentos e exportações.
O Monitor do PIB-FGV identifica a indústria extrativa como um dos segmentos que contribuíram para o crescimento pelo lado da oferta, sem apresentar, no resumo divulgado, uma taxa individual de expansão dessa atividade no mês.
Pelo lado da demanda, as exportações e o consumo do governo exerceram influência positiva.
O comportamento desses componentes ajuda a explicar por que a economia conseguiu registrar crescimento mesmo com o enfraquecimento do consumo das famílias.
A expansão do PIB não depende exclusivamente das compras realizadas pelas pessoas. Produção industrial, exportações, investimentos e despesas governamentais também fazem parte da atividade econômica.
É possível, assim, que a produção avance sem que as famílias aumentem suas compras na mesma intensidade.
Esse contraste aparece de maneira particularmente clara nos números de agosto.
O dado mais preocupante está no consumo das famílias: apenas 0,4%
O consumo das famílias cresceu 0,4% no trimestre móvel encerrado em agosto, na comparação com o mesmo trimestre de 2025.
O resultado representa a menor taxa de expansão desde o trimestre móvel encerrado em outubro do ano anterior, segundo a FGV.
A decomposição desse indicador revela comportamentos diferentes entre os tipos de produtos adquiridos pelos brasileiros.
Os bens duráveis apresentaram contribuição positiva, ajudando a sustentar o consumo agregado. Nessa categoria entram produtos utilizados por vários anos, como eletrodomésticos, móveis e automóveis.
Já os bens não duráveis e semiduráveis contribuíram negativamente para o desempenho do consumo. Os serviços tiveram participação próxima de zero.
O levantamento mostra que, nos trimestres móveis mais recentes, os produtos duráveis permaneceram como principal componente positivo, enquanto os serviços perderam força como motor do crescimento.
Essa combinação merece atenção.
O crescimento das vendas de determinados bens duráveis não significa que todo o consumo esteja aquecido. Quando o resultado geral avança apenas 0,4%, mesmo com a contribuição positiva desses produtos, fica evidente que outras categorias estão limitando a expansão.
Os números não permitem afirmar que as famílias brasileiras passaram a gastar menos em termos absolutos. O consumo agregado continuou crescendo na comparação anual, mas em ritmo mais lento.
Também não é possível medir diretamente a situação financeira de cada família a partir do Monitor do PIB. O indicador acompanha a evolução agregada da atividade econômica, não a renda ou o orçamento doméstico individual.
Investimentos crescem 1,6%, mas máquinas e equipamentos ainda apresentam desempenho negativo
Outro dado importante da pesquisa aparece na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), indicador utilizado para acompanhar os investimentos produtivos na economia.
A FBCF cresceu 1,6% no trimestre móvel encerrado em agosto, em comparação com o mesmo período de 2025.
O avanço foi sustentado principalmente pela construção e por outros componentes do investimento, que compensaram a contribuição negativa de máquinas e equipamentos.
Segundo a FGV, a recuperação dos investimentos vem ocorrendo desde o segundo trimestre de 2026.
A taxa de investimento da economia brasileira chegou a 19,1% em agosto.
O desempenho mostra que a recuperação da formação de capital também não acontece de maneira uniforme.
A construção ganhou importância na sustentação dos investimentos, enquanto máquinas e equipamentos continuaram exercendo influência negativa, embora menos intensa do que anteriormente.
Para a indústria brasileira, essa diferença importa porque investimentos em máquinas e equipamentos estão associados à ampliação e à modernização da capacidade produtiva.
A FGV não atribuiu, nesse levantamento, a fraqueza específica desse componente a uma única causa.
Exportações aceleram para 2,5%, enquanto importações avançam 6,4%
O comércio exterior também participou da recuperação econômica brasileira.
As exportações cresceram 2,5% no trimestre móvel encerrado em agosto, na comparação com o mesmo período de 2025, acelerando em relação à expansão de 0,4% observada no trimestre móvel anterior.
Segundo o estudo da FGV, o resultado teve contribuições positivas das exportações de serviços, bens intermediários e produtos agropecuários.
A indústria extrativa mineral, que havia exercido influência negativa sobre o desempenho exportador nos períodos anteriores, passou a contribuir ligeiramente de forma positiva.
As importações apresentaram crescimento ainda maior: 6,4% no trimestre móvel encerrado em agosto, ante expansão de 4,0% no período imediatamente anterior.
A elevação das compras externas foi impulsionada principalmente por serviços, bens de consumo e bens de capital.
As importações entram com sinal negativo no cálculo do PIB pela ótica da despesa. Por isso, seu crescimento não equivale, isoladamente, a uma contribuição positiva para o PIB.
O crescimento das exportações ajuda a sustentar a produção nacional, especialmente em atividades ligadas ao mercado internacional.
Já a expansão das importações pode refletir maior aquisição de produtos, serviços e equipamentos estrangeiros, mas também representa uma parcela da demanda atendida pela produção externa.
Por esse motivo, não basta comparar as duas taxas para concluir se o setor externo contribuiu positiva ou negativamente para o crescimento total. Essa avaliação depende dos pesos de cada componente e dos demais elementos das contas nacionais.
Banco Central também identificou recuperação em agosto, mas com um alerta para o trimestre
O resultado divulgado pela FGV encontra respaldo em outro indicador de atividade econômica publicado poucos dias antes.
Em 16 de outubro, o Banco Central informou que o Índice de Atividade Econômica (IBC-Br) cresceu aproximadamente 0,3% em agosto, após duas quedas mensais consecutivas.
Segundo os números do BC, a indústria avançou cerca de 0,9% e os serviços cresceram aproximadamente 0,2%, enquanto a agropecuária apresentou retração próxima de 1,8%.
Apesar do crescimento mensal, o IBC-Br registrou contração de 0,6% no trimestre encerrado em agosto em comparação com os três meses terminados em maio.
A aparente divergência entre o avanço trimestral informado pela FGV e a queda apontada pelo Banco Central não representa necessariamente uma contradição: os indicadores utilizam metodologias diferentes e, nesses casos, bases de comparação distintas.
A FGV informou crescimento trimestral de 1,7% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o Banco Central comparou o trimestre encerrado em agosto com os três meses imediatamente anteriores.
Os dois levantamentos sugerem uma recuperação em agosto, mas ainda não comprovam uma aceleração sustentada da economia ao longo do segundo semestre.
O que os números de agosto indicam para os próximos meses?
A recuperação de 0,5% trouxe um resultado favorável para a atividade econômica brasileira depois de dois meses negativos.
O dado mais relevante, porém, está na composição desse crescimento.
A indústria extrativa e os serviços ajudaram a recuperar a produção. As exportações avançaram. Os investimentos mantiveram crescimento, sustentados principalmente pela construção.
Ao mesmo tempo, o consumo das famílias apresentou sua menor taxa de expansão desde outubro de 2025, evidenciando uma demanda doméstica ainda pouco dinâmica.
A próxima etapa será observar se a melhora de agosto terá continuidade nos indicadores de setembro e nos resultados oficiais do PIB trimestral divulgados pelo IBGE.
A trajetória dos serviços, a evolução do consumo familiar e o comportamento dos investimentos em máquinas e equipamentos serão especialmente importantes para avaliar a consistência da recuperação.
A economia brasileira conseguiu voltar a crescer. O desafio agora é transformar essa reação em uma expansão mais abrangente, que também apareça de forma consistente nas compras das famílias e na atividade produtiva.
Conteúdo reproduzido originalmente em: clickpetroleoegas por Felipe Alves da Silva.

